(Discurso proferido por Cyro de Mattos na instalação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, auditório da Faculdade de Ciência e Tecnologia, 5/11/2011).

Ilustríssimo Senhor Presidente da Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia de Letras de Itabuna, Dr. Marcos Bandeira, ilustríssimas autoridades presentes ou aqui representadas, meus senhores, minhas senhoras.

Começo fazendo dois registros. O alegre vem do  presidente da Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, para  quem  o  jornalista e cronista Antonio Lopes já teceu   as merecidas referências e homenagens.  Ressalto que cada dia vou vendo  mais como a vida precisa de pessoas como Aramis Ribeiro Costa. Homem de finos tratos, culto, cordial, sincero. Formado em Letras, médico conceituado em Salvador. Participativo presidente da Academia de Letras da Bahia. Sobretudo é um escritor, que transita com facilidade no conto, romance, poesia e literatura infantil. Não posso deixar de considerar que para mim é no conto que desponta sua obra como uma das perpendiculares das letras brasileiras contemporâneas. Sou seu leitor e admirador, desde muito tempo,  daí incluir um de seus contos, “Dez Anos depois”, um primor de narrativa curta, na antologia  “O Conto em Vinte e Cinco Baianos”, livro que organizei e que foi adotado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, durante  o período de três anos. Aramis Ribeiro Costa possui uma fluência admirável na escrita que seduz. Imaginação fecunda quando desenvolve uma história para flagrar instantes críticos da vida. Sua prosa de ficção curta movimenta-se  na linhagem do conto tradicional,  à maneira de Guy de Maupassant e do norte-americano  O. Henry, com uma linguagem de apreensão fácil, que no seu escorrer espontâneo vai erguendo pequenos e grandes mundos.  Ele é   instigante nas observações que faz da vida,  através de  personagens frutos de um legítimo criador de gente, por quem conhece os seres e as coisas no lado invisível da alma,  no ilogismo das ilusões e decepções,  mas ainda assim auscultados com ternura. Expõe bem a psicologia das criaturas que pretende situar no discurso coeso. Uns autores  preferem armar  a história   com a palavra transgressora que  recria a vida. Outros, como Aramis Ribeiro Costa, prefere criar uma  história com a linguagem simples e comunicativa da vida. Senhor escritor Aramis Ribeiro Costa, amplo e denso ficcionista, competente  presidente da Academia de Letras da Bahia, Itabuna sente-se honrada com a sua presença, que abrilhanta e enriquece muito este momento.

O registro triste vem do escritor, tradutor e jornalista Marcos Santarrita. Pertenceu à minha geração, em Salvador, naqueles idos de 1959 a 1964,  juntamente com o Alberto Silva, Carlos Falck,   Adelmo Oliveira, Fernando Batinga, Ildasio Tavares, Oleone Coelho Fontes, Maria da Conceição Paranhos e  Ricardo Cruz, entre outros.   No final de cada semana, lá estavam alguns desses companheiros em algum bar, na  Rua da Ajuda,  para,  entre goles de cerveja e muita conversa, percorrermos   os jardins quentes da noite. Falava-se e discutia-se sobre Kafka, Sartre, Brecht, Proust,  Joyce, Faulkner, Camus. Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa,  Graciliano Ramos, Autran Dourado, Aníbal Machado, Lúcio Cardoso, Lima Barreto, Adonias Filho, Jorge Amado. Maiacowsky, Fernando Pessoa, Mario de Sá Carneiro,  Carlos Drummond de Andrade. Garcia Lorca, Robert Frost. Aristóteles, Carlos Bousoño, Dámaso Alonso, Kurtius, Oto Maria Carpeaux. Marx, Garaudy, Lukacs.   Ficávamos inflamados quando comentávamos algum livro desses grandes escritores. Nossos quase deuses no mundo. Nem sabíamos que estávamos sendo escolhidos pela orquestração do destino para exercer tempos depois  o solitário e solidário exercício da vida com a  arte da palavra. De todos nós, Marco Santarrita era o mais revoltado com as traições  da vida. Leitor voraz, buscando equilibrar-se entre as crenças e os vazios do desespero. Eu dizia que ele era o nosso Lima Barreto. Ele não gostava. Completava que ele seria o nosso Dostoievski, ela tinha aquele sorriso que alargava o rosto. Não havia outra opção para ele, a não ser o de se tornar um grande escritor.  Ah, o tempo, que sabe todos os transes e trânsitos,  une e dispersa. Cada um de nós depois tomou o seu rumo, empreendeu o seu vôo nos caminhos da vida.  Pensando naqueles anos adolescentes é que fiz esse poema:

Passarinhos

Eram passarinhos

No frescor dos sonhos,

Na lã da aurora.

