Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

No último domingo de novembro celebramos o Dia do Leigo, na solenidade de Cristo Rei. A Igreja nos ensina que “todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia, quer sejam dirigidos por ela, são chamados à santidade segundo a palavra do Apóstolo” “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4,3; cf. Ef 1,4) (citado na Constituição Dogmática do Vaticano II Lumen Gentium, n. 39)

Quando se fala em santo pensa-se logo em freira, religioso, padre, bispo. Pouco se diz de um santo leigo.

São Martinho de Porres, nascido em Lima, Peru, em 1579, é um leigo que a Igreja reconhece oficialmente como santo canonizado em 1962.

Filho natural de um nobre cavaleiro espanhol e de uma liberta negra, era considerado “mestiço”. Foi educado cristãmente pela mãe e apren­deu a profissão de cirurgião prático, com amplos conhecimen­tos de farmácia e cirurgia. Martinho exerceu sua profissão com grande admiração de todos os doen­tes dos quais cuidava em seu ambulatório.

Aos 15 anos de idade decidiu entrar para o convento dos frades dominicanos, e fez o pedido de ser simples frade leigo (irmão converso). Somente nove anos depois, foi confirmada sua ad­missão na ordem, em 1603. Ele tinha 24 anos.

Aí ele se dedicou como enfermeiro a serviço da comunidade conventual e dos doentes de fora, que ele acolhia primeiro no convento, depois num hospital adaptado na casa de sua irmã. Fundou um orfanato e distribuía alimento para os pobres no convento. O vice-rei do Peru o visitava com freqüência e ajudava suas obras. Morreu consumido pelas penitências e atacado de tifo, em 1639; foi logo venerado por todos como santo. Sua festa se celebra no dia 3 de novembro.

É relevante o exemplo de humildade neste leigo que, mesmo sentindo ­correr em suas veias o sangue nobre espanhol e, consciente de ­seus conhecimentos e capacidades profissionais, buscou a humilhação de ser simples irmão leigo, já que, como mestiço, estava em último lugar na hierarquia social do tempo; o estado de mestiço vinha depois do dos espanhóis, dos índios e negros. Renunciou a ser irmão coadjutor ou sacerdote­. Nessa humilhação voluntária de frade pertencente aos leigos da Ordem Terceira (que eram tidos como servos e não pertenciam, de pleno direito, à Ordem), Martinho preferia os trabalhos mais humildes; protegia os escravos, ao ponto de transformar a rústica enfermaria num verdadeiro centro de caridade para todos, mas principalmente para os mais pobres, os índios; o povo o chamava de “Martinho da caridade”.

Era um homem de grande penitência e de vida contemplativa; orava longamente à noite, dormindo no claustro do convento e usando o cilício mesmo quando lhe foi prescrito guardar o lei­to.

Ele foi proclamado “patrono da justiça social” e “patrono das semanas sociais” do Peru; foi reconhecido, com homenagem pública em 1939, como o primeiro cidadão que assumiu a tarefa de resolver a questão social. Fundou um hospital que atendia a todos sem distinção de classe social.   Conseguiu fundar o primeiro colégio da América só para as crianças pobres.

Na homilia pronunciada pelo beato João XXIII no dia de sua canonização pode-se extrair a atualidade desse exemplo de vida cristã. “Ele amava os homens porque os estimava sinceramente como filhos de Deus e como irmãos seus; antes, amava-os mais que a si mesmo, porque, em sua humil­dade, considerava-os mais justos e melhores do que ele. Desculpava os defeitos alheios. Perdoava até mesmo as mais duras injúrias… benigno, assistia os doentes, dava aos indigentes alimento, roupa, medicamentos; auxiliava com toda a ajuda e solicitude a seu alcance os lavradores, bem como os negros e mestiços…”. Trata-se de um programa de vida para todo cristão que queira imitar este santo, aprendendo – como conclui a homilia do papa – “como é bom e suave seguir as pegadas de Jesus Cristo e ob­servar seus divinos mandamentos”.

 Dom Mauro Montagnoli

Bispo diocesano de Ilhéus