{"id":101536,"date":"2016-06-10T16:31:30","date_gmt":"2016-06-10T19:31:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=101536"},"modified":"2016-06-10T16:33:36","modified_gmt":"2016-06-10T19:33:36","slug":"universidades-publicas-brasileiras-enfrentam-maior-crise-de-sua-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2016\/06\/10\/universidades-publicas-brasileiras-enfrentam-maior-crise-de-sua-historia\/","title":{"rendered":"Universidades p\u00fablicas brasileiras enfrentam maior crise de sua hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Pesquisador analisa as formas de atua\u00e7\u00e3o da pesquisa e da extens\u00e3o junto \u00e0s demandas da sociedade<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise sobre a atua\u00e7\u00e3o das universidades p\u00fablicas com os movimentos sociais \u00e9 o foco do estudo de doutorado do professor Henrique Novaes, da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias da Unesp de Mar\u00edlia. A tese originou o livro Reatando um fio interrompido &#8211; a rela\u00e7\u00e3o universidade-movimentos sociais, publicado pela editora Express\u00e3o Popular, em 2012, mas que agora traz uma nova vers\u00e3o em espanhol. O livro ter\u00e1 lan\u00e7amento na pr\u00f3xima semana, na Argentina.<\/p>\n<p>A obra analisa o perfil dos professores no universo acad\u00eamico por meio de dois paradigmas distintos: a universidade cientificista, com produ\u00e7\u00e3o intelectual de artigos de classifica\u00e7\u00e3o elevada, descolados dos grandes problemas sociais, e os &#8220;pesquisadores extensionistas&#8221;, que, segundo o professor, atuam em pesquisa de extens\u00e3o voltados para temas de relev\u00e2ncia social e n\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o em massa, de<em>papers<\/em> para revistas internacionais.<\/p>\n<p>&#8220;Creio que o livro, constru\u00eddo a partir das experi\u00eancias pr\u00e1ticas de atua\u00e7\u00e3o de alguns intelectuais militantes, pode ajudar a esquerda universit\u00e1ria a criticar o cientificismo, o inovacionismo e mais que isso, formas de atuar em pesquisa e extens\u00e3o junto aos movimentos sociais.<\/p>\n<p>No doutorado observei que uma parte da universidade p\u00fablica e dos institutos p\u00fablicos de pesquisa na Am\u00e9rica Latina aproximou-se dos movimentos sociais&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do futuro das universidades, Novaes diz que estamos diante do momento mais complicado da nossa hist\u00f3ria. &#8220;No caso brasileiro, vivemos um contexto golpista, e uma grande ofensiva contra tudo que \u00e9 p\u00fablico. As propostas para as universidades p\u00fablicas s\u00e3o: cobran\u00e7a de mensalidades, fundos de ex-alunos, recursos das empresas, e por a\u00ed vai. Neste contexto \u00e9 dif\u00edcil acreditar que possa haver uma guinada extensionista&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o foco da sua tese de doutorado?<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>No doutorado observei que uma parte da universidade p\u00fablica e dos institutos p\u00fablicos de pesquisa na Am\u00e9rica Latina aproximou-se dos movimentos sociais<strong>.<\/strong> Observei as a\u00e7\u00f5es dos pesquisadores-extensionistas das engenharias que &#8220;ajudaram&#8221; as empresas recuperadas, os assentamentos que estavam em processo de transi\u00e7\u00e3o para a agroecologia e arquitetos que auxiliaram as lutas imediatas e de m\u00e9dio prazo dos sem teto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que estas experi\u00eancias ensinam?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que elas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de farol para o papel da universidade p\u00fablica. Num contexto como o atual onde se critica o cientificismo, o produtivismo, a produ\u00e7\u00e3o em massa de\u00a0<em>papers<\/em>\u00a0totalmente descolados dos grandes problemas sociais da Am\u00e9rica Latina, elas nos mostram que a universidade pode se pautar por crit\u00e9rios de relev\u00e2ncia social e n\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o em massa de <em>papers<\/em>\u00a0para revistas internacionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o destes pesquisadores-extensionistas \u00e9 direcionada por crit\u00e9rios como constru\u00e7\u00e3o da autogest\u00e3o, desmercantiliza\u00e7\u00e3o, vida coletiva, propriedade comunal da terra ou a propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de alimentos sem venenos, processos de trabalho n\u00e3o alienantes, e assist\u00eancia &#8220;t\u00e9cnica&#8221; dial\u00f3gica. Eles se preocupam tamb\u00e9m em formar intelectuais militantes para atuar na resolu\u00e7\u00e3o de problemas sociais, o que \u00e9 muito distinto da forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho. Encontrei cr\u00edticas &#8220;pesadas&#8221; a Revolu\u00e7\u00e3o Verde e ao processo de trabalho na constru\u00e7\u00e3o civil feitos pelos pesquisadores. Para mim foi um grande aprendizado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Todos pensam da mesma forma?