Homilia proferida na Missa em Ação de Graças pelos 477 anos de Ilhéus.

Ilustríssimos senhores
Prefeito Municipal, Newton Lima e esposa,
Vice-Prefeito Mário Alexandre e esposa,
Vereadores e Secretários municipais,
Autoridades judiciais, militares e religiosas presentes
Irmãos e irmãs.

Neste dia em que a nossa cidade de Ilhéus completa 477 anos quero partilhar esta reflexão a partir da carta encíclica do Papa Bento XVI, publicada em 29 de junho de 2009, Caritas in Veritate, a Caridade na Verdade.

O Santo Padre destaca o sentido verdadeiro do AMOR, nascido do testemunho de Cristo durante sua vida terrena, mas, especialmente, com sua morte e ressurreição, o qual constitui uma força propulsora do verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade.

O AMOR, síntese de toda vida de Cristo, faz com que seus discípulos, ao aderir ao projeto do Reino de Deus, se comprometam com a justiça e a paz. Cada um é sensibilizado e levado a amar a todos, da mesma forma que Deus amou: “Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projeto de vida verdadeira que Deus preparou para nós.” (n. 1)

Escreve o Papa: “a caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja [...] Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo, porque, como ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, Deus caritas est “Deus é caridade”: da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende.” (n. 2) A caridade dá sentido existencial à relação pessoal com Deus e com o próximo.

Por outro lado, a caridade deve ser iluminada pela verdade, da mesma forma que a verdade deve ser iluminada pela caridade: “A verdade há de ser procurada, encontrada e expressa na “economia” da caridade, mas esta por sua vez há de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade.” (n.2)

Somente na verdade é que brilha a caridade, e, uma vez compreendida, leva os homens a partilhar e comunicar sua riqueza: “Com efeito, a verdade é “λóγos”(palavra) que cria “δiα-λóγos”(diálogo) e, conseqüentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas.” (n. 4)

A caridade na verdade é um principio em torno do qual gira toda a doutrina social da Igreja; dele emanam os critérios orientadores da ação moral.

O Papa destaca a supremacia da caridade sobre a justiça, mas esta é o primeiro caminho para a caridade: “Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius (onde há sociedade, aí está o direito): cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é “meu”; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é “dele”, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso “dar” ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de tudo, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é “inseparável da caridade”, é-lhe intrínseca”. (n.6)

O Papa faz um diagnóstico sobre o desenvolvimento humano no nosso tempo, com suas contradições e desigualdades flagrantes, mas também com suas potencialidades tecnológicas. Coloca em destaque o pensamento de Paulo VI, para quem o desenvolvimento indica, antes de qualquer coisa, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo.

Do ponto de vista econômico, o desenvolvimento objetiva à participação ativa e em condições de igualdade no processo econômico internacional; do ponto de vista social, à sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz.
O Papa Bento XVI critica o neoliberalismo: “O objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza. […] Todavia há que reconhecer que o próprio desenvolvimento econômico foi e continua a ser molestado por anomalias e problemas dramáticos, evidenciados ainda mais pela atual situação de crise. Esta coloca-nos improrrogavelmente diante de opções que dizem respeito sempre mais ao próprio destino do homem, o qual, aliás, não pode prescindir da sua natureza. As forças técnicas em campo, as interrelações em nível mundial, os efeitos deletérios sobre a economia real duma atividade financeira mal utilizada e majoritariamente especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com frequência provocados e depois não geridos adequadamente, a exploração desregrada dos recursos da Terra, induzem-nos hoje a refletir sobre as medidas necessárias para dar solução a problemas que são não apenas novos [...], mas também e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade. […] A crise obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenho, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas.” (n. 21).
A encíclica denuncia que “cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora. Continua “o escândalo de desproporções revoltantes”. Infelizmente, a corrupção e a ilegalidade estão presentes tanto no comportamento de sujeitos econômicos e políticos dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países pobres”. (n. 22).
A Encíclica conclui que sem Deus o homem não sabe para onde caminhar, nem consegue entender a si mesmo, e conclama a todos para um humanismo integral. “Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio à palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5), e encoraja: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela fé na presença de Deus junto daqueles que se unem no Seu nome e trabalham pela justiça. [...] Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral.”(n.78)

Este ensinamento do Papa Bento XVI induz a uma mudança de mentalidade de cada um em particular, bem como a de nossos políticos e gestores afim de que adotem uma política de desenvolvimento, que não descuide dessas verdades expostas pela Igreja, de que a caridade (o amor) deve ser iluminada pela verdade, e esta pelo amor.

Nossa Senhora da Vitória e São Jorge, nossos padroeiros, intercedam junto de Deus as graças que precisamos para trabalharmos na construção do Reino de Deus, reino da verdade e da vida, reina da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.

Ilhéus, 28 de junho de 2011

Dom Mauro Montagnoli
Bispo da Diocese de Ilhéus


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