O TRAUMA DA LUA DE MEL

Luiz Ferreira da Silva

In UMA FAMÍLIA SEM EFEITOS ESPECIAIS, Livro publicado em 2003. Gráfica Graciliano Ramos, Maceió/AL.

Década de 50. Terminada a festa, a maioria dormiu na fazenda Primavera. Ou nos quartos preparados para os casais. Ou no chão mesmo; até na relva. A juventude é assim mesmo. Topa tudo. Outros, mais aprumados, foram para as suas casas.

E os noivos? Cada um na sua residência. A lua de mel, como era costume do lugar, só no outro dia. E não poderia ser diferente. Ele, de cara cheia, apagou-se na cama e só se acordou ao meio dia, chamado pela empregada da casa. Estava na hora de se preparar, pois pegaria a Marinete (como era conhecido o ônibus), com destino à praia de Tebas, que passaria vindo de São Miguel Arcanjo, às 3 horas daquela tarde. Dalva, cansada até a alma, com tantos preparativos, seguiu o mesmo destino. Os braços de Morféu.

Ainda bem que o transporte atrasou como sempre acontecia. O Sebastião só chegou às 3 e meia, deixando todo o mundo preocupado.

– O que teria acontecido? Impacientava-se Dalva?

Muitos amigos foram ao chamado “bota fora” do casal. Piadas e mais piadas se ouviam sobre o que seria a noite deles. A maioria impublicável. Já dentro do ônibus, acenando para a plateia, um jovem espirituoso e brincalhão, Dagmar, ainda de porre da noite anterior, saiu com essa:

– Sebastião, gritou bem alto. Você deixou crescer as unhas do pé? Ninguém entendeu; tampouco o noivo.

– Por que eu deixaria crescer as unhas do pé? Que bestagem é essa? Ainda não curou a bebedeira?

– É pra fixar no colchão e fazer finca pé! E fez o gesto obsceno do vai-e-vem.

A Marinete arrancou, mas deu para ver o rosto corado da Dalva. – Que vergonha, meu Deus? Perguntou-se.

No trajeto, Sebastião não se cansava de pensar como seria a sua primeira noite. Temia e tremia Tinha medo que Dalva, pela sua ingenuidade e, sobretudo, princípios religiosos, fosse arredia e até sofresse um trauma.

Corria uma informação sobre a lua de mel das beatas, que o atormentava. Dizia-se que, algumas delas, com o medo do pecado imposto pelo padre paroquial, tornavam-se simples parideiras, sem jamais sentirem qualquer satisfação sexual.

Um seu amigo, Totonho, muito sacana, havia lhe falado sobre o camisolão que elas usavam na primeira noite. Uma vestimenta branca, até os pés e com gola justa ao pescoço, com um detalhe: um furo na altura da genitália. Era por ali, que se dava a penetração, sem tirar a roupa e totalmente às escuras. Era muita vergonha!

Só com o tempo, as coisas poderiam se tornar mais abertas, porém mantendo-se uma distância pudica, como as beatas falavam. Nada de sem-vergonhice. Assim arrefeciam aos maridos mais safadinhos!

– Perguntava, a si mesmo, o pobre Sebastião: Será que mamãe foi assim? E, a Dalva? Moça religiosa, que nunca namorou? Durante o noivado não tivera qualquer avanço. No máximo, um cheirinho. Que drama, meu Deus?

O ônibus velho, do tipo “catanica”, ia parando em todas as bibocas. Com isso, o percurso de 45 km, levou mais de 4 horas. Chegou à porta da pensão de Dona Beré, ponto obrigatório de parada, às 8 da noite.

Era a melhor hospedaria de Tebas. Asseada; comida farta e hospitalidade nota dez. A elite ali se hospedava. O Seu Agripino, pai da Dalva, era por demais conhecido. Sua filha seria recebida com distinção.

Havia um quarto especial, chamado Lar de Mel. Era justamente para receber os nubentes. Sempre lotado. Nessa época, não se conhecia a moda da suíte. O banheiro era no corredor. Só que exclusivo. Um outro banheiro para os demais cômodos.

A proprietária recebeu, efusivamente, e os encaminhou ao quarto, sem antes não deixar de exaltar a limpeza do aposento e a maciez do colchão. Deu as explicações de praxe e os convidou para cear, pois o café já estava na mesa. Arrumaram as coisas rapidamente e foram ao salão.

