{"id":1014,"date":"2010-10-29T17:26:27","date_gmt":"2010-10-29T20:26:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=1014"},"modified":"2010-10-29T17:53:59","modified_gmt":"2010-10-29T20:53:59","slug":"vacuo-vazio-vade-retro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2010\/10\/29\/vacuo-vazio-vade-retro\/","title":{"rendered":"V\u00e1cuo, vazio, vade retro."},"content":{"rendered":"<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\"\/><em><strong>Toda semana antes de escrever tento me concentrar no tema que est\u00e1 mais ou menos presente, circulando na cabe\u00e7a das pessoas, e busco traduzir um pouco desse enorme sentimento coletivo. Pois bem, desta vez se eu tivesse que depender disso, a p\u00e1gina seria um branco, um enorme ponto de interroga\u00e7\u00e3o, a inc\u00f3gnita. O desenho de um risquinho. O v\u00e1cuo. Sem ideia do que iria preench\u00ea-lo. <\/strong><\/em><\/p>\n<p>Desde que comecei recebo dezenas de mensagens e cartas a cada texto que escrevo, toda semana, vindas de pessoas as mais variadas a cada dia, agradecendo e dizendo que eu coloquei no papel naquela hora exatamente o que elas pensavam, sentiam, ou tinham vergonha de afirmar. &#8220;Tirou as palavras de minha boca&#8221;. &#8220;Gostaria de ter escrito isso&#8221;. &#8220;Nunca ningu\u00e9m foi t\u00e3o direta nesse assunto&#8221;. &#8220;Fa\u00e7o minhas suas palavras&#8221;.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nVou contar um semi-segredo. Como um bom radarzinho geminiano que sou, passo os dias tentando captar esses sinais. Minha vida n\u00e3o \u00e9 a mais agitada, j\u00e1 que trabalho o dia inteiro e n\u00e3o sou mais da gandaia &#8211; podia at\u00e9 quase ser canonizada de t\u00e3o comportada que ando. De qualquer forma, vou lendo, vendo, conversando, prestando aten\u00e7\u00e3o, e anoto &#8220;possibilidades&#8221; nos caderninhos que trago sempre perto de mim. A\u00ed, escolho, sento e escrevo. Tudo ligado no espont\u00e2neo. De um f\u00f4lego s\u00f3. Meu pensamento em voz alta.<\/p>\n<p>Esta semana estou ferrada. Porque, se pensamento pudesse ser visto nas ruas, as pessoas estariam andando com bal\u00f5ezinhos em branco em cima de suas cabe\u00e7as. Paira um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o misturado com ansiedade, falta total de previsibilidade, receios mil, d\u00favidas existenciais e um enorme des\u00e2nimo. Sensa\u00e7\u00e3o de estarmos andando para tr\u00e1s, falando as mesmas coisas, no mesmo hor\u00e1rio, com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares. Ou, melhor, falando com as paredes. <\/p>\n<p>Concentrei-me bem. Olhei nos olhos de ricos e pobres, jovens e velhos. Nada. Conversei com os cachorros, os gatos, as plantas, com minhas traquitanas. Nada. Nem me responderam, o que me faz pensar o quanto a natureza tamb\u00e9m est\u00e1 no v\u00e1cuo. H\u00e1 muito n\u00e3o consulto o mar e a areia, mas temo que eles andem com a cabe\u00e7a l\u00e1 pelos lados da Indon\u00e9sia onde a desgra\u00e7a chega em potes, com maremoto, tsunami e vulc\u00e3o, e tudo no mesmo dia. Ah, coitados!<\/p>\n<p>Olhei para mim. Um mau humor interno, vindo bem &#8220;l\u00e1 de baixo&#8221;, pegando o est\u00f4mago, uma dor de cabecinha chata, apreens\u00e3o, cansa\u00e7o, falta de tes\u00e3o, vontade de dormir, de viajar, de sumir. Que come\u00e7ou a piorar no meio da semana, se acentuando na hora dos notici\u00e1rios e de ler o jornal. <\/p>\n<p>As manchetes que li e traduzi, como eu as faria, entre outras: Professora carioca esmigalhada, presa e humilhada por sua linda hist\u00f3ria de amor com aluna. Mulheres gordas fogem das esporas de estudantes imbecis em Araraquara, no interior paulista. Delegado procura chifre na cabe\u00e7a de cavalo em brincadeira acad\u00eamica e ing\u00eanua de abaixar as cal\u00e7as. Candidatos beijam santos e dem\u00f4nios. Jornalista \u00e9 detida; usava suti\u00e3 de biqu\u00edni em Pra\u00e7a proibida. Papa d\u00e1 pitaco. Morre em S\u00e3o Paulo delegado imaculado, e filhos amea\u00e7am falar. Argentinos mostram-se passionais at\u00e9 demais. Jos\u00e9 Alencar aproveita que est\u00e1 passando perto e p\u00e1ra no Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas. Crian\u00e7as precisar\u00e3o de tr\u00eas vias de receita para comprar chupetas. Dilma afirma com todas as letras: chama-se Dilma. Lula desafia o Papa: &#8220;quem \u00e9 voc\u00ea para falar assim comigo&#8221;? Serra garante casar menina bonita que der. Voto. <\/p>\n<p>Esses ataques de moralismo s\u00f3rdido, misturados com populismo e a puritanice charlat\u00e3 e carola de ocasi\u00e3o, me d\u00e3o azia e mal estar. Tiroteio no Rio vira cotidiano. Gente morrendo nos hospitais vira not\u00edcia quando esquecem o corpo do lado de fora. As toneladas de droga anunciadas como recolhidas viram recicl\u00e1veis de alto custo. Os caudalosos rios amazonenses secam e as represas paulistas revelam carros suicidas. E, agora, se voc\u00ea quiser algum antibi\u00f3tico, melhor procurar um traficante. Est\u00e3o ilegalizando as drogas. <\/p>\n<p>Esses pr\u00f3ximos dias ser\u00e3o mesmo assim: uma esp\u00e9cie de intervalo, o v\u00e1cuo, literalmente o que n\u00e3o se acha ocupado ou preenchido; que nada cont\u00e9m; vazio. O vazio, o sil\u00eancio, o lamentar o que deveria ter sido ou como poder\u00edamos ter feito. O meio tempo no qual descobriremos que mais um ano est\u00e1 acabando, com o Natal chegando, esperamos &#8211; cheio de luzinhas. Mais do igual. <\/p>\n<p>Agora, escuta s\u00f3 o que descobri, e me preocupou, de certa forma existencial: no v\u00e1cuo \u00e9 imposs\u00edvel respirar; pois n\u00e3o h\u00e1 qualquer \u00e1tomo de quaisquer gases. O v\u00e1cuo n\u00e3o existe propriamente, j\u00e1 que \u00e9 o vazio, e todo espa\u00e7o conhecido \u00e9 formado por uma mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que estamos t\u00e3o vazios assim? Um perigo. Porque igual &#8220;parar \u00e9 andar para tr\u00e1s&#8221;, e se coisa ruim vem tentar pegar esse nosso &#8220;espa\u00e7o&#8221;? <\/p>\n<p>Ui. Encosta na parede quando for conversar com ela.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, santos do pau oco, 2010<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n(*) Marli Gon\u00e7alves, jornalista. Intuitivamente j\u00e1 sabe de antem\u00e3o o que qualquer resultado significar\u00e1. E n\u00e3o estou falando de loteria. Ah, coitados! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda semana antes de escrever tento me concentrar no tema que est\u00e1 mais ou menos presente, circulando na cabe\u00e7a das pessoas, e busco traduzir um pouco desse enorme sentimento coletivo. Pois bem, desta vez se eu tivesse que depender disso, a p\u00e1gina seria um branco, um enorme ponto de interroga\u00e7\u00e3o, a inc\u00f3gnita. 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