 

Eram passarinhos

Bicando os gomos da noite

Na aventura da madrugada.

 

Eram passarinhos

De cantares afoitos

No arco-íris das horas.

 

Eram passarinhos

Dispersos nas penas

Das rações duras.

Marcos Santarrita foi para o Rio de Janeiro, aos 25 anos de idade, lá sobreviveria como jornalista e tradutor, sem esquecer  seu sonho maior, que pulsava dentro dele  como desejo flamejante. Tornou-se tradutor de grandes escritores,  redator de jornais importantes como Última Hora e Jornal do Brasil. E estreou com as novelas de A Solidão dos Homens, livro que teve o prefácio de Adonias Filho. Enfrentando os instantes da chuva, nos dias  adversos da cidade grande,  persistiu na construção de uma obra pujante no corpo das letras brasileiras. E conseguiu. Cresceu, amadureceu, impeliu-se com talento e sensibilidade para ser de fato um  romancista expressivo, que elaborou seu discurso, de livro para livro,  com o foco na ossatura histórica, social e existencial dos que carregam duros conflitos em seu estar no mundo. Os seus romances Lady Luana, Danação dos Justos, A Santa de Itajuípe e Mares do Sul, por exemplo, mostram   que a literatura possui um  discurso poderoso para perceber o espírito do mundo com as vestes da  aventura humana, entre o jogo e o drama, o desespero e o precipício.  O mais verdadeiro de todos os discursos, que tantas vezes é feito com dor, muita dor,  não para agradar a grupos, mas para fundamentar a vida com as suas verdades essenciais. E ser útil ao outro e o mundo. Ele nasceu em Aracaju, residiu em Itajuípe e faleceu, há poucos mais de 30 dias,  no Rio de Janeiro. Falei com ele antes de partir, dei-lhe coragem,  mostrei o quanto a vida precisa dele como romancista. Ele me respondeu que estava vencendo a crise. Foi indicado por mim e aprovado por unanimidade pelos membros fundadores para ser um dos nossos membros efetivos  da Academia de Letras de Itabuna. Sua ausência traz  uma perda enorme para a nossa academia.

Meus senhores, minhas senhoras.

Programaram-me para que eu, representando os membros da ALITA,   falasse acerca da importância dessa academia de letras, que ora está nascendo.  Não deviam fazer isso. Eu não queria. A solenidade ficaria cansativa. Além disso,  sempre gostei  de ouvir quem sabe proferir o discurso com a palavra oral, sábia,  sonora e castiça. Ouvir para aprender. E sempre me senti à vontade com a palavra escrita.  Foi com a  palavra escrita que, bem ou mal,  cheguei até aqui. Lembro, nesse momento, que meu personagem Tidoramim, da narrativa Os Brabos, começa seu monólogo assim: “Você veja, Capivari, se o Pai Grande botou a gente nesse conforme duma boca e dois ouvidos é pra menos falar e muito mais ouvir. E sendo assim eu mesmo me bendigo: sou de menos falar, menos palavrar, menos discutir. Sou de mais olhar, mais ouvir, mais pensar, mais sonhar, mais sentir”.  Tidoramim é uma criatura inocente, ensimesmada,  acha que a vida é melhor e intensa para quem a lê em silêncio. Nasceu no campo, cresceu   e aprendeu a se comunicar com os seres e as coisas ouvindo  a linguagem dos pássaros  e dos bichos.