A mesa estava posta. Era considerado o café mais famoso de todo o Estado. Enaltecido pelos turistas, sobretudo do sul. Batata doce; macaxeira; inhame e fruta pão. Bolos de goma, massa puba, milho e macaxeira. Pão, bolacha de canela e tareco. Tapioca e beiju seco. Sucos de maracujá, graviola, umbu e cajá. Queijo de coalha, requeijão e manteiga de garrafa. Carne do sol, ovos fritos e farofa de miúdos de galinha caipira. Café, leite de cabra e coalhada.

O casal, na ansiedade por outra “comida”, pouco tocou nas iguarias. Um café preto com uma bolachinha de canela.

– Comam meus filhos? Vocês vão precisar ficar fortes? Uma pontinha de malícia se sacava no risinho maroto da dona da pensão. Mas era comum a Dona Beré pegar no pé dos hóspedes, quase exigindo que comessem de tudo. Era o seu marketing.

Aquele estabelecimento era a sua vida. Com esforço redobrado, contando com a ajuda de suas duas filhas, Eliane e Célia, tocavam com desprendimento aquele patrimônio deixado pelo marido, seu José, precocemente falecido, de barriga d’água.

Levantaram-se e foram ver o mar, pois a noite era de luar. Andar uns passos, pois havia o mito da congestão. Não se poderia fazer sexo, após as refeições, mesmo leves. Era perigoso, diziam os mais velhos.

Voltaram ao quarto. Sebastião se adiantou e foi ao banheiro. Tomou um demorado banho e até se perfumou com leite de rosas. Em seguida, Dalva, levando um lençol, provavelmente para não voltar decomposta. Demorou-se bastante para desespero de seu amado.

Sebastião vestiu o pijama que sua irmã mais velha, a Francisca, quase mãe, pela grande diferença de idade, lhe presenteara para a sublime ocasião. Olhou-se ao espelho. Parecia um japu (xexeu), pássaro comedor de mamão lá da fazenda Mulungu. Era amarelo canário com sianinhas pretas nos bolsos, nas mangas e nas laterais das calças. Achava-se um pouco ridículo.

Deitou-se na cama e recomeçou o pensamento do camisolão. Isso o fez se levantar repentinamente. Verificou no armário e bisbilhotou a mala da Dalva. Nada encontrou. Ficou mais sossegado e retornou à cama. – Que coisa feia mexer nas coisas da Dalva, mas o que fazer, esqueceu ele; perdoou-se.

– Voltou a se atormentar. A sua amada não teria levado o camisolão ao banheiro e, de lá, voltaria já vestida? Por isso, levou o lençol?

– De repente, a porta se abre. Dalva entra sem fazer barulho, como se estivesse andando na ponta dos pés e lhe ordena. – Vire-se para o outro lado da cama, com a cara para a parede, cheirando barro, ordenou. – Vou me trocar.

Aí cresceu o suspense na cabeça do Sebastião. De vez em quando, olhava para o teto para ver se a luz fora apagada. As beatas só perdiam a honra no escuro. Não era assim que se diziam? Falava a esmo, baixinho.

– Eis que, uma voz suave, bem feminina e meiga, chega aos seus ouvidos: – Meu querido marido, eis a sua mulherzinha. Aqui, de carne, osso e com muito amor. Todinha para você.

A luz continuava acesa. Seria um bom sinal. Deu um pulo e o Sebastião, estupefato, estava diante da sua Dalva, totalmente nua, como viera ao mundo. Linda, cheirosa, gostosa, com risinho pecaminoso e sensual.

Esfregou os olhos para ver se não existia a famigerada camisola. Seria uma miragem? Não era. Agradeceu aos Santos e aos Orixás.

Só se desgrudaram às 10 da manhã, perguntando-se, ao mesmo tempo, um para o outro:

– Amor, você está satisfeita (o)?

– Veio a resposta, a uma só voz, também: Não, amor. Cansada (o).

E pelos 5 dias de lua de mel, o ritmo foi sempre assim.

No retorno, só boas recordações. Conversaram por muitos quilômetros, ainda jurando amor eterno. Outras vezes, ficavam pensativos, recordando aqueles dias de muito amor. Cenas inesquecíveis!

