por Tomé Pacheco

NO PRESÍDIO CARANDIRU VIII

Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Quando da ida do Palmeiras, o Leão (goleiro) era considerado o homem brasileiro das pernas mais bonitas, então eu o aconselhei: “Leão, é melhor você jogar de calça ou de um agasalho qualquer que cubra suas pernas, se não a malandragem vai morrer de tanto te comer na mão”. Foi o que ele fez. Mesmo atrás do gol onde ele esteve, foi onde ficou o maior número de presos, todos ávidos para ver as pernas do Leão.

E o Bezerra da Silva! Cara, gente fina! Simples, brincalhão, contador de piadas. Quando de sua ida à Penitenciária, estava chovendo muito, o show então foi transferido para o cinema do Presídio que cabiam 600 pessoas. Como na apresentação faziam parte, dançarinas, teve uma por nome Tuca que se empolgou demais e no meio do espetáculo desceu do palco e foi beijar um preso que estava sentado na primeira fila de cadeiras. Rapaz, a dançarina ao se dobrar para beijá-lo, sua bunda, coberta somente por um “fio dental” daqueles! ficou a roçar o rosto do preso que estava na segunda fila. Eu entrei em pânico. Desci do palco correndo, peguei-a pelo braço e falei: “Tuca, pelo amor de Deus, você é maluca! Tem preso aí que faz mais de 20 anos que não sente uma mulher, e você fica esfregando essa bunda na cara deles! Quer arrumar uma rebelião?”. Ela me respondeu: “Tomé, eu estou realizando um sonho: vir aqui na Penitenciária dançar pra eles”. Eu falei: “Vá realizar seu sonho lá no palco”. Nesse instante eu voltei para o palco, pedi o microfone ao Bezerra e anunciei: “Rapaziada, essa primeira parte terminou. Tem mais 600 presos lá fora esperando”. Não deu outra. Tomei uma sonora vaia, acompanhada de objetos que jogavam em minha direção e em seguida o coro: “Vai morrer cuzão, a mulher é nossa”. Nesse momento eu fiquei assustado e esperando pelo pior. Como a equipe que trabalhava comigo era forte (Ze Vitor, Não Se Bula, Marqueta e outros) e respeitada dentro do Presídio, subiu no palco e pediu calma a galera. Assim os presos se acalmaram e aos pouco foram deixando o cinema.

Terminado a confusão, e outra turma em cena, o Bezerra chegou para mim e perguntou: “Tomé, posso cantar uma música nova que ainda não foi lançada?”. Ele cantou um trecho que dizia assim: “Vou apertar, mas não vou ascender agora”. Respondi-lhe: “O microfone é seu. Você é quem manda. O show é seu”. Quando ele começou a cantar essa música o cinema veio abaixo, foi um barulho ensurdecedor, e o cheiro da danada (maconha) e a fumaça tomou conta do pedaço. Foi um orgasmo coletivo.

Outra vez fui até a Av. Miruna, onde era situada a Tv. Record, para entrar em contato com o apresentador Raul Gil e convidá-lo para fazer um show, pois o mesmo, embora já tivesse feito várias apresentações na Detenção, nunca havia ido à Penitenciária. Ele topou de imediato e agendou uma data. Faltando três dias, eu já havia providenciado tudo: palco, som, camarim etc. No dia marcado a expectativa era geral. Todos no campo esperavam o grande momento. Só que não aconteceu. Por volta das 5 horas da tarde, o Raul me ligou dando uma péssima notícia. Ele disse: “Tomé, sinto muito. Surgiu uma reunião com o alto comando da Record e é de caráter inadiável. Infelizmente eu não vou poder ir”. Não era pra menos: eu caí em desespero. Respondi: “Raul, a malandragem está mais de 2 meses esperando por esse show. O assunto é só esse aqui na Penitenciária. E agora?”. O Raul rebateu: “Tomé, venha aqui que agendaremos outra data. Vou levar outros artistas, um monte de gente famosa para compensar”. Só me restava ir até o campo e dar a péssima notícia à malandragem. Eu tremia e suava frio, parecendo que ia dar um treco. Não podendo fugir da responsabilidade, fui enfrentar as feras. Pensei: “Seja o que Deus quiser”. E pedi ao Senhor para me proteger e que nada de ruim me acontecesse. Então, peguei o microfone, chamei a atenção de todos e lasquei: “Sinto muito, o Raul acabou de me ligar e infelizmente não vai poder vir”. Era o esperado: recebi uma tremenda vaia seguida de palavrões e expressões de tudo o que foi tipo como: “Seu ‘vacilão’, seu ‘cuzão’, tá pensando que somos palhaços! Você merece morrer!”. Então, firmei a voz e com a ajuda do Senhor, retruquei: “Não tem essa, vão para a tranca. O show acabou”. Essa passagem foi muito complicada, mas como eu tinha crédito entre eles, os detentos então foram se dispersando, voltando para os seus pavilhões e tudo se acalmou.

