Eusínio Gastón Lavigne

Descendente de francês, louro de olhos azuis, nasceu em Ilhéus na fazenda Itarirí no dia 17 de dezembro de 1883, neto do francês Louis Gastón Lavigne que veio para o Brasil em 1816, como um dos componentes da Embaixada Artística de Taunay, e aqui se casou com a alemã Maria Bonin, e filho de Luiz Gastón Lavigne casado com Leonina Augusta Lavigne com quem teve mais seis filhos, Elisa Holenwerger, casada com Pedro Augusto Holenwerger; Pedro Augusto Sobrinho; Alba Lavigne Ribeiro, casada com Epaminondas Ribeiro; Eulina Lavigne Gesteira, casada com Izidoro Gesteira; Orádia Lavigne Martins, casada com Manoel Martins e Anésia Lavigne Magalhães, casada com Elísio Magalhães.

Quando criança veio da fazenda para morar em Ilhéus na Rua das Quintas nº 25, para poder estudar, fez o curso primário no colégio da professora Maria de Calasans, onde hoje está a Clínica São Lucas, junto ao Teatro Municipal. Em 1897 foi estudar em Salvador no Colégio São José, um colégio católico, logo que passou a ter aulas de física, química e história natural, abandonou o catolicismo por ser contrário às leis da natureza. Em 1904 foi estudar na Faculdade de Direito, em Salvador, formando-se em 8 de dezembro de 1908. Formado veio morar em Ilhéus para advogar. Em 1913 mudou-se para Jequié e em 1915 para o estado do Mato Grosso, indo trabalhar em Bela Vista, Nioac e Ponta Porã, onde não foi feliz na advocacia e em 1921 resolveu voltar para Ilhéus.

Em, 1921 de regresso de Mato Grosso, casou-se com a médica Odília Teixeira com quem teve dois filhos, José Leo e Gastão Luiz.

Em 1930 presidiu o “Comitê de Ilhéus pro Aliança Liberal”.   Com a deposição do Presidente

Washington Luiz substituiu o então prefeito Durval Olivieri, sendo empossado no dia 25 de outubro do mesmo ano no cargo de Prefeito de Ilhéus. Seus primeiros atos administrativos foram a montagem da escrita do município e a elaboração do planejamento urbano da cidade. Em 1936 foi eleito pelo voto popular para o período de 1936 – 1939, exercendo o mandato até 10 de novembro de 1937 quando foi acusado de ser comunista denunciado como co-participante do movimento comunista da novembrada de 1935, sendo preso pelo Ten. Cel. Augusto Maynard Gomes e encaminhado para Salvador onde ficou preso incomunicável durante seis meses no Quartel dos Aflitos, sendo absolvido pelo Tribunal de Segurança em primeiro de fevereiro de 194, Com sua prisão em 1936 foi substituído pelo Dr. Raimundo do Amaral Pacheco, que tomou posse no dia 14 de novembro, um domingo. Voltando para Ilhéus foi recebido com grade manifestação popular.

Em agradecimento publicou uma carta de agradecimento ao povo da cidade na primeira página do jornal “Diário da Tarde” de 29 de dezembro.

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Ao povo de Ilhéus

Ao transpor, hoje, a soleira da prisão, que me não entibiou, para respirar o ar da liberdade, meu primeiro pensamento volveu para o município de Ilhéus, que me tem prestado, por todas as suas classes, o conforto da solidariedade moral.

Esta recebo-a, agradecido, especialmente da mulher ilheense, que acorreu ao altar do sentimento cristão, orando pela minha liberdade.

Porem, mais do que meu reconhecimento, que é um ato pessoal, vale o prazer da minha alma, vindo, no gesto espontâneo de Ilhéus, em face, sobretudo da natureza de minha função, uma vitória do espírito coletivo, bem assim do ideal de paz, de que meu governo, por sua tolerância incontestável e respeito à liberdade de consciência, não se afastara, como exemplo mesmo de cultura democrática e amor ao progresso da terra que me elegeu, em pleito livre, seu prefeito.

Folgo, pois, que minha prisão tenha provocado tão belo ensejo de fraternidade do povo de Ilhéus, que enriqueceu, deste modo, a sua história com mais uma página eloqüente de civismo.

Como amigo da liberdade, de que Jesus foi o mestre dos mestres, como o fora da Democracia, que é o sangue da civilização em marcha, sendo, efusivamente, essa terra, na esperança de que todas as suas atividades políticas, à vista da nova ordem das coisas, se congregue, precipuamente, em torno da propaganda sistemática do ensino e dos problemas educacionais da região cacaueira, porque, só assim, venceremos a crise profunda que ameaça aniquilar o nosso patrimônio moral.

Com votos de feliz ano novo.

 

Eusínio Lavigne

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Advogado, Espírita, membro militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), presidente da Aliança Liberal em Ilhéus, considerado como um dos grandes, quem sabe o melhor prefeito que Ilhéus já teve, seu governo foi marcado pela expansão urbana da cidade, com a ligação da Avenida Canavieiras com a Avenida Itabuna; também o corte que separou o bairro da Conquista do centro da cidade, onde foi construído posteriormente o Viaduto Catalão; defendeu com força o patrimônio territorial do município, combatendo grileiros e protegendo os pequenos agricultores. Elaborou o primeiro Plano Diretor da Cidade, organizado pelos engenheiros Manoel Da Rin e Arquimedes Silveira Gonçalves; construiu o Ginásio Municipal, IME, que hoje leva o seu nome. Corajoso, com visão de futuro e grande espírito humanista, foi forte a sua luta com o Bispado para que a construção da Catedral de São de Sebastião não fosse feita no centro da cidade e sim na Cidade Nova.

Espírita convicto, escreveu vários livros sobre a doutrina espírita, sendo o primeiro “Os Espíritas e as Questões Sociais”, depois “O Marxismo perante a Paz e a Perfectibilidade do Espírito pelo Socialismo”, além de publicar artigos em jornais e um folheto inédito: “O Espiritismo, doutrina social”.

Por problemas de saúde foi morar em Salvador, não ficando parado, participando de várias campanhas cívicas; tornou-se grande estudioso dos problemas da região cacaueira e do Brasil, sempre escrevendo suas idéias na imprensa e fazendo conferências.

Eusínio Lavigne faleceu em 30 de abril de 1973, aos 89 anos.