Um dos mais prolíficos poetas europeus contemporâneos, Athanase Vantchev de Thracy, 78 anos, traduziu para o francês e publicou em Paris o livro Arresto (Arrestation), do escritor baiano Bernardo Almeida. De acordo com Athanase, indicado ao Prêmio Nobel de Literatura de 2019, nos discursos poéticos da obra, às vezes confessionais, o autor desenvolve e expõe um conjunto de “sensações ricas e difíceis de definir, como evidencia a eloquente série de palavras ou qualificadores que buscam transformar o todo em profusão”.

Além de especificar ou enriquecer o pensamento linguístico e poético, segundo o tradutor, essas acumulações estéticas têm um acentuado valor estilístico. “Elas combinam com a concisão dos versos e o florescimento das assonâncias, tornando o livro rico pela poesia oral – numa série de ladainhas que estão profundamente enraizadas no espírito e se estabelecem lá, como um incentivo para entender a dureza e complexidade de um mundo cruel, onde o amor é uma luta, violência em uma vida que se assemelha à existência do poeta”.

 Para o francês, em Arresto, o baiano Bernardo Almeida se revela um poeta da condição trágica e heroica do homem, “perdedor – cuja imensa dignidade não permite que nada se tire dele, ainda que tão baixo caia, porque luta, mesmo sem esperança, e especialmente sem esperança”, sentencia o tradutor Athanase Vantchev de Thracy, na apresentação do livro.

Intelectual búlgaro radicado há mais de 50 anos na França, Athanase assinala que Arresto é uma obra marcada pela reunião de três gêneros. “Um deles é quase aforístico, em seus breves poemas; outro combina elegância realista, até crueldade e filosofia da existência; e, finalmente, os poemas-narrativas nos apresentam destinos ou fatias de vida de personagens em luta – com astúcia – contra um destino oposto”, afirma de Thracy, que editou o livro na capital francesa, pelo Institut Culturel de Solenzara, neste ano.

A entidade foi criada na década de 1980 por um grupo de personalidades que tinha como objetivo dar visibilidade a obras de grandes poetas e autores eminentes, por meio de uma organização oficial. Entre os fundadores do instituto, o ex-primeiro-ministro da França e ex-presidente da Assembleia Nacional, Edgar Faure, membro da Academia Francesa, assim como o professor da Sorbonne, Jean Bernard, o filósofo Jean Guitton, o escritor soviético Julian Semenov e o cantor francês Charles Aznavour, morto este ano.

 Nobel de Literatura – Reunindo apoio de diversas instituições literárias da Europa, Athanase Vantchev de Thracy foi indicado ao Nobel de Literatura de 2019, uma vez que a Academia Sueca suspendeu a premiação neste ano, pela primeira vez após a Segunda Guerra Mundial, por causa de um escândalo sexual envolvendo o dramaturgo Jean-Claude Arnault, marido de Katarina Frostenson, integrante da instituição. À época das denúncias, Jean-Claude dirigia um centro de exposições financiado pela Academia Sueca. Ele foi acusado de assédio por 18 mulheres, em novembro de 2017. O episódio levou à renúncia de sete ocupantes de cargos na entidade.

 Tradutor – Athanase Vantchev de Thracy concorre ao prêmio Nobel de Literatura de 2019. Ele escreveu mais de setenta coleções de poemas, em versos clássicos e livres, tendo publicado uma série de monografias e uma tese de doutorado sobre “O simbolismo da luz na poesia de Paul Verlaine”. Em búlgaro, ele elaborou um estudo sobre Petronius Arbiter elegantiarum, autor de Satyricon, assim como escreveu, em russo, a tese de mestrado intitulada “poética e metafísica na obra de Dostoievski”.Athanase recebeu a mais alta distinção do Estado búlgaro, a Ordem Stara Planina.

Grande conhecedor da Antiguidade, ele dedicou numerosos artigos à poesia grega e latina. De Thracy recebeu inúmeros prêmios literários nacionais e internacionais, incluindo o Grande Prêmio Internacional de Poesia Solenzara (França), o Grande Prêmio Internacional de Poesia Pushkin (Rússia), o Grand Prix Internacional de Poesia Naim Frashëri (Albânia), Grande Prêmio Internacional de Poesia Alexandre, o Grande (Grécia), Grande Prêmio Internacional de Poesia Gogol (Ucrânia), o Grande Prêmio Internacional de Poesia Shevchenko (Ucrânia) etc.

 Autor – Bernardo Almeida (Bernardo Augusto Azevedo de Almeida) nasceu em Salvador (Bahia), em 1981. É escritor, jornalista, poeta, artista digital e roteirista. Participou de bienais e dezenas de antologias, tendo colaborado com pelo menos uma centena de sites literários. Publicou os livros: Achados e Perdidos (poesia / 2005), Crimes Noturnos (poesia / 2006), Enquanto espero o amanhã passar (poesia / 2009), Sem um país para chamar de pátria, sem um lugar para chamar de lar (poesia / 2009), LONA (poesia / 2011), O vencedor está morto (contos / 2013), Viagem de balde (conto / 2015) e Arresto (poesia / 2016), Arrestation (poesia/Paris/2018). O autor tem textos traduzidos e publicados na Europa, sobretudo na França e na Croácia.