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um leque que vai de republicanos, defensores do desenvolvimento &#8220;nacional&#8221;, do papel da universidade p\u00fablica via extens\u00e3o para interesses p\u00fablicos, at\u00e9 marxistas. No entanto, h\u00e1 um ponto em comum: a universidade cientificista n\u00e3o serve aos movimentos sociais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Isso j\u00e1 aconteceu em outros momentos hist\u00f3ricos?<\/strong><\/p>\n<p>Cem anos atr\u00e1s, na Reforma de C\u00f3rdoba de 1918, surgiu uma ala dos estudantes que criticava a universidade p\u00fablica que forma para o mercado de trabalho, que est\u00e1 ao lado dos exploradores. No Peru este processo se radicalizou a ponto de Jos\u00e9 Mari\u00e1tegui \u2013 um importante marxista latino-americano \u2013 achar que a Universidade P\u00fablica estava condenada ao fracasso, de t\u00e3o conservadora que era. Ele \u00e9 um dos idealizadores das Universidades Populares, tema que volta a tona no s\u00e9culo XXI em fun\u00e7\u00e3o das lutas do movimento estudantil e de uma parte dos professores.<\/p>\n<p>Mostrei tamb\u00e9m que nos anos 1950-60, dentro de um contexto de acirramento das lutas sociais na Am\u00e9rica Latina, novamente surge o debate do papel dos intelectuais na sociedade de classes latino-americana.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O senhor cita a Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e a &#8220;Noche de Los Bastones largos&#8221; (noite das porretadas) na Argentina&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Creio que a minha tese de doutorado \u00e9 uma das poucas, sen\u00e3o a \u00fanica, a tra\u00e7ar um importante paralelo na &#8220;destrui\u00e7\u00e3o&#8221; de duas universidades latino-americanas. Em outubro de 1965, j\u00e1 dentro da nossa ditadura empresarial-militar, 80% dos professores da UnB pediram demiss\u00e3o frente \u00e0s seguidas intromiss\u00f5es do regime militar na Universidade. 9 meses depois, em junho de 1966, na ditadura de Ongania (Argentina), algo muito parecido ocorreu. Tentei mostrar que havia muita riqueza no debate cient\u00edfico argentino dos anos 1960, dentre as quais destaco Amilcar Herrerra (convidado por Zeferino Vaz para fundar o Instituto de Geoci\u00eancias) e Oscar Varsavsky, outro importante intelectual argentino que ajudou a fundar v\u00e1rios centros de pesquisa no Peru e Venezuela.\u00a0 Mostrei que o Golpe de 1964 e o golpe de 1966 e 1976 na Argentina foram fatais. \u00c9 nas ditaduras latino-americanas que come\u00e7a a &#8220;faxina&#8221; do pensamento cr\u00edtico em todos os campos do conhecimento. Uma nova onda de adapta\u00e7\u00e3o da universidade p\u00fablica \u00e0s necessidades de forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho. Do ponto de vista internacional, uma verdadeira enxurrada de cursos de MBA no Brasil e levas e levas de alunos indo estudar nos EUA. Eles viriam a ser &#8220;intelectuais&#8221; da ordem, controlando Bancos Centrais, Minist\u00e9rios da Fazenda, Minist\u00e9rios da Sa\u00fade, etc. dentro das necessidades do capitalismo financeiro e mundial.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quais as perspectivas da extens\u00e3o nas Universidades P\u00fablicas nos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos diante do momento mais complicado da nossa hist\u00f3ria. No caso brasileiro vivemos um contexto golpista, e uma grande ofensiva contra tudo que \u00e9 p\u00fablico. As propostas para as universidades p\u00fablicas s\u00e3o: cobran\u00e7a de mensalidades, fundos de ex-alunos, recursos das empresas, e por a\u00ed vai. Neste contexto \u00e9 dif\u00edcil acreditar que possa haver uma guinada extensionista.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>E no governo Lula?