(Do livro em elaboração – O MANJAR DOS DEUSES É DE DAR ÁGUA NA BOCA – Luiz Ferreira & A.C. Moreau).

O cacau desde os primórdios quando da sua apreciação pelos indígenas da América Central, carrega um valor místico. Era consumido, sob forma de bebida preparada a partir das amêndoas pelos reis e nobres das tribos e até chamado de alimento dos deuses. Serviu de moedas para pagamento de impostos das sociedades da época. Foi levado para a Europa por conquistadores como produto exótico para o consumo das elites e nobreza.

Mais tarde, o cacau foi trazido para o sul do Estado da Bahia e cultivado por pioneiros desbravadores das matas primárias ali existentes. Os primeiros plantadores de cacau eram trabalhadores destemidos que migraram de regiões secas do Nordeste do Brasil e se aventuraram pela floresta, desprovidos de ferramentas, de veículos de transportes e de equipamentos adequados de trabalho, lutando braçalmente para criar condições mínimas de vivência.

Com o aumento do consumo e afirmação do mercado, houve uma expansão do plantio de cacau e surgiram as “fazendas de cacau” produtoras das amêndoas para a exportação, pagas em dólares pelas cotações diárias nas bolsas de valores.

As fazendas que produziam cacau, passaram a ter um valor venal diferenciado; os bancos as recebiam como garantias de financiamentos; os frutos “pendentes” dos cacaueiros eram penhorados. As facilidades de crédito rural para cacau, pois, foram enormes.

Os profissionais liberais e pessoas que vinham para a região sonhavam em possuir uma fazenda de cacau e os filhos e filhas dos cacauicultores eram considerados “bons partidos” para o casamento devido as heranças.

Os governos Estadual e Federal criaram órgãos específicos para apoiar a lavoura do cacau em ocasiões de crises de produção e de dívidas que por vezes foram anistiadas.

Os jornais nacionais e estrangeiros noticiavam as riquezas geradas pelo cacau e dezenas de firmas compradoras de cacau se instalaram na região e algumas indústrias de fabricação de chocolate e derivados do cacau vieram para Ilhéus, o maior município de cacau do Brasil.

Estudiosos, cientistas e escritores deram contribuição com análises, projetos, diagnósticos, publicações técnicas, contos literários, poesias sobre diversos aspectos do cacau e do ecossistema regional, tendo como centro, o cacaueiro. Até filmagens e novelas foram montados tomando como tema o cacau.

O Instituto do Cacau da Bahia e a CEPLAC mantidos com taxas sobre a produção do cacau, tiveram um extraordinário crescimento e aplicaram recurso em diversos setores, por meio de centenas de convênios com outras instituições atuantes na Região.

A CEPLAC teve recursos para realizar um forte programa de retorno do cacau às origens, montando um Departamento Especial de incentivo à lavoura de cacau na Amazônia, em especial no Pará.

Todos esses valores, ao longo de aproximadamente 100 anos, criaram uma mística em torno do cacau e do chocolate que se agregou de forma histórica e irreversível à região denominada “Região Cacaueira da Bahia”.

Infelizmente, a região não conseguiu capitalizar e investir de modo mais proveitoso os recursos gerados pelo cacau e até pela sua fama, para empreender um desenvolvimento amplo que beneficiasse toda a sociedade regional com obras e serviços públicos para elevar o ÍDH – Índice de Desenvolvimento Humano, a nível compatível, como aconteceu em outros polos agrícolas, a exemplo do café em Londrina.