(Capítulo XI do livro em formatação – VIVER EM DOIS SÉCULOS)

Luiz Ferreira da Silva.

O novo milênio não foi prodigioso com relação à música, aos intérpretes, e às bandas, nada se comprando com o período anterior. Um verdadeiro mau gosto e baixo nível cultural.

Nós da velha guarda, estávamos com os ouvidos acostumados com belas poesias de grandes mestres, dez das quais aqui insiro com saudades e devoção, sobretudo para que os jovens de hoje comparem com o seu mundo musical, eivado de letras esdrúxulas:

* A porta do barraco era sem trinco. Mas a lua furando o nosso zinco, salpicava de estrelas o nosso chão. Tu pisavas nos astros distraída, sem saber que a alegra dessa vida é a cabrocha, o luar e o violão. (Chão e estrelas, Orestes Barbosa)

* Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser. Diz-lhe numa prece, que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer (Chega de saudades, Tom Jobim).

*. Hoje eu quero a rosa mais linda que houver. E a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem. Hoje eu quero paz de criança dormindo. E abandono de flores se abrindo, para enfeitar a noite do meu bem Quero a alegria de um barco voltando. Quero ternura de mãos se encontrando, para enfeitar a noite do meu bem. (A noite do meu bem, Dolores Duran).

*. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher E depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um tipo qualquer? (Nervos de aço, Lupicínio Rodrigues).

*. Ah, se tu soubesses como sou tão carinhoso, e o muito, muito que te quero. E como é sincero o meu amor. Eu sei que tu não fugirias mais de mim (Carinhoso, Pixinguinha).

*. Não se deve amar ser amado. É melhor morrer crucificado. Deus nos livre das mulheres de hoje em dia. Desprezam o homem, só por causa da orgia. (Gosto que me enrosco, Senhor).

*. Eu sonhei que estavas tão linda. Numa festa de raro esplendor. Teu vestido de bale, lembro ainda. Era branco, todo branco, meu amor. A orquestra tocou uma valsa dolente. Tomei-te aos braços, fomos dançando ambos silentes. (Eu sonhei que tu estavas tão linda, Lamartine Babo).

*. A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua costuma se embriagar. Nos seus olhos eu suponho que o sol, num dourado sonho, vai claridade buscar. Minha rua não tem graça, mas por onde ela passa, seu vulto que me seduz. (A Deusa da minha rua, Newton Teixeira).

*. Tu és, divina e graciosa estátua majestosa do amor por Deus esculturada. E formada com ardor, da alma da mais linda flor, de mais ativo olor que na vida é preferida pelo beija-flor. Se Deus me fora tão clemente aqui nesse ambiente de luz. Formada numa tela deslumbrante e bela O teu coração junto ao meu lanceado. Pregado e crucificado sobre a rósea cruz do arfante peito seu. (Rosa, Pixinguinha).

*. Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida já anuncias a hora de partida sem saber mesmo o rumo que irás tomar. Preste atenção, querida. Embora eu saiba que estás resolvida. Em cada esquina cai um pouco

tua vida. Em pouco tempo não serás mais o que és (A vida é um moinho, Cartola).

O século passado foi marcado por revoluções musicais. Grandes movimentos permitiram o aprimoramento das melodias, o surgimento de grandes intérpretes e o carimbo internacional da MPB.

A Bossa Nova, com figuras exponencias na arte musical, como Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto, correu o mundo, encantando especialmente a nata americana, de Frank Sinatra a Elle Fitzgerald.

A Tropicália, com os baianos, Caetano e Gilberto Gil, numa mistura de ritmos e letras do cotidiano, fazendo multidões cantarem sob as belas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia.

Em paralelo, a Jovem Guarda de Roberto Carlos, que satisfazia a uma faixa de jovens “prafrentex” de cabelos longos e conectados com o movimento do Rock Rol internacional.

Os Novos Baianos também deram uma contribuição fantástica à música, conjuminando-as com a excelência dos instrumentos musicais, notadamente as guitarras elétricas e a percussão. Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo, marcaram época.

No Nordeste, a consagração de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Juntamente com Humberto Teixeira e Zé Dantas, criando canções que cantavam a sua terra, fazendo a moçada dançar ao som do forró (Xote, Baião, Xaxado).

E para culminar, os Grandes Festivais que revelaram novos compositores como Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, dentre outros de igual talento.

E o que aconteceu no século XXI? Desvirtuação total. Uma agressão à MPB. Primeiramente, as bandas de forró com uma parafernália instrumental, com letras sem nexo e intérpretes de baixa capacidade vocal.

Mexeram no samba, aquele de Paulinho da Viola e de Martinho da Vila, com um tal de pagode. Ritmo lento como se fora uma marcha, letras repetitivas e sem a batida original que ecoava nos morros cariocas.

O pior de tudo foi a agressão à genuína música caipira, denominando-a de sertaneja, com a proliferação de duplas, cujas letras nada refletem o espaço geográfico do meio rural, como se situavam Tonico e Tinoco, Pena Branco e Xavantinho, Cascatinha e Inhana, dentre tantos.

Não vale a pena se estender no repertório atual, inspirado em três temas: cachaça, chifre (gaia) e rapariga! Isso diz tudo, dispensando comentários.

Mas, mesmo negativamente, vale registrar o envolvimento da juventude universitária com esse esdrúxulo movimento musical, esbaldando-se nas baladas, não havendo distinção de gosto entre as classes socioeconômicas, nivelando-se todos, cantando aos gritos:

“Rapariga não, rapariga não Lava sua boca com água e sabão Rapariga não, rapariga não. Não é só um corpinho bonito. Ela também tem coração”.

Por outro lado, a bela música dos morros, desde Cartola e Dona Ivone Lara, se perdeu nas quebradas, sugada pelos bailes funks, caracterizados pela violência.

Adicionalmente, ao invés de cantar a beleza de suas comunidades, como Herivelto Martins o fez com sua Ave Maria no Morro, expressam diálogos, muitas vezes, sem pé e nem cabeça, através do Hip Hop, uma pobre imitação dos negros americanos, descaracterizando-o.

Este movimento musical de rua surgiu para expressar, com letras e movimentos corporais, a sua realidade social, mas sem visão negativista e destruidora, mas sempre como uma lição de fé.

E para encerrar, a música baiana que virou Axé e desvirtuou o Trio elétrico de Dodô e Osmar, com sua avidez economicista.