Voltei à Av. Miruna para remarcar a data com o Raul. Ele me pedira mil desculpas e agendou uma nova data. Basta dizer que o show foi uma beleza. Em plena apresentação o Raul se desculpou e disse para os detentos que a culpa tinha sido dele e não do Tomé. Ai só se ouvia a gritaria: “O Tomé é nosso. O Tomé é nosso”. E eu fique pensando comigo: “Tá certo. Eu vou mesmo cair no barulho de vocês, cambada de falsos!”.

Das fugas através de túneis, a que eu presenciei foi das maiores de todas: os detentos aproveitaram uma sala de aula que estava desativada, fizeram um túnel, passaram por baixo da muralha e ganharam a rua. Fugiram muitos, só não fugiram mais por intervenção dos guardas plantonistas que os viram saindo pelo buraco e os detiveram. Era de cair o queixo de ver tanto saco de areia acumulado naquela sala, embora ela fosse muito grande! Nela o que se viu também foi vários tipos de ferramentas como pás, picaretas, cavadores etc.

Para o caro leitor entender como os detentos organizavam essas fugas, as reformas das oficinas e dos pavilhões eram feitas por eles, mas sempre com o acompanhamento de um mestre de obra. Mas malandro é malandro. O detento quando quer aprontar alguma coisa, procura ganhar a confiança de quem o vigia e, para o isso, leva um, dois, três até dez anos, mas ele não desiste. Assim que ganha a confiança, geralmente tirando uma de bonzinho, de religioso, de estudante nesse estágio já procurando trabalhar em algum setor de fácil mobilidade para a trama como na cozinha, na alfaiataria, na construção civil, entre outros– ele parte para o objetivo.

Em 1984 fui até a Federação Paulista de Futebol conversar com o seu Dirceu Fernandes a respeito dele me enviar árbitros e alunos da escola para arbitrar o campeonato interno da Penitenciária. O seu Dirceu adorou a ideia e começou a mandar os alunos, que lhes servia como estágio. Certa feita um aluno ao ver o campo de futebol cercado de presos, entrou em paranóia. Queria a todo custo que os policiais da muralha descessem para lhe dar segurança, senão ele não ia apitar o jogo. Foi aí que o chamei a minha sala e fiz vê a ele que ali dentro era o local mais seguro para se apitar uma partida de futebol. Era tão seguro que em cima da muralha havia vários policias armados de metralhadora, fuzis e escopetas. Que havia também um batalhão na entrada, o DEIC (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado) ali pertinho. Mesmo assim não teve acordo; o cidadão aprendiz pegou sua mochila e se mandou.

Volta e meia o seu Dirceu Fernandes, nos visitava. Ia conversar comigo e com presos famosos. Várias vezes ele me fez o convite para fazer o curso de arbitragem. Eu respondia: “Seu Dirceu, eu nunca apitei uma partida de futebol. Mas, por favor, fale para aquele árbitro, Wlisses Tavares, para quando ele for apitar meu Palmeiras contra Corinthians ele maneire, pois já estou cansado de jogar rádio, tênis, pedra no sujeito. Pelo que eu tenho assistido desses clássicos, aposto que ele é corintiano doente e tem prejudicado muito meu Palmeiras”. Disfarçava e, tentava me convencer: “Tomé, mesmo que você não vá apitar, serve para engrandecer seu currículo como professor de Educação Física

Pensei melhor, e quando foi em 1985, fui fazer o curso.

Na próxima parte contarei sobre esse curso.

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