Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Com o tema “Fraternidade e Saúde Pública” e com o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra” (cf. Eclo 38,8), inicia-se hoje, quarta-feira de cinzas, a Campanha da Fraternidade 2012. A saúde sempre foi uma das primeiras preocupações da humanidade. Quando pensamos na saúde do Brasil, nos vêm à mente cenas como falta de vagas em hospitais, leitos nos corredores, filas intermináveis, espera de meses por atendimentos especializados; bem como a luta dos profissionais contra a falta de equipamentos, medicamentos, ou contra a própria estrutura precária dos estabelecimentos de saúde.
A Constituição de 1998 garante a universalidade e gratuidade da saúde. Com a criação do SUS tentou-se alcançar esse ideal, mas a complexidade e custos crescentes têm tornado essa luta muito dificil. Algumas batalhas foram vencidas: a criação do Programa de Saúde da Família – PSF -, com ênfase na prevenção; o combate contra a AIDS, elogiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas surgiram outros desafios com a vida moderna, doenças como o stress, a depressão, o sobrepeso. O aumento da expectativa de vida e a diminuição do índice de fecundidade (que chegou a 1,8 nascimentos por mulher em 2008, menos do que o necessário para repor a população) e o consequente aumento da população idosa fazem com que doenças crônico-degenerativas e o câncer sejam cada vez mais prevalentes. Vivemos com a tragédia do crack que está por toda a parte.


Esta é a realidade da saúde no Brasil. Mas a saúde é mais que a ausência de doenças, como definiu OMS em 1946: “é um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. A OMS em 2003 incluiu também o estado de bem-estar espiritual como fator indispensável para a saúde integral. Olhando novamente para a situação do Brasil, vemos como a realidade está mais longe ainda do ideal. A condição social de muitos brasileiros é absolutamente precária. Apesar de sermos hoje a sexta economia do mundo, milhões vivem em favelas, em meio à violência, falta de infra-estrutura básica, vitimados pela miséria ou ainda flagelados pela seca.
A espiritualidade também vive momentos difíceis. Foi demonstrado em várias pesquisas que pacientes que têm fé e rezam têm uma recuperação mais rápida, e menos consequências negativas de suas doenças. A religiosidade sempre fez parte da vida humana desde tempos imemoriais. Jamais houve qualquer povo que não a tivesse.
Mas vemos hoje, principalmente entre a juventude, um afastamento e desilusão para com a religião. A frequência à missa dominical é bem menor. O hedonismo e o individualismo acabam falando mais alto, e muitos não têm mais tempo de pensar na saúde de sua alma frente à correria do mundo moderno e suas várias distrações: a televisão, a praia, a diversão … Quanto melhor a condição social, maiores as distrações.
Em países mais ricos o ateísmo ou a indiferença religiosa alcançaram níveis alarmantes, e tudo indica que o Brasil vai indo pelo mesmo caminho. Os mais pobres, por outro lado, acabam muitas vezes vitimados pela teologia da prosperidade e a inversão dos valores evangélicos.
O descuido com a saúde da alma pode ter consequências profundas, perda do sentido da vida, busca de refúgio nas drogas lícitas e ilícitas, depressão até entre jovens e crianças. Para onde estamos caminhando? Podemos lembrar a resposta de Deus ao homem rico da parábola: “Tolo! Ainda nesta noite, tua vida te será tirada. E para quem ficará o que acumulaste?” (Lc 12,20)
Como fazer para que o povo brasileiro possa ter saúde abundante em todos seus aspectos: saúde corporal, psicológica, social e espiritual? Que nesta Quaresma, tempo de oração e jejum, sintamo-nos impulsionados a meditar e buscar soluções para tamanho desafio, e que um dia realmente possamos afirmar: “Que a saúde se difunde sobre a terra” (cf. Eclo 38,8).

 

Dom Mauro Montagnoli
Bispo da Diocese de Ilhéus