Esteticista pede a Consulado apoio para transportar corpo de brasileiro. Família precisa de 5,5 mil euros para trazer o corpo

Esposa do brasileiro morto com facada em Lisboa. (Foto: Reprodução/Correio da Manhã)

Esposa do brasileiro morto com facada em Lisboa. (Foto: Reprodução/Correio da Manhã)

Indignação. Este é o sentimento da esteticista Andressa Valéria da Silva, 26 anos, viúva do marceneiro Luciano Correia, 28 anos, que foi assassinado no último domingo, quando urinava na rua, na cidade de Caldas da Rainha, em Portugal. Lutando para conseguir trazer o corpo do companheiro para o Brasil, Andressa reclama que até agora não obteve ajuda do Consulado.

Por telefone, ela contou ao CORREIO que, além do transporte do corpo, que a família não tem como pagar, ela quer vir ao Brasil para o enterro do companheiro, mas as autoridades portuguesas não permitem sua saída, pois ela é a única testemunha do crime. “Eles não podem me segurar aqui. Eles têm que permitir que minha filha se despeça do pai”, apela.

Solidariedade

Para tentar resolver a situação, familiares e amigos estão ajudando como podem. Segundo Andressa, um tio de Luciano que mora na Espanha já está em Portugal para dar apoio, e outras pessoas também ofereceram sua solidariedade, como o casal de amigos que está abrigando a esteticista e a filha em casa.

A mãe de Andressa, Edna Santos, que mora em Lisboa há 7 anos, também está se mobilizando. “Estou na porta do Consulado passando uma lista para os brasileiros fazerem doações para transportarmos o corpo”, conta. O corpo já foi liberado e a família corre contra o tempo para conseguir os 5,5 mil euros para trasladá-lo para o Brasil em até uma semana.

Planos

Luciano foi assassinado na madrugada de domingo, supostamente porque fazia xixi na rua, segundo divulgado pela imprensa portuguesa. O crime, porém, tem ingredientes que conduzem a um ato de xenofobia (veja quadro).

Luciano e Andressa planejavam se mudar no próximo domingo para uma casa só deles, alugada com muito sacrifício, e queriam vir embora para o Brasil em janeiro. “A gente estava sem dinheiro, mas Luciano fez um trabalho de quarta até sábado pra juntar o dinheiro pra mudança. Quando saímos no domingo, isso tudo aconteceu”, relata a viúva.

“Agora, minha filha Isadora, de 1 ano e 9 meses, está com diarreia e vômitos e chora pelo pai que ela conheceu, pois ele não é pai biológico dela. Quando a gente se conheceu eu estava grávida”. Andressa quer deixar Portugal: “Quero pegar minha filha, enterrar meu marido no Brasil e ficar perto da minha sogra. Vai ser como se estivesse perto dele”, diz, em lágrimas.

A explicação do Itamaraty
No final da tarde de ontem, o Itamaraty informou que não pode pagar pelo traslado do corpo de Luciano. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, não existe lei que permita esse tipo de despesa, e qualquer gasto do Itamaraty tem que estar orçado de acordo com a lei. A assessoria informou que o Consulado pode apoiar a família sobre o que ela precisa fazer para liberar o corpo, porém, não pode pagar pelo transporte.

Família denuncia preconceito
Para a família de Luciano Correia , tudo leva a crer que o crime foi motivado por xenofobia. Isso porque o assassino fez agressões verbais ao marceneiro pelo fato de ser brasileiro. “Ele falou ‘brasileiro de m… vai pra sua terra’. Em nenhum momento falou sobre o fato dele estar urinando na rua”, relatou a viúva, Andressa da Silva.

“Quem mora aqui em Portugal sabe como os brasileiros são discriminados. Enquanto os brasileiros recebem qualquer um de braços abertos, o que a gente encontra aqui é humilhação e xingamento. Mulheres brasileiras são taxadas de prostitutas e os homens de vagabundos ou ladrões”, desabafa.
O estudante brasileiro Ricardo Henrique Santos, 24 anos, mora em Portugal há dois anos e já sentiu na pele o preconceito.

“Ia atender a um cliente no call center e ele me disse que não queria ser atendido por um brasileiro”, conta. Na opinião do antropólogo Roberto Albergaria, as razões para as disputas entre portugueses e brasileiros são históricas. “As relações entre os dois países são conflitantes desde a independência”.

Para Albergaria, as piadas com português, por exemplo, são uma forma de vingança do colonizado com o colonizador. “Os costumes do brasileiro são uma afronta ao rigorismo dos costumes portugueses. São culturas muito diferentes. Eles não suportam o jeitinho brasileiro. Para eles, isso é coisa de malandro mesmo”.

Segundo o antropólogo, em Portugal há uma forte presença de brasileiros com costumes que desagradam. “A xenofobia é uma atitude universal e é uma consequência da crise econômica mundial em que as pessoas sentem que não há lugar para todos. Esse sentimento está cada dia mais presente, e em épocas de recessão, a tendência é que isso aumente”, observa.

Ayeska Azevedo | Redação CORREIO DA BAHIA
[email protected]