<\/strong><\/p>\n<p>No lulismo surgiram alguns projetos interessantes de Educa\u00e7\u00e3o do campo, fortalecimento de Incubadoras de Cooperativas, o Proext, etc. Estas a\u00e7\u00f5es fortaleceram uma ala das universidades p\u00fablicas, mas nada que representasse uma ruptura na tend\u00eancia geral da Universidade, que tem como pilares a forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho, a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>papers<\/em>, e a extens\u00e3o mercadol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A crise da Universidade traz uma nova oportunidade?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda estou bem pessimista. A esquerda universit\u00e1ria ainda n\u00e3o se atentou que temos que dar um salto no projeto de universidade, estamos na defensiva, tentando barrar a destrui\u00e7\u00e3o completa da universidade p\u00fablica.\u00a0Outros j\u00e1 percebem que este padr\u00e3o cient\u00edfico tem trazido in\u00fameros problemas para a comunidade cient\u00edfica, como adoecimento, depress\u00e3o, mas n\u00e3o sabem bem para onde ir, a tal da &#8220;solucion\u00e1tica&#8221;. Creio que o livro, constru\u00eddo a partir das experi\u00eancias pr\u00e1ticas de atua\u00e7\u00e3o de alguns intelectuais militantes, pode ajudar a esquerda universit\u00e1ria a criticar o cientificismo, o inovacionismo e mais que isso, formas de atuar em pesquisa e extens\u00e3o junto aos movimentos sociais. O momento \u00e9 decisivo, ou come\u00e7amos a remar para o mesmo lado, ou nosso Costa Conc\u00f3rdia chamado Universidade P\u00fablica vai afundar rapidamente. Nosso conv\u00e9s est\u00e1 cheio de furos, o capital n\u00e3o precisa mais de n\u00f3s e os movimentos sociais. Um momento dif\u00edcil como este exigir\u00e1 mudan\u00e7as profundas no papel da universidade p\u00fablica, sua atua\u00e7\u00e3o decisiva na compreens\u00e3o dos principais determinantes do capitalismo e as formas de super\u00e1-lo. Se isso n\u00e3o acontecer, s\u00f3 v\u00e3o restar os escombros, como diziam os estudantes de C\u00f3rdoba.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre o autor<\/strong><\/p>\n<p>Henrique Tahan Novaes possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Unesp &#8211; Araraquara (2001) e mestrado (2005) e doutorado (2010) em Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica, pela Unicamp. No mestrado estudou o Processo de Adequa\u00e7\u00e3o S\u00f3ciot\u00e9cnica nas F\u00e1bricas Recuperadas brasileiras e argentinas, com financiamento da Fapesp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tem experi\u00eancia em Mundo do Trabalho Associado, Escolas de Movimentos Sociais e rela\u00e7\u00e3o universidade-movimentos sociais. Foi coordenador (2008-2010) e professor do Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Economia Solid\u00e1ria e Tecnologia Social na Am\u00e9rica Latina (Unicamp); e professor do curso de extens\u00e3o Estado e Pol\u00edticas P\u00fablicas (Unicamp) e do curso Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica P\u00fablica (Unicamp).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 pesquisador do Projeto Tecnologia Social (IDRC-Canad\u00e1\/Unicamp e Universidade Nacional de Quilmes-Argentina). Professor do curso de especializa\u00e7\u00e3o semi-presencial Gest\u00e3o P\u00fablica e Sociedade (parceria UFT-Gapi\/Unicamp) e do curso de especializa\u00e7\u00e3o Gest\u00e3o Educacional da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, da Unicamp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 membro dos grupos de Pesquisa Instituto Brasileiro de Estudos Contempor\u00e2neos (IBEC-S\u00e3o Paulo); do Grupo de An\u00e1lise de Pol\u00edtica de Inova\u00e7\u00e3o (GAPI\/Unicamp) e das Organiza\u00e7\u00f5es e Democracia (Unesp\/Mar\u00edlia).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atualmente, \u00e9 docente da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias da Unesp Mar\u00edlia e professor do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador analisa as formas de atua\u00e7\u00e3o da pesquisa e da extens\u00e3o junto \u00e0s demandas da sociedade Uma an\u00e1lise sobre a atua\u00e7\u00e3o das universidades p\u00fablicas com os movimentos sociais \u00e9 o foco do estudo de doutorado do professor Henrique Novaes, da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias da Unesp de Mar\u00edlia. 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