O imperador romano Calígula nomeou seu cavalo favorito, Incitatus, para o Senado – naquele tempo, o Congresso só tinha uma Casa. Há quem diga que Calígula nomeou Incitatus para demonstrar seu desprezo pelos senadores da época, um bando de gente sem espinha que só queria os favores do trono; há quem diga que, sem prejuízo de sua opinião sobre os parlamentares, Calígula nomeou Incitatus porque estava doido (o que também era verdade). Incitatus tinha 18 assessores, dispunha de fortuna pessoal (colares de pedras preciosas), usava mantas nas cores reservadas ao imperador. Custava caro, Incitatus; mas até que seu mandato saiu barato, porque besteiras pelo menos não fazia.

Bons tempos, bons tempos. Incitatus se contentava com feno e alfafa, não dava muita importância às honras com que o cumulavam (uma estátua de mármore em tamanho natural, por exemplo, com base em marfim), e ao que se saiba jamais pleiteou cargos na administração nem fraudou o Orçamento. Jamais recebeu sequer os salários referentes ao cargo; ignorava solenemente os múltiplos auxílios, ajudas, verbas, passagens. Nepotismo, nem pensar. Sua ficha era limpa, cândida – como cândida deveria ser a túnica de um candidato sem mancha.

Que os leitores perdoem este colunista pelas divagações históricas de fim de ano, que obviamente nada têm a ver com o presente. E pelas lembranças poéticas. O título deste artigo foi inspirado no Rondó dos Cavalinhos, do grande Manuel Bandeira: “Os cavalinhos correndo/ e nós, cavalões, comendo”.

Relembrar é preciso

Deputados e senadores aprovaram a jato o reajuste que os transformou em parlamentares mais bem pagos que os dos EUA, Grã-Bretanha e outros países ricos. Só para que ninguém esqueça, aqui estão seus novos rendimentos:

Salários: R$ 27.723,13 (são 15 por ano); verba indenizatória, para o escritório político em sua base eleitoral: R$ 15 mil mensais; auxílio-moradia, R$ 3.800 mensais. No total, são R$ 641.446,95 por ano, ou R$ 53.453,91 por mês.

Mas ainda há mais coisas:

Reembolso total e ilimitado, para o parlamentar e seus dependentes, de tratamento médico e dentário (a esposa do ministro Édison Lobão, por exemplo, gastou R$ 26 mil para arrumar os dentes, neste ano, por nossa conta). Telefone e correio grátis. Passagens aéreas. Gráfica gratuita. E muitos, muitos assessores.

Etiqueta congressual

Se mandar um e-mail a algum parlamentar, evite chamá-lo de “caro amigo”. A boa educação ensina que nem tudo o que é verdade deve ser dito.

O número da sorte

Há quem acredite em coincidências; há quem acredite que coincidências não existem. O fato é que a senadora Serys Slhessarenko, aquela parlamentar petista de ampla biografia que relata o Orçamento de 2011, reservou 171 de reais bilhões para investimentos. Não é 170, nem 172: é um sete um. Parece provocação.

Lula candidato

A declaração de Lula, de que pode ou não ser candidato em 2014, não tem a menor importância: é a única resposta que poderia dar diante de uma pergunta sobre o futuro distante, formulada antes até que sua sucessora tome posse. Depende do que acontecer: há circunstâncias em que Dilma será candidata natural, há circunstâncias em que Lula será candidato natural, há circunstâncias, até, em que Lula e Dilma possam disputar a candidatura. Se o cavalo encilhado passar perto de sua porta, Lula vai montá-lo. Se não passar, não vai – mas precisa estar preparado, o tempo inteiro, para a oportunidade de ser candidato de novo.

Fim dos tempos

Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola, fundador do PDT, estuda trocar de partido: insatisfeita, pensa no PSOL, o partido de Luciana Genro, filha do governador petista Tarso Genro. Juliana perdeu as últimas disputas dentro do PDT e se sente isolada no partido. E é melhor, mesmo, sair logo: o deputado federal pedetista Marcos Medrado convidou ACM Neto, neto do cacique baiano Antônio Carlos Magalhães, que fundou o PFL, a entrar no PDT. Medrado diz falar em nome de Carlos Lupi, ministro do Trabalho e presidente nacional do partido. Garantiu a ACM Neto legenda para disputar a Prefeitura de Salvador ou o Governo baiano. Para Juliana Brizola, já irritada, como seria conviver com ACM Neto?

Cada vez aumenta mais

Do ator José de Abreu, que esteve em todas as fotos de Dilma no dia da apuração, em seu twitter: “Dia da posse de Dilma, 1/1/11 dá 4: o renascimento do ‘um’ depois das experiências do ‘dois’ e do ‘três’. Auspicioso, muito auspicioso”. Se é Abreu que diz, deve ser mesmo. Só falta alguém explicar para a gente.

Nosso Natal

Um filme engraçadíssimo, A vida de Brian, com o grupo Monty Python, narra a história de um rapaz que nasceu numa manjedoura ao lado da de Jesus. Os Reis Magos erram a porta e fazem suas oferendas a Brian: ouro, incenso e mirra. Os pais de Brian esclarecem logo: da próxima vez, esqueçam o incenso e a mirra e tragam apenas ouro. O filme não traz à lembrança nosso Natal parlamentar?