Anísio Cruz – 10/01/2018

Ele se foi na madrugada desta quarta-feira, e levou consigo o seu humor fino, suas tiradas espirituosas, sua irreverência. No Facebook estava sempre postando suas opiniões, polemizando, mas também participando ativamente nas postagens dos amigos, que sabia conservar, ao longo do tempo. Contava seus casos, suas viagens aventureiras, e até suas bravatas do galante jovem namorador, que foi. Cambaxirra que o diga.

Teve a sua fase de roqueiro, cultivando enorme cabeleira, e vistoso bigode, que arrancavam suspiros nas jovens de então. Esportista, participava nas quadras de futebol de salão, e colecionava troféus. A nossa amizade vinha desde os tempos do IME, onde fomos colegas no 1º científico, e era por nós conhecido como Pepi Legal, alusão ao elegante personagem dos desenhos animados. Era um aluno destacado, sempre obtendo boas notas, dos sisudos professores Antenor B. Brawne (Bráulio), Pedro Lima, a querida Horizontina Conceição, dentre outros. Depois fomos para Salvador, e nos víamos mais espaçadamente, pelas circunstâncias de quem se preparava para os vestibulares, como era comum naqueles tempos. Nos raros encontros, muito papo rolava, nas mesas dos bares da velha Bahia. Boite Anjo Azul, Casarão, ClubeTabaris, e nas incursões pela Ladeira da Montanha no badalado 63, no mais modesto 73, ou para as bandas da afamada Maria da Vovó, que marcaram época na vida boêmia dos anos 60, e início dos anos 70. Vivemos também os conturbados anos dos regimes militares, nas manifestações estudantis que geraram muitas histórias, e sobrevivemos galhardamente.

Sempre arranjávamos jeito de trocarmos ideias, quando trabalhei no prédio aonde mantinha a sua representação, ele torcedor do Flamengo, e do Bahia, e eu visceralmente contra os dois, torcedor do Vitória que sou. Com o advento das redes sociais, passamos a ter uma maior interação, como já referido. E era bom saber que do outro lado da telinha, havia um leitor assíduo das minhas postagens que, não raro, comentava o assunto tratado, com a propriedade de quem adquiriu, ao longo da vida, sábios conhecimentos. Não se furtava a criticar, quando achava conveniente algum reparo, muitas vezes me chamando ao “privado”, quando o assunto dizia respeito a outros. Como representante comercial, primeiramente foi auxiliar direto do seu pai, o Sr. José Alves, figura ímpar na vida empresarial ilheense, que aos poucos foi lhe passando encargos de mais responsabilidade, preparando-o para o futuro. Viajava muito, e quando imaginávamos que aqui se encontrava, ele já postava algo do Rio de Janeiro, S. Paulo, Salvador, ou mesmo do Recife. Acho mesmo que viajar, era “sua praia”, tamanha era a sua desenvoltura nesses locais. Um dia, numa das suas postagens, referiu que a sua empresa mantinha um apartamento exclusivo, num grande hotel de Salvador, pela alta frequência na Capital, nas suas viagens comerciais. Nesses momentos assumia a sua identidade civil, e era o José Alves dos Santos Filho. Entre nós, Zezinho, Zézio, Pepi Legal, ou Dom Pepi, alcunhas que aceitava numa boa, sem quaisquer restrições.

Hoje deixei de lado os comentários genéricos que tenho postado aqui, para que, nessas simples palavras, homenagear o amigo que se foi. Eu o acompanhei no seu sepultamento, e me posicionei junto ao túmulo dos meus pais, observando os muitos amigos e parentes que o aplaudiram na sua última viagem. Dessa vez porém, o seu destino foi a eternidade, onde nos encontraremos todos, num dia qualquer. Siga em paz, amigo Dom Pepi.