“Se ela me internar – quando eu sair de lá – mato ela!” A frase saiu da boca da avó, reproduzindo as palavras do neto que não aceita ser internado para tratamento. Num primeiro momento levei um susto, depois comecei a pensar como seria ser assassinada por alguém que não deseja ser ajudado. Situação cada vez mais possível atualmente; momento em que a maioria das pessoas se ressente da imposição de limites. Vale tudo, desde que seja para mim, obviamente. E você, que se dane! Posso entrar na sua casa, revirar as suas coisas, pegar seus objetos pessoais ou seu dinheiro, e sair tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Posso torrar todo o dinheiro fumando crack ou usando outras drogas. Você não pode me impedir, senão eu mato você! É o quadro atual.

De repente, lembro que com Jesus não foi diferente… Ele queria ajudar e foi morto por isso. Aliás, ao longo da história não foi só ele quem morreu. Várias pessoas bem intencionadas foram assassinadas por quem não aceitava ajuda. Interessante, não é mesmo? O egocentrismo fez inúmeras vítimas no passado e continua fazendo ainda hoje. Vale o que eu quero; o que eu desejo; o que eu busco… Você não vale nada! Não me importo com você, somente comigo mesmo. Deixe-me viver do meu modo, ainda que para eu viver – você precise morrer. Não há como conciliar nossos interesses, já que o meu único interesse é a minha própria satisfação. Sai pra lá, meu irmão!

Nós estamos assistindo esses episódios cotidianos cada vez mais comuns, no entanto, parece que continuamos com os braços cruzados. Afinal, nós não temos nada a ver com isso, não é mesmo? É; até o dia em que acontecer conosco, com os nossos filhos, com os nossos netos… Até o dia em que acontecer na nossa casa… Talvez, seja tarde demais, então. Por isso, precisamos abrir os olhos agora, hoje, e começar a fazer a nossa parte. Como faremos? Conscientizando nossas crianças, educando nossos jovens, amando nossos filhos, respeitando os filhos dos outros, auxiliando os necessitados para que não venham a se tornar os assassinos de amanhã.

Ignorar o problema não irá ajudar na sua solução. Precisamos ensinar e aprender a ceder, esperar, perder. Nem todos podem ganhar sempre. Às vezes, para se conquistar algo precisamos anos de dedicação e trabalho, mas tem quem imagine que pode e deve usurpar do outro todo o seu empenho em uns poucos minutos de ação criminosa. Só uma mudança de mentalidade pode alterar esse quadro vigente. A corrupção não está presente apenas em nossos governantes. Ela é fruto de nossas crenças e valores distorcidos. Somos vítimas de nossa postura “laissez-faire” ao longo dos anos. O cerco está se fechando… Cuidemos para que não sejamos os próximos a serem assassinados!


Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: [email protected]) é escritora.