{"id":101647,"date":"2016-06-16T19:14:49","date_gmt":"2016-06-16T22:14:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=101647"},"modified":"2016-06-16T19:14:49","modified_gmