Luiz Ferreira da Silva, 84

Engenheiro agrônomo, pesquisador aposentado, ex-Diretor da CEPLAC-Amazônia, 1982-85.

Em 1971, Frederico Afonso, depois de retornar de seu mestrado e estruturar a Divisão de Socioeconomia do Centro de Pesquisas do cacau, trocou o conforto do Sul da Bahia e, com a família, e se instalou no interior de Rondônia, no Projeto Ouro Preto (assentamentos rurais), gerenciado pelo INCRA, residindo numa casa de madeira, com o objetivo de iniciar o retorno do cacau às suas origens.

Era preciso se avaliar a qualidade dos solos aptos para cacau e o quantitativo para sua expansão, caso os plantios experimentais fossem aprovados, como o foram. Dessa forma, no ano seguinte, fui convocado pelo Frederico e passei 3 meses investigando os tipos de solos para a implantação futura da cacauicultura sob novo modelo CEPLAC/INCRA, o dos parceleiros. Outras vezes retornei para continuar os estudos pedológicos, com colegas da Divisão de Geociências do CEPEC (Centro de Pesquisas do Cacau).

Ele sempre acompanhava o trabalho de campo, apoiando e incentivando, à medida que os solos eram caracterizados, recebendo nomes locais, como Unidade Ouro Preto; Unidade Paraíso, Unidade Vermelhão, Unidade Rondônia; Unidade Aluvial etc.

Numa área de exploração de ouro, identifiquei um solo diferente e, prontamente, Frederico se antecipou e batizou o solo de Unidade Xibiu, o qual relutei em aceitar. Mas ele insistiu e me explicou que se tratava de uma diminuta pepita de ouro encontrada nas bateias, nominada assim pelos garimpeiros. Acontece, porém, quando fiz uma palestra no auditório do CEPEC, causei um rebuliço, pois o significado era outro na Bahia.

Nos estudos pedológicos, há a necessidade de se descrever as suas propriedades, sobretudo morfológicas, em profundidade, visando definir os padrões dos perfis. Para tanto, são escavadas “trincheiras” de 2x2x2 (largura x longitude x profundidade), requerendo um esforço físico considerável.

Dois operários de campo foram designados para esse trabalho – os irmãos Efraim e Ibrahim – que nos acompanharam por todo mapeamento dos solos. Lá para as tantas, já no final do estudo, precisei uma vez mais de seus serviços para a abertura de adicional trincheira em Jiparanã. Falei com Frederico que, imediatamente, foi ao refeitório e informou ao Ibrahim que pegasse suas ferramentas, quando este gritou, ao seu irmão que ia saindo: – Efraim, tem mais buraco! – de uma maneira triste e desconsolada. Como ríamos quando nos lembrávamos desse episódio!

Após a conclusão do estudo nesta área de 600 km2 concluiu-se pela viabilidade do plantio do cacau em 70% dela, significando, pois, 42 000 hectares, o que norteou a implantação de um polo, anos depois. Os estudos posteriores aumentaram tal quantitativo de solos aptos à lavoura.

Nesta epopeia do retorno da lavoura ao berço amazônico, Frederico Afonso contou com o apoio do INCRA (Capitão Sílvio e Agrônomo Assis Canuto) e do Governo de Rondônia, a exemplo do Teixeirão.

Mais lá na frente, na vigência do PROCACAU (Programa Nacional de Expansão da Cacauicultura), formou uma equipe de jovens, trazendo da Bahia o Nilton Camargo, peça de apoio logístico aos destemidos agrônomos, dentre os

quais me lembro: Fernandinho Carioca, Jonathan, Pedro Paulo, Jay Wallace, Milton Ferreira, Laurentino e Caio Márcio, iniciando um programa vibrante de plantios da lavoura, utilizando os parceleiros assentados pelo INCRA.

Infelizmente, anos depois houve arrefecimento do programa, em razão da carência de mão-de-obra, falta de tradição, declínio da CEPLAC e expansão da pecuária. Urge, pois, a retomada da cacauicultura, considerando o cacaueiro uma planta conservacionista, tanto na proteção do solo, como na sua convivência com a floresta, opção agrícola sem igual para a Amazônia.

Hoje, 2021, do marco zero às roças de cacau implantadas, mesmo com todas as dificuldades, vicejam no chão rondoniano milhares de hectares, graças ao visionário colega, cuja obstinação, força de trabalho e inteligência proativa, o tornam merecedor de uma homenagem, aqui proposta: Estação Experimental Frederico Afonso (ESEFA), em substituição a ESEOP (Estação Experimental Ouro Preto). (Maceió, AL, 21-04-2 021).