Desta vida, José Haroldo Castro Vieira levou duas paixões: o amor ao cacau e ao órgão do cacau, a CEPLAC, que ele, egresso do Banco do Brasil, instituiu no início dos anos 60, depois expandiu e afirmou. Essas paixões, suscitadas e acendradas por circunstâncias adversas, provocaram-lhe ao menos duas mortes, antes do último trespasse.
Na última vez que nos vimos, já ele enfermo e magoado, confidenciou-me que, a pedido de autoridades de Brasília, preparava um plano de fomento da cacauicultura. Seria mais uma recuperação da lavoura e, paralelamente, da CEPLAC. Depois que o apearam do cargo de secretário-geral, onde passara 16 anos, o Zé, como nós o chamávamos, ainda pensava no órgão, ainda divisava dias melhores para a sua lavoura. Deles jamais se desligara emocionalmente.
Não se passa impunemente tanto tempo à frente de uma instituição. Mas, no caso de José Haroldo, sua permanência significava a certeza de renovação contínua – ele que era um espírito criativo, empreendedor. Não nego que houvesse apego pessoal ao cargo, pressão de amigos, orgulho. Subsistia, porém mais forte, o medo de que o órgão, e com ele a política do cacau, se esvaziassem em mãos profanas.
De fato, afastado José Haroldo, o que se viu? O imponente prédio-sede da instituição em Brasília, construído com recursos da lavoura (a taxa cambial cobrada sobre o cacau vendido), foi entregue de mão beijada a uma entidade federal. Um dos programas mais elogiados, o serviço de extensão rural, entrou aos poucos em colapso, com os agrônomos trocando as enlameadas botas de campanha pelos reluzentes sapatos urbanos. Sei que o grupo vai me execrar por essa lembrança, mas insisto em consigná-la aqui. As Emarc’s, escolas de ensino médio de agricultura, numerosas, entraram em igual diapasão. A CEPLAC perdia o crédito junto à lavoura, agora que era manipulada por políticos interessados apenas em votos e cargos.
No entanto, o golpe maior contra a lavoura foi a decisão de um governo militar em tirar-lhe a autonomia financeira e juntar-lhe o orçamento generoso à vala comum dos pingados orçamentos públicos. Também vale mencionar a pressão daquele e outros governos militares para criar novos pólos cacaueiros em regiões inadequadas ao cultivo. Era a expansão da fronteira da cacauicultura, com recursos dos lavradores baianos, e que teria aberto corredores, segundo opinião de muitos, à importação da vassoura-de-bruxa.

José Haroldo de Castro Vieira

O secretário-geral José Haroldo não resistiu. Tentou o lobby, tentou tergiversar – e cedeu. Tinha amor ao cargo, sim. Tinha orgulho de sua obra, sim. E temia, com a sua reação, desagradar os políticos e generais poderosos. Como o comandante holandês da anedota, tentaria evitar o naufrágio e, se preciso, naufragaria com o barco. Este pecado, o da subserviência forçada, é o único que se lhe poderia imputar.
No mais, um dirigente ativo, generoso – talvez generoso demais. Que o digam os mestrados e doutorados no Exterior, de que se beneficiaram alguns incompetentes. Projetos culturais se sucediam, amparo econômico ao Hospital Calixto Midlej Filho, pontes, estradas vicinais, a vitoriosa UESC, implantada a custo, seriam deveres de governantes – mas saíram daquela CEPLAC pioneira de José Haroldo.
É natural que os políticos profissionais olhassem o Zé com olhos enviesados. Afinal, ele lhes roubava a partitura e a condução da orquestra. Debalde o acusaram da pândega que se instalou no Conselho Nacional dos Produtores de Cacau. José Haroldo sabia, sofria e não tinha jeito a dar. A pressão sindical falava mais alto. Retirado o Zé da CEPLAC, a contaminação da má política (o PSDB do Centrão e o PT dos xiitas) não tardaria a prevalecer.
O fato é que, queiram ou não os seus adversários, prossiga ou cesse a polêmica, a lavoura cacaueira é credora e como!, de José Haroldo Castro Vieira. Se lhe dessem ouvidos, já quando começava a entoar o seu de profundis, os programas atuais de recuperação não estariam tão atrasados, nem os produtores a perder os seus bens e vender madeira para sobreviver, na tentativa da clonagem.
Abandonado pelos políticos, José Haroldo há de ter fragilizado o coração, como acontece aos românticos – aos que sobrepõem o ideal a considerações de ordem inferior. Que vá, portanto, em paz o velho Zé, o nosso amigo Zé, com a consciência serena dos que procuraram fazer o que lhes era possível.
Matéria publicada no Jornal A TARDE, pelo jornalista e escritor (Academia de Letras da Bahia) HÉLIO PÓLVORA, por ocasião do falecimento de JOSÉ HAROLDO CASTRO VIEIRA.
Seu Zé faleceu em Salvador no dia 05 de fevereiro de 2004, aos 77 anos.

ZÉCARLOS JUNIOR