Outro dia estava lendo um artigo do Gabriel Perissé e ele dizia que a gente costuma conviver muito bem com a morte… dos outros, lógico; pois, quando se trata da própria morte quase todos ficam amedrontados. A morte é um mistério. E, sendo mistério, por si só apavora. Quem gosta de viver costuma evitar o assunto morte. As funerárias sabem bem disso, pois tiveram que associar aos seus planos alguns convênios e os serviços de outros profissionais, sem os quais certamente ficaria muito mais difícil comercializar um plano funerário. Quase ninguém quer saber de morrer e pensar em comprar o caixão antecipadamente parece atrair maus fluidos, não é mesmo? Claro que isso é crendice, mas a gente costuma se incomodar um pouco.

Tive uma professora de direito sucessório que dizia: – “Pessoal, vocês não imaginam o medo que as pessoas têm de fazer o inventário em vida. Pensam que estão chamando a morte”. E, às vezes, o inventário demora tanto para ser concluído que, mesmo os herdeiros, só recebem depois de muitos anos. Alguns morrem antes.

Quando pensamos na morte nos sentimos desprotegidos, principalmente porque, quando mortos, ficamos livres deste corpo que temos hoje. Sabemos pela ciência e pela observação que ele se decompõe, e resta muito pouco para contar a nossa história depois que os “bichinhos” resolvem nos atacar. É nessas horas que a gente percebe como o belo é efêmero mesmo. E não só o belo, mas igualmente, nossas posses e tudo o que acumulamos de material aqui na Terra. Os faraós eram sepultados com os seus pertences, pois acreditavam que as pessoas valiam pelo que possuíam. Hoje sabemos que isso não passa de ficção, e que os bens se deterioram da mesma forma que o nosso corpo físico. E agora, hein?!

Há os que dizem que a morte é o fim de tudo. Não acredito nisso. Penso que procuram ignorar o temor do desconhecido simplesmente dizendo que nada restará. Assim, resolvem seus conflitos íntimos e não têm que se preocupar em como estão vivendo presentemente. Esse tipo de verbalização é comum em marginais e cientistas. Uns porque acreditam que nada têm a perder e outros porque falta humildade para assumir que não encontram respostas aos seus questionamentos. Intimamente todos têm muito medo de morrer.

Penso que negar esse medo não é a melhor saída. Interessante é trabalhar no sentido de fortalecer o nosso lado espiritual, nosso “eu interior”, já que provavelmente é somente com ele que poderemos contar quando chegar a nossa vez. Perceba que temos a noção do infinito sem nunca tê-lo visto ou apreendido; pois, como a própria palavra diz: infinito é tudo o que não tem fim. Como podemos compreender o significado de tal palavra se nada que conhecemos se assemelha a ela? Interessante, não é mesmo?

Acredito que nosso caráter é algo que nos acompanhará aonde quer que estejamos. Nossos princípios, nosso modo de ser. Ninguém sabe ao certo o que iremos encontrar, mas todos, sem exceção, teremos que passar por essa experiência. Então, vamos investir no nosso conteúdo. Lembremos que a vida nos diferencia; principalmente em relação ao que podemos acumular, mas a morte nos nivela. Cuidemos de cultivar nossos talentos para que possamos apresentar frutos na época da colheita.

Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: [email protected]) é psicóloga e escritora.