Por Jorge Vieira.

Enquanto aguardo a impressão do meu livro – Ceplac – 50 Anos em 50 Escritos – relembro momentos, acontecimentos, amigos e realizações; são saudades, surgidas nesse desenlace, mais sentimental que profissional, do        excelente período de vida e de trabalho técnico.

Recordo as viagens com os funcionários Edelvito, Diomedes ou Zé Verdinho, exímios motoristas, em estradas lamacentas ou esburacadas. As reuniões com produtores de cacau, os treinamentos com os agrônomos novos e ainda inexperientes, na preparação de uma equipe capaz de convencer os cacauicultores a uma nova e mais produtiva tecnologia.

Logo, logo os resultados começavam a aparecer. Produtores interessados em investir nas propriedades de cacau, com plantas mais produtivas e resistentes a enfermidades. Surgia um espirito de união, companheirismo e ajuda mútua.  Cria-se a organização nacional dos produtores de cacau e revitalizam-se as antigas associações. Ampliam-se as manifestações em defesa dos direitos e interesses da classe. Novas lideranças surgem. A região passa a ter uma vida ativa e esperanças na nova Ceplac.

Mais tarde, o trabalho da Ceplac, seus planos e ideias concretizam-se, trazendo aos produtores e à região, grandes benefícios econômicos e sociais. O reconhecimento à instituição estava sempre presente.

Relembro todos estes momentos; aí, ganhei bons colegas e amigos; as decepções, o tempo e meus sentimentos já apagaram.

Uma nova fase vem à minha mente. O período da colaboração com a administração superior. A convivência mais intensa com as decisões maiores sobre o planejamento, a execução e a avaliação dos trabalhos técnicos e administrativos; por algum tempo, atuei nas representações brasileiras nas reuniões do Acordo Internacional do Cacau. Um grande aprendizado e bons resultados para a economia cacaueira do Brasil.

São passados 50 e poucos anos de vida institucional; acompanho de longe, o seu desempenho, suas conquistas cientificas, suas decisões tomadas ou deixadas de lado. Seu distanciamento dos problemas regionais e a ausência, quase que absoluta, dos produtores de cacau e das lideranças políticas regional em sua defesa.

Agora, visito o “site” da instituição. Fico conhecendo o documento – “Carta de Serviço do Cidadão” – as normas e procedimentos a serem adotados pela organização.  Li, mais de uma vez. Procurei me convencer que estamos em outros tempos, em outra era. Meu tempo já passou, acabou.

Deixar de chamar: o Produtor Rural ou o Cacauicultor ou ainda, o Empresário Rural, para chamá-lo de o “Cidadão”, é ridículo, descaracterizando tão importante profissão.   O idealismo foi abolido, os movimentos e campanhas de motivação, atraindo educadamente a participação dos homens do campo, desapareceram. Os técnicos extensionistas não procuram conquistar adeptos ao programa de desenvolvimento das propriedades agrícolas; eles, aguardam a procura formalizada dos interessados, dentro de normas burocráticas e de custo financeiro fixado.

As metas institucionais de plantio ou de renovação de cacauais não são estabelecidas e conquistadas por orientação educativa permanente dos extensionistas; ficam na dependência da iniciativa dos chamados “cidadão”.    Será que os Produtores de Cacau de toda a região, grandes, médios e pequenos, já possuem este estágio evolutivo empresarial?

O “Cidadão” tem que se apresentar no Escritório Local, munido de seus documentos para requerer, por escrito uma visita do Técnico à sua propriedade agrícola, com o objetivo de receber uma orientação, como por exemplo, o combate a uma enfermidade do cacau; e para isto, tem que pagar (quanto, não sei, existe uma tabela).   Tudo isto para atender os agricultores familiares, os assentamentos, os quilombolas, os indígenas e os pescadores artesanais. Assim, é a Ceplac atual; uma instituição social sem o devido preparo profissional para tal atividade. Deixou de ser aquele órgão que os cacauicultores idealizaram, participaram de sua criação e por alguns anos, a mantiveram financeiramente. São os novos tempos!

Não há mais propósitos e objetivos de desenvolver econômica e socialmente a região do sul da Bahia; reduzem-se as pesquisas cientificas, desmonta-se a estrutura e cedem-se áreas e instalações. Espera-se o fim.

As saudades e lembranças vão ficar no encontro de funcionários aposentados e idosos relembrando um passado feliz e produtivo. Este sentimento está sempre presente na Associação de Aposentados e Pensionistas da Ceplac, que mantem um verdadeiro espirito ceplaqueano.

 

Jorge Raymundo Vieira                                                                          Engenheiro Agrônomo, MS – Aposentado – agosto 2015