– De repente, Sebastião confessou sobre a sua preocupação de como seria a noite de núpcias, motivada por uma estória envolvendo as beatas do Padre da Paróquia.

– Dalva, numa gargalhada lhe perguntou se ele estava se referindo ao camisolão?

– E você sabe disso?  – Então, é verdade?

– Se é, não sei, respondeu ela; o que sei é que a “lua” não deveria gostar!

Deu-lhe o ombro e ele se acomodou, dormindo satisfeito e feliz por toda a viagem, sonhando com um fila de beatas, sem camisolão, assumidas e libertas, implorando-lhe amor.

O DESAFIO

Luis Fernando Veríssimo

Um publicitário morreu e, como era da área de atendimento e tratava mal o pessoal da criação, foi para o inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com nome e profissão de todos os admitidos na data anterior, mandou que o publicitário fosse tirado da grelha e levado ao seu escritório. Queria fazer-lhe uma proposta.

Se ele aceitasse sua carga de castigos diminuiria e ele teria regalias. Ar-condicionado, etc.

— Qual é a proposta?

— Temos que melhorar a imagem do inferno — disse o Diabo. — Falam as piores coisas do inferno.

Queremos mudar isso.

— Mas o que é que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.

— Por isso é que precisamos de publicidade.

O publicitário topou. Era um desafio. E as regalias eram atraentes.

Quis saber algumas coisas que diziam do Inferno e que mais irritavam o Diabo.

— Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos,

todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas alemães.

— E é verdade?

— É.

— Hmmm — disse o publicitário. — Uma das técnicas que podemos usar é transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.

Sua cabeça já estava funcionando. Continuou:

— Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida é tão ruim que é o local ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna.

— Bom, bom.

— Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam, brigam. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.

— Ótimo.

— Motoristas franceses. São mal-humorados e grosseiros.

Isso desestimula o uso do táxi e promove as caminhadas. É econômico e saudável.

Também provoca a indignação generalizada, une a população e combate a apatia.

— Muito bom!

— Uma situação que não seria amenizada pelos humoristas.

Os humoristas, como se sabe, não têm qualquer função social. Eles só servem para

desmobilizar as pessoas, criar um clima de lassidão e deboche, quando não de perigosa alienação. Isso não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça só aumenta a revolta geral, mantendo a população ativa e séria.

O alívio é dado pelos garçons italianos.

— Perfeito! — exclamou o Diabo. — Já vi que acertei.

Quando podemos começar a campanha?

— Espere um pouquinho — disse o publicitário. — Temos que combinar algumas coisas, antes.

Por exemplo: a verba.

— Isso já não é comigo — disse o Diabo. — É com o pessoal da área econômica.

Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar também o seu contrato.

Com isso o Diabo apertou um botão intercomunicador vermelho que havia sobre a sua mesa e disse:

— Dona Henriqueta, diga para o Silva vir até a minha sala.

— Silva? — estranhou o publicitário.

— Nosso gerente financeiro. Toda a nossa economia é dirigida por brasileiros.

Aí o publicitário suspirou, levantou e disse:

— Me devolve pra grelha…

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Texto extraído do livro “A Mãe do Freud”, L&PM Editores, Porto Alegre, 1985, pág. 93.

 

O PENSAMENTO DA SEMANA

 

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”Sarah Westphal

 

 

A POESIA DA SEMANA

A ausente

Vinícius de Morais

 

Amiga, infinitamente amiga

Em algum lugar teu coração bate por mim

Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.

Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios

Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas

Como que cega ao meu encontro…

Amiga, última doçura

A tranquilidade suavizou a minha pele

E os meus cabelos. Só meu ventre

Te espera, cheio de raízes e de sombras.

Vem, amiga

Minha nudez é absoluta

Meus olhos são espelhos para o teu desejo

E meu peito é tábua de suplícios

Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes

E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim

Como no mar, vem nadar em mim como no mar

Vem te afogar em mim, amiga minha

Em mim como no mar…

 

 

A PIADA DA SEMANA

 

 

– Mãe, por que o nome da minha prima é Rosângela?

Porque a mãe dela gosta de rosas, filha.

– E você gosta de que mãe?

– Um dia você vai saber, Rolayne.

 

oOo

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