No Jornal A Tarde de 10.12.2011, Antonio Risério, que é poeta, escritor e antropólogo, publicou um artigo intitulado “Primavera baiana” no qual faz uma análise da atual situação da cidade de Salvador, chegando a afirmar: “Salvador, hoje, não é uma cidade abandonada, que está sendo progressivamente destruída. Mais do que isto: é uma cidade humilhada”.

Vou transcrever a seguir alguns trechos do artigo de Antonio Risério substituindo Salvador por Ilhéus, e ambientando o texto à nossa realidade, para que todos vejam como ele se aplica inteiramente à nossa cidade.

Em Ilhéus, hoje, precisamos levantar a cabeça, recuperar a disposição, buscar o entusiasmo, nos mobilizar para dizer, alto e bom som, que não aceitamos o que estão fazendo com a nossa cidade. Chega de passividade. Se o que está acontecendo com Ilhéus (avacalhação e destruição da cidade) estivesse acontecendo em Itabuna, Conquista ou Itapetinga, não tenham dúvida: itabunenses, conquistenses e itapetinguenses teriam subido nas tamancas e saltado na goela da Prefeitura. E nos, não vamos fazer nada?

Não falo da crise em sua monumentalidade: Avenida Soares Lopes abandonada, Praça Coronel Pessoa há dois anos em obras e inacabada, o quase centenário Grupo Escolar General Osório a ponto de desabar, ruas esburacadas, praias sujas, aliás imundas, o Pólo de Informática diminuindo a cada dia, o Distrito Industrial abandonada, postos médicos paralisados, escolas com sérios problemas físicos e pedagógicos, a falta de estrutura e de planejamento que fazem com que fiquemos sem ter nada para mostrar aos turistas que ainda insistem em nos visitar.

Embora graves estes problemas têm solução mais fácil. Não me refiro, igualmente, à violência que nos assola. A violência impressiona, mas não destoa do que acontece em outras cidades. Falo de outra espécie de crise, mais profunda e de efeitos mais deletérios. Ilhéus está em crise existencial. E precisamos, com urgência, fazer alguma coisa. Temos que refundar a cidade. Dar início a uma espécie de renascença ilheense. Mais: Ilhéus merece que façamos tudo isso por ela, e a gente merece voltar a sentir orgulho da nossa cidade.

Precisamos de, mesmo às vésperas do verão, promover uma espécie de primavera ilheense. Sim acho que está mais do que na hora de começar isso. É claro que não se trata de nenhuma comparação com o Oriente Médio. O que queremos é dar um jeito na cidade. Ilhéus sofre, hoje, com uma coincidência infeliz: uma desprefeitura que mescla estupidez e incompetência e um governo estadual omisso diante dos problemas da cidade (e, como me diz um amigo: “Menos com menos só dá mais na abstração matemática; na vida real, menos com menos dá menos ainda”.

Mas, como diz também Risério no seu texto e eu assino embaixo, não estamos condenados a assistir a isso sem dizer ou fazer nada. Em nome das nossas melhores tradições e do passado de Ilhéus, temos a obrigação de nos mobilizar e promover uma primavera ilheense. Basta querer. Somar as nossas vozes nessa direção. Na mídia tradicional e na internet. Em blogs, no facebook, no twitter. Vamos bater na mesa e dizer a Newton e a seus Secretários a cidade que queremos.

Ilhéus, hoje, não é somente uma cidade abandonada, que está sendo progressivamente destruída. Mais do que isso: é uma cidade humilhada. A hora é de aglutinar protestos isolados, manifestações soltas, vozes pontuais. Ou nos aproximamos e batemos na mesa, para reverter a situação atual e escorraçar a estupidez e a inércia, ou a cidade vai naufragar de vez. É hora de Ilhéus voltar a ser ativa, altiva e criativa, como tem sido historicamente.

Em nossa história, temos diversos exemplos de enfrentamento e superação de reveses e crises, como o foi na cassação de Valderico e por incrível que pareça, a posse do nosso atual Prefeito. É hora, pois, de nos unirmos para dar um basta nestes tempos de indefinição, alheamento, desesperança e imobilismo que vivemos há algum tempo e lutarmos para que Ilhéus reencontre o seu caminho de progresso e bem-estar social.

Carlos da Silva Mascarenhas

Ilheense

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