Há alguns anos, acompanhando uma das palestras de Luís Henrique Beust, diretor-executivo do Instituto Anima Mundi (dedicado à implantação de programas na área de educação para a paz) algumas frases me chamaram a atenção. Referiam-se a um pronunciamento feito por uma ilustre durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher. Reproduzidas por Luís Henrique, as frases diziam mais ou menos assim: “Mulheres, precisamos nos posicionar. Não podemos esquecer que representamos pelo menos metade da população mundial e, que somos mães da outra metade”. Ora, que verdade insofismável! Até então, eu nunca havia pensado nisso. Era maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. Maravilhoso, porque temos nas mãos as possibilidades de mudança.  Terrível, porque há anos estamos inseridas nesse contexto e pouco fizemos para transformar a nossa própria situação, colaborando silenciosamente para a manutenção da violência e do preconceito face à mulher.

Inúmeras são as mulheres espancadas em seus lares, submissas aos seus agressores, indefesas diante dos homens que outras mulheres criaram e mal educaram. Discriminadas em seus locais de trabalho, ganhando menos que os colegas homens, para executar o mesmo tipo de trabalho. Vendendo seu corpo por bagatela, esquecendo-se de que se não existe oferta a procura acaba. Quanta coisa errada! E a quem devemos atribuir essas coisas?  À Deus?  Ao diabo?  Aos homens? Ou a nós mesmas? Interessante fazermos uma reflexão acerca das palavras dessa ilustre senhora que brilhantemente nos representou.

A mulher vem assumindo vasta gama de papéis, mas continua exercendo o de “dona-de-casa” e, principalmente, o de “mãe”. Por mais ajudantes que se tenha é fundamental a supervisão da “dona” da casa, em cujas costas recai o peso da administração do lar. O mesmo acontece em relação aos filhos. Quase sempre quem acaba por educá-los é a mãe, a avó, a tia, a madrinha, a madrasta. Raros são os filhos criados exclusivamente pelos pais, avós, tios, padrinhos ou padrastos. A mulher está sempre por perto, para dar uma mãozinha. Só que com tantos afazeres essa tarefa tão importante está sendo deixada de lado.

Hoje, os tempos são outros e educar filhos assume conotação de desafio. Situação, aliás, que tem sido negligenciada pela maioria. As crianças e adolescentes ficam perdidos, entregues à TV, ao videogame, às drogas, e à promiscuidade sexual. Normalmente, o pai trabalha o dia todo. E a mãe? Também trabalha o dia todo. E quem cuida dos filhos? Pois é… Quem cuida dos filhos? Tarefa importantíssima e relegada a um segundo plano. Hoje é preciso aprender a ser mãe. Antigamente não era bem assim. Parece que as mulheres já nasciam para ser mães. Elas eram valorizadas como tal, e tinham orgulho em educar seus filhos. Atualmente, as mulheres nascem para ser competitivas profissionais e acabam permanecendo mais tempo fora que dentro de casa. Trabalham para poder pagar uma escola particular período integral para seus pequeninos e ficam preocupadíssimas se não podem fazer isso. Às vezes, as mensalidades são maiores que os salários, mas elas nem cogitam a possibilidade de sair do trabalho para cuidarem de seus próprios filhos. Hoje em dia, ser “mãe” não tem valor algum. Sem querer polemizar, seria bom avaliarmos os resultados dessas escolhas e nos posicionarmos frente a isso.

Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: [email protected]) é escritora.