Perto de completar um mês, a entrega da Ponte Jorge Amado –a nova ponte Ilhéus a Pontal– demorou pra cacete de acontecer, mas compensando o atraso a inauguração se deu em duas versões: A popular em 28 de junho, aniversário da cidade, e a oficial em 1/7/2020. A primeira ocorreu quando uma multidão empolgada desobedecendo as regras de distanciamento contra a pandemia que assola o planeta, ocupou-a e, inaugurou-a extraoficialmente. Na de solenidades, tomada dias antes por uma onda de incerteza –surfada por próis e contras o festejar do evento em razão da citada doença–, o governador Rui Costa em pronunciamento ao proliferado zum-zum-zum não hesitou proferir (aqui de modo não literal) que não estava preocupado com ‘ato de inauguração’ e sim em salvar vidas de pessoas. Abro parêntese para inserir que a postura do gestor –num país que dinheiro público é facilmente canalizado para festejar lançamento (mesmo em situações calamitosas) de pedra fundamental sem expectativa de andamento, foi deveras, salutar.

Alcaides e edis, à frente a Secretaria de Saúde, também abraçaram determinados (alguns nem tanto) o humanitário objetivo, a exemplo, se diga, do prefeito ACM Neto na capital. Atitudes estas não vistas até agora –sem nenhum viés político na afirmação– por parte de sua excelência, o mandatário maior da República. A propósito, como o soteropolitano e o estadual estão firmemente envolvidos e empenhados no combate à Covid 19 (nome da moléstia epidêmica causada pelo Coronavirus, o patógeno) e, como transita no noticiário que despois desta pandemia as relações humanas em todos os continentes serão diferentes, terão um tom, digamos assim, mais prudente, da espiritualidade baiana já saiu que, das consequências negativas provocadas pela doença, duas foram benéficas: o alinhamento entre dois adversários políticos e o fato do ‘bom-senso’ ter chegado primeiro na Bahia antecipando as previsões.

Noutra declaração pública o governador afirmou que a materialização da Ponte significa um sonho da Região. Sem dúvida Governador, pela importância sobretudo econômica que ela representará para estas bandas sulinas do Estado, realmente é um sonho, e sonho sonhado de longa data. Para a cidade ilheense, a iniciar pela solução do trânsito, os benefícios são incontáveis e estão às claras. E o que dizer da bela visão da praia e da avenida Soares Lopes, da baia do Pontal, enfim do ar metropolitano –como se expressam os mais arrebatados– que os seus 533 metros de extensão oferecem?

Como estudos mostram que –por falar na geográfica região ao sul do Estado– pós-debacle da cacauicultura do fim dos anos 80 do século passado –com o aparecimento da Vassoura de Bruxa– a matriz econômica do Sul da Bahia mudou do setor primário para o setor terciário da economia, significando afirmar que o cacau perdeu a liderança em gerar riqueza, hoje muito se questiona se o termo ‘cacaueira’ deve permanecer na referência regional. Para uma faixa de terra que contribuiu ao longo de anos com expressivos recursos financeiros para o Estado da Bahia e para a União, que é conhecida no mundo como ‘Civilização do Cacau’ e, expecta ainda contrapartidas justas desses entes públicos, natural que, pela tradição cultural a expressão se torne persistente entre os sul-baianos.

Mas a realidade é outra e obviamente a par deve estar o governo baiano, bem como entender que uma transformação abrupta da base de qualquer economia,

independente de território –embora a aflorada nova matriz possa gerar melhores oportunidades, mais renda e minimizar desigualdades–, necessidades e percalços existirão no transcurso de sua adequação aos novos tempos.

Ao entender o lenga-lenga acima indo ao encontro da ideia que pontes e estradas são portas abertas –com o devido equilíbrio ambiental– para o progresso, me veio lembrar de outras duas promessas da gestão estadual em foco: a duplicação da BR-415 (a estrada Ilhéus/Itabuna) e a construção da rodovia Belmonte a Canavieiras, testemunhadas por vídeos na internet datados respectivamente de outubro de 2017 e fevereiro de 2018. Como da segunda dei pitacos em escrevinhados desde os comprometimentos dos senhores Cesar Borges, ACM, Paulo Souto e Jacques Wagner, inclusive chagando a gastos de dinheiro com estudos e traçados (documentos esses possivelmente guardados em alguma gaveta de alguma secretaria do ramo), isso me leva a crer que os compromisso em praça pública desses representantes com essa ligação rodoviária não foram assegurados com o ‘fio do bigode’ (antigo ditado expressando ser a palavra uma garantia) de cada um, mas com declarações empolgantes em tempos de eleições para enganar a torcida, puras fake news como se diria hoje em dia.

Como noticiados há bom tempo, os projetos delas estão prontinhos, só faltando tão somente a poeira epidêmica abaixar e o chefe colocar o jamegão no ‘ordene-se’ das obras e, correr mais uma vez pro abraço, mas, que seja sem mais delongas.

Heckel Januário

Em tempo: No 4º parágrafo, mostrando o pau, como sugere a expressão popular “matar a cobra e mostrar o pau”, o trecho que se refere à mudança do PIB do cacau para o Setor Terciário, baseou-se no livro “Mudança Institucional e Reconversão Produtiva no Sul da Bahia” do economista Elson Cedro Mira, editado pela Editus em 1915.

Em tempo2: ainda em referência ao parágrafo 4, acrescente-se que evolui na Região o chamado ‘cacau fino’, um novo modelo de cultivo que impõe ao cacauicultor trabalhar com visão empresarial, conceito de produtividade, de agregação de valor ao produto e de rigorosidade nas técnicas em todas etapas da produção, com o objetivo de obter alta qualidade de amêndoas e de chocolate, fabrico este igualmente em expansão no Sul da Bahia. Será a volta aos tempos áureos do cacau? Só o tempo dirá. Mas existe a esperança de ser uma valiosa soma à nova economia regional, ainda mais se as pesquisas, ora desenvolvidas pela UESC para combater o Coronavirus, derem resultados positivos.