Meus senhores, minhas senhoras. É preciso compreender a criatura humana com a sua índole introspectiva e não confundi-la com o pedante. É preciso não ser leviano e compreender o ser humano em sua loucura lúcida,  não concebê-lo como um bicho diferente, perigoso sonhador,  um caso sem jeito, não faz nada de proveito real, trata-se de um rancoroso, inconseqüente ameaçador do sistema. É preciso  amar as pessoas como elas são e o que têm a nos dizer quando saem de dentro de si com os sentimentos puros e verdadeiros.   Aparentemente todos nós somos iguais, mas cada qual dentro de si carrega uma  fera ou um anjo, raramente. Cada cidade, que se quer civilizada, precisa reconhecer e estimar seus homens de letras, seus escritores, seus poetas, seus artistas. Beber o  suco melhor de sua inteligência.  Porque o que vale mesmo não é a casca, o verniz,  que simula os artifícios e as mazelas, transmite sem esforço a corrupção e a mentira. O que vale é a verdade com sua ética, que nos alimenta de humanidades sem as fronteiras do preconceito, E nos impinge o sentido rico da existência.

Nessas circunstâncias  sempre me perguntei o que é uma academia de letras? Para que serve? Todo intelectual para que seja completo deve ingressar em uma academia de letras?  Para que então se sinta realizado como um ente que pensa e sente? O poeta Carlos Drummond de Andrade resistiu durantes anos aos assédios do presidente Austragésilo de Athayde para que ele fosse membro da Academia Brasileira de Letras. O trivial lírico de Itabira não suportava falar nesse assunto. Já outro poeta maior, pleno de ternura e mansidão porque acreditava na existência das flores como meio para inaugurar  novos sentidos na permanente paixão da vida,  o gaúcho Mário Quintana, tentou várias vezes ingressar na Academia Brasileira  de Letras e sempre foi derrotado. Certa vez um jornalista perguntou-lhe por que insistia tanto em ser membro da Academia Brasileira de Letras quando na verdade ela era que precisava dele e de sua obra para se tornar mais rica.  Ele respondeu com esses versos: Eu sou passarinho/ Enquanto os outros passarão. Quando fui receber o Grande Prêmio  da Associação Paulista dos Críticos de Artes, em São Paulo, no Memorial da América Latina, em 1992, por meu livro O Menino Camelô, conheci Rachel de Queiroz, que naquela oportunidade iria receber a mesma láurea por seu monumental romance Memorial  de Maria Moura. Aproximei-me dela e disse que era de Itabuna, cidade onde ela havia passado  os primeiros anos de casada. Estava feliz por conhecê-la. Quando adolescente, havia lido seus romances O Quinze, Caminho de Pedras e As Três Marias, disse. Seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, como a primeira mulher que rompia as barreiras do preconceito de uma instituição cultural rígida,  deixava centenas de brasileiros sorrindo de contente e, em especial, as mulheres. Ela observou que não acreditava nisso de legado e de imortalidade em academia de letras. A gente aparece e desaparece, fica tudo na poeira do tempo, muita coisa acontece por acaso como num lance de dados, porque tem de acontecer, completou.

Nesses três casos que agora relato, percebe-se que  as posturas diferentes estão entrelaçadas de verdade com relação  à maneira de conceber o que é e para que vale uma academia de letras. O poeta Carlos Drummond de Andrade dá a entender que o que vale mesmo é a obra, o escritor sustenta-se é com o que produz no reino da sensibilidade. Não é uma academia de letras que faz que eu seja um bom escritor. Já Mário Quintana, com os seus versos que se tornaram célebres, diz que o espaço duma academia de letras é também a campina onde  passarinhos podem comer o alpiste para cantar e encantar. E voar.  É ali também o lugar dos sonhos, que circulam e se propagam pelas cidades do imaginário.  Enquanto a romancista cearense Raquel de Queiroz, com leve ironia,  penso,  pretendeu me dizer  que um  legado literário não é tudo, até  pode perdurar mais do lado de cá na vida, mas é pouco, muito pouco, é o ínfimo no macro, frágil e incapaz de decifrar o mistério insondável da morte. Sabemos que nesse  mistério cósmico, que nos habita e nos envolve, o sol, a lua, as estrelas não dependem de nós. Isso dói,  faz mais triste a vida, nessa noite sem amanhã,  que nos acompanha desde tempos imemoriais.

Meus senhores, minhas senhoras. Uma academia de letras  tem por objetivo o cultivo da língua e da literatura nacionais,  em suas relações com as artes e as ciências humanas consideradas como  ideais.  Vale lembrar que  a Academia Brasileira de Letras inspirou-se no modelo francês e que no início funcionava  para expressar o sorriso da sociedade. Importava-lhe apenas o cultivo das  belas letras  porque vivíamos numa época em que os nossos intelectuais pensavam  o Brasil com o pensamento na França. A nossa Academia Brasileira de Letras era assim fiel ao modelo que lhe deu origem, flutuante e perfumada  ao estilo de vida francesa na  bela época, no final do século XIX e começo do XX.  Suas atividades estavam sintonizadas com o  adorno do literário através da récita, a cantata e  o sarau dos salões aristocráticos. Nas  trilhas dessa valsa repetitiva, a Academia Brasileira de Letras caminhou por muito tempo  e inspirou outras academias nas capitais e interiores brasileiros. A partir da segunda metade do século XX, teve que mudar de comportamento, a sociedade exigiu-lhe essa mudança de hábito. Teria de ser um espaço criativo e dinâmico, se não quisesse ficar à margem do processo da vida com sua evolução permanente. Então passou a participar da vida em sociedade para o bem melhor e intenso das letras.  O mesmo  fez a Academia de Letras da Bahia de uns anos para cá,  promovendo cursos, oficinas, concursos, simpósios, ciclo de estudos, fazendo a inserção da universidade em seu espaço de bases acadêmicas.

Em um mundo em que os valores espirituais cada vez mais se tornam descartáveis, os valores materiais tomam conta de tudo, as gerações correm e voam numa automação incrível, que nos deixa estarrecidos,  cabem às  Academias de Letras cultivar como nunca a importância da língua,  da literatura e da comunicação, como manifestações  inerentes aos  seres humanos no elogio da vida. Por isso mesmo é que, através de atividades múltiplas, literárias, artísticas e culturais, podemos dizer que hoje  perenizam àqueles que as personalizam quando então usam os sinais visíveis da escrita e  da oratória como instrumentos úteis para a compreensão da existência. Mas isso só se faz real, eficaz e  abrangente,  duradouro e  de alcance maior na vida,  se houver nas suas atividades e projetos  a parceria dos setores importantes da sociedade.

Como tudo na vida, uma academia de letras precisa de recursos para sobreviver com dignidade. Executar com seriedade e trabalho suas atividades e projetos. Necessita da ajuda positiva das pessoas, da sociedade,  dos setores empresariais, dos poderes legislativo e  executivo do nosso município. Ela será sempre trôpega se depender apenas do esforço e do idealismo de alguns membros abnegados. É preciso  que no orçamento do  legislativo e do executivo exista uma cota ideal, decente,   para ajudar a nossa academia de letras,  que agora está nascendo com o propósito firme de levar o bem literário e cultural para os outros, os que fazem essa comunidade ser progressista. Gente da elite,  mediana e pobre.  Para que seus passos sejam largos e o sorriso que compraz  o rosto esteja sempre no semblante de nossa querida Itabuna. É  preciso que essa parceria se torne um costume consciente, lei que ajuda a regrar a vida como um corpo social coeso e equilibrado.  Para que assim  nossa amada região e nossa querida Bahia se orgulhem de nossa Academia de Letras. Reconheçam que a ALITA de fato  propicia meios para a valorização  da auto-estima dos outros no mundo. Contribui em parte  para retirar o homem grapiúna do ócio e da zona de risco.  Repito, uma entidade dessa natureza é de fato atuante, marcante,  quando ao seu lado existe uma parceria de amigos e patrocinadores.

É do pernambucano João  Cabral de Melo Neto esse poema:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

É de minha autoria esse pequeno poema que fiz ontem e que agora utilizo para encerrar a minha fala:

O Milagre da Poesia

 

Lá longe o velho sol

Não pintava os desertos

Com as cores da  manhã.

A lua não espalhava dores,

A chuva não fecundava

O ventre mineral da terra.

O vácuo inútil era tudo.

A  razão e a emoção

Estenderam a palavra

No vazio do mundo.

Com suspiros e pesares,

Embora existam as flores,

A vida deu-me os sabores.

A poesia,  os rumores.