Recentemente um leitor amigo indagou-me por que em meus escritos não coloco o possessivo “nosso” em frente de Brasil. Algumas vezes, respondi-lhe em primeira mão.
Em seguida, após agradecer-lhe as leituras e a observação, sentindo-me na obrigação, procurei explicar-lhe. Então lhe disse que ao iniciar essa de escrevinhar, no tocante a questão mencionada, achava-me sim, com a emoção batendo mais forte e envolvida a um natural ufanismo, um dos donos da pátria amada, e que o tempo foi passando, passando e o velho sentimento esfriando, mas para não perder a esperança, nunca havia deixado de cutucá-lo e de tentar esquentá-lo, apesar das visões me continuarem assustando.
E prossegui. Poderia mostrar-lhe, companheiro, todas essas visões, mas como são longas e chocantes, me aterei em três que podem bem representar as demais: pelo lado das causas a da degradante corrupção e a das promessas, e a de um país terrivelmente desigual, pelo dos efeitos. Como elas são de saltar os olhos, como se diz, até parecem intrínsecas em nós! Oh, não! Peço-lhe desculpas! Você não tem nada a ver com isso. É que o esquema é pesado e somos todos ludibriados!

Rapaz, não queria entrar nesta seara, mas uma puxou a outra. Por falar em “nós” me veio lembrar aquele majestático, conhece? Sua origem, como sugere o nome, vem das majestades quando desejavam aparentar modéstia diante dos súditos. Hodiernamente pegou de cheio, especialmente entre os caras.
Não entendi! Reagiu. Não, não se avexe, esclarecerei com um exemplo caseiro. Vamos fazer de conta que o governador ao cumprir seu papel de governante vá à praça pública e meio á festança e ao foguetório, anuncie as inaugurações da ponte Ilhéus/Pontal e da estrada Belmonte/Canavieiras destacando no discurso o “nós”, numa fala socialista mais ou menos assim: “Nós ficamos orgulhoso em entregar…” ou “Estamos confiante nos aplausos do povo…”, entendeu? Perceba que o chefe ao abolir o personalísstico “eu”, despiu-se de vaidade, porém, aparentemente, porque tal artifício é, como antigamente, um dos meios inteligentes de enganar a torcida. E depois todo mundo está careca de saber, ser o executivo, claro, com sua soberana vontade, quem manda, o resto, coadjuva. Opa! Está com um ar de alegria, de satisfação!? Não vá nessa não, parceiro. Coloque na cabeça que essas realizações como falei, são conjecturas, portanto, de mentirinhas, senão encuca de vez. Aliás, a respeito, já prestou atenção aos adesivos “Cadê a ponte Ilhéus/Pontal?”, rolando soltos aqui na Capitania dos Ilhéus?
Continuava na tentativa de aclarar o caso do “nosso”, quando fui interrompido por meu interrogador. Basta. Ok. Captei aonde quer chegar. Sem mais, mais deduzi que embora lucrativa por excelência, de patrimônio gigantesco, e vocacionada ao crescimento, a empresa chamada Brasil, peca em persistir renovando os dirigentes com gente do mesmo perfil e com o agravante de logo se tornarem sócios majoritários, correto? Mas vem o pior: Com raríssimas exceções, gerenciam na base do jeitinho e se locupletam, enfim deitam e rolam com o dinheiro da firma, com o inusitado e deplorável fato de não distribuírem devidamente os dividendos ao grande conjunto dos sócios, os chamados minoritários. Como não o ausentou por completo, espero ter acertado a razão da frugalidade do pronome.

Corretíssimo– Respondi.
Heckel Januário