Estou convencido de que o Governo do nosso amigo Newton Lima, depois da mudança da equipe médica, ou melhor, da equipe de administradores, dos últimos tratamentos a que vem sendo submetido, dos remédios que lhe estão sendo administrados, e principalmente do Pajé JG, nos braços do qual Newton resolveu se entregar, É UM DOENTE TERMINAL, e assim sendo, resta-nos apenas chorar a sua morte.

Desta forma, deixo que o moribundo tenha uma morte tranqüila, ou seja, lembrando de Tandick Resende, nosso Professor de latim, que o governo de Newton “Requiescat in pace”,  e pelo menos por enquanto não vou mais criticar ou dar idéias. Trato agora de assuntos mais amenos e diria que até divertidos. Aí vai….

Quando Alfredo Amorim publicou o seu texto sobre os malucos de Ilhéus aqui no R2CPRESS, lembrei imediatamente que este tinha sido um assunto que o nosso inesquecível Armando Oliveira havia abordado no seu livro “Crônicas de Armando Oliveira”, publicado em 2006 pela EGBA – Empresa Gráfica da Bahia, que eu tenho, guardo com muito cuidado e releio sempre.

Para que, aqueles que já leram o livro de Armando, recordem a sua prosa gostosa, e para que, aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler procurem uma livraria, comprem-no e leiam de cabo a rabo numa sentada, dou a seguir uma amostra grátis do livro.

MEUS MALUCOS DE INFÂNCIA  

JEEP

De vez em quando, nos porões da memória surge, empoeirada, a recordação de coisas antigas, aparentemente esquecidas, mas entulhadas na cuca.

Hoje, por exemplo – não me perguntem o porquê lembrei-me de Jeep, pirado municipal que povoou meu universo ilheense.

Rapaz forte, inofensivo, de poucas palavras, sua neura era imaginar-se um jeep, veículo àquela época muito popular entre os fazendeiros de cacau.

E levava sua mania às últimas conseqüências. Na mui formosa Capitania, não era fácil encontrá-lo. Quem, todavia, viajasse pela rodovia Ilhéus-Itabuna, quase sempre o flagrava em desabalada carreira, mantendo-se na mão, freando antes das curvas e buzinando na hora da ultrapassagem.

Jeep trafegava equipadíssimo. Antena amarrada ao pescoço, buzina na mão, volante na outra, rádio transmissor a tiracolo, sapatos, ou melhor, pneus de borracha e lanterna acesa quando viajava à noite.

Respeitador das leis de trânsito, nunca foi visto ultrapassando em lombadas, só parava nos acostamentos e quando, mui raramente, faltava-lhe fôlego, aliás, combustível, deixava-se rebocar e, com ar desolado, trepava na carroceria de algum caminhoneiro de boa vontade.

Ao emigrar para a Corte, perdi o contato com Jeep e não sei se depois de tanta rodagem ainda consegue fazer o percurso diário entre as duas maiores cidades da região, sem trocar de marcha.

Espero que o advento do “carro a álcool” não o tenha seduzido. Seria lamentável que, além da piração, ele houvesse aderido à biritagem, naquela de poupar gasolina.

NORONHA

Outro doido (era assim que a gente chamava) ilheense, que também me ficou na lembrança foi Noronha. Irmão de um famoso cantor baiano – seu sobrenome era outro – Noronha perdeu o juízo devido a trauma sofrido à beira do próprio túmulo.

Dado como morto por um apressado esculápio, após sofrer um ataque de catalepsia, ele despertou justo quando neguinho já fechava o caixão, provocando pasmo e correria entre os acompanhantes do enterro.

Situação, convenhamos, suficientemente forte pra desarrumar qualquer sótão.

Noronha mantinha-se habitualmente calmo, sorriso insano dependurado nos lábios, mas se transformava indo ao extremo do apedrejamento, caso algum gaiato tapasse o nariz à sua aproximação.

Aí perdia as estribeiras, berrava todos os palavrões a que tinha direito, mas não se esquecia de fazer essa ressalva: respeitem as famílias, cambada de (censurado).

Uma forma muito peculiar de revelar seu apreço à tradicional família ilheense.

SETE ESPÍRITOS

Este, na realidade, só manifestava sua loucura sob o efeito da bebida.

Sóbrio era um homem caladão, vivia de biscates e não perturbava ninguém.

Bastava entornar umas e outras, transformava-se no terror dos motoristas ilheenses, pois sua mania era atirar-se sob as rodas do primeiro veículo que encontrasse.

Daí a alcunha de “Sete Espíritos”, pois constava ter sido atropelado sete vezes e escapara com vida, embora muito machucado. 

Uma estranha compulsão suicida, que seria seu jeito de manifestar a dor causada pela perda da mãe, quando ainda era criancinha, esta, pelo menos, era a lenda corrente.

Quando morria alguém importante na comunidade, um jovem no verdor dos anos ou um Aristarco municipal, no velório pintava o indefectível comentário:

Pois é, há coisas que ninguém entende: “Sete Espíritos” procura a morte todos os dias e continua vivo. Já fulano, coitado…

VIROLLI

Vavá Virolli, como o chamavam os amigos mais chegados, entra neste pacote, como Pilatos no Credo. Oficialmente, pelo menos, era considerado normal.

Foi o primeiro herói em carne e osso que conheci. Pensando bem, o primeiro e último.

Quando do naufrágio do iate “Itacaré”, na costa ilheense, Virolli atirou-se ao mar e, lutando contra as gigantescas ondas naquele agosto de 1942, salvou inúmeras pessoas que, fatalmente, pereceriam nos recifes do Morro de Pernambuco.

Este ato de bravura rendeu-lhe emprego na Capitania dos Portos e a conquista da medalha  de “Honra ao Mérito”, recebida das mãos de Paulo Roberto, no Rio de Janeiro, durante o programa da Rádio Nacional que homenageava os autores de grandes façanhas.

Era um tipo nervoso, desajustado, tomava umas cangibrinas de mau jeito e, um dia, fiquei sabendo que apanhava da mulher.

Fuxico ou verdade, pouco importa, esta prosaica fraqueza do famoso ilheense o desmistificou definitivamente.

Dali em diante, comecei a desconfiar de todos os heróis.

Aproveito a proximidade do Natal, época em que são realizados muitos Amigos Secretos e dou como sugestão de presente o livro do nosso Armando Oliveira, que pode ser encontrado nas boas livrarias da cidade. Tenho absoluta certeza de que quem ganhar este presente vai adorá-lo e se divertir bastante com a sua leitura.

E quanto ao nosso Prefeito Newton, espero que ele tenha um excelente Natal, que 2012 seja de muita felicidade e trabalho, e que ele desminta todos os prognósticos, faça um excelente governo no seu último ano, eleja o seu sucessor, caso este não seja Josias Gomes, e saia do Palácio Paranaguá nos braços do povo.

Carlos da Silva Mascarenhas

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