Com a dispersão da talentosa geração de Glauber Rocha, em 1964, outras gerações iriam despontar nos meios culturais da Bahia.  A chamada Geração Revista da Bahia acontece nessa época. Seus jovens integrantes já demonstravam ser possuidores de certo instrumental crítico para a discussão dos temas literários. Outro grupo que despontava naqueles idos era o de poetas liderados por Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho, que iria gravitar em torno das  Edições Cordel e revista Serial. Esses dois  jovens poetas baianos não demorariam para entrar no circuito nacional com seus livros e conquistas de prêmios literários importantes.
 

Este articulista fez parte da Geração Revista da Bahia, ao lado de Alberto Silva, Marcos Santarrita, Adelmo Oliveira, Oleone Coelho Fontes, Fernando Batinga, Ildasio Tavares,  Ricardo Cruz, Fernando Kraychete  e o desenhista Nacif Ganem. Todos nós liderados pelo crítico e poeta Carlos Falck, o guru espiritual  do grupo.  Éramos jovens intelectuais  pretendendo deixar nossa  impressão digital  nas letras baianas  da época. E alguns, como Ildasio Tavares e Marcos Santarrita, de fato elaboraram  anos depois uma obra significativa  no corpo das letras brasileiras.

 
Geração Revista da Bahia. Levava esse nome porque o corpo redacional da  Revista da Bahia, órgão cultural da Imprensa Oficial, dirigida pelo escritor e professor Germano Machado, era formado pelos jornalistas Alberto Silva e Marcos Santarrita. A revista recebia em suas páginas colaborações desses novíssimos  intelectuais, que tinham nos ombros o peso de susbstituir a fulgurante geração de Glauber Rocha,  que  havia sido dispersa pelo regime  militar de 64.  Era tarefa difícílima a de  uma nova geração substituir com o mesmo brilho intelectual aquela outra liderada pelo criador do cinema novo, que deixou pontos elevados na progressão da vida cultural da velha capital.

 


O elenco de jovens intelectuais que formava a  Geração Revista da Bahia, acima indicado,  pode ser ampliado com os nomes de Luís Carbogini Quaglia, louvado contista do mar, Maria da Conceição Paranhos, poeta e ensaísta, Fernando Ramos e Guido Guerra, promissores romancistas,  José de Oliveira Falcón, o poeta de Canudos,   o cineasta Orlando Sena e  outros.

 
Na visão do ensaísta Cid Seixas, o mais importante lançamento de poesia na Bahia, no período compreendido entre 1964 e 1974, aconteceu com o livro  ABC-reobtido, de Maria da Conceição Paranhos. O discurso da jovem poetisa, com bases em pesquisa e  atualização estética,  rejeitava os limites de certa retórica ornamental. Outro jovem intelectual baiano que desponta nas letras daquele período é Guido Guerra. Escritor de formação jornalística, ele trazia  para a sua prosa de ficção os atritos e rupturas do homem cotidiano. E assim começava a dar  andamento a uma  obra literária marcada  pelo texto rápido e conciso, capaz de deflagrar  o exato momento  em que o universo dos personagens desenvolve-se como o centro  de um sistema nervoso,  que lateja emoções no engajamento sensitivo do autor e o mundo.
 

A geração Revista da Bahia enfraqueceu com a ida de Alberto Silva, moderno crítico de cinema  e jornalista de um texto primoroso, para o Rio de Janeiro, em 1967, e logo a seguir a de Marcos Santarrita. Junta-se a isso o falecimento de Carlos Falk. Permaneceram  em Salvador aquelas outras jovens vozes  vocacionadas  para fazer da vida um consistente projeto literário.
 

 

Os sobreviventes da Geração Revista da Bahia, dispersos,  sem contar com a força aglutinadora de Carlos Falck,  presenças do Alberto Silva,  Marcos Santarrita e este articulista,  já não tinham a mesma motivação para se encontrar  nos botecos e bares da Rua da Ajuda, durante noites de sábado, ou na livraria da Civilização Brasileira, na rua Chile, em final de tarde, na semana.  Quando então se discutia as questões de literatura atual em torno de Kafka, Sartre, Brecht, Pessoa, Proust,  Joyce e Faulkner. Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Adonias Filho. Drummond, Jorge de Lima e Cecília Meireles. Marx, Lukacs, Ortega y Gasset e outros.

 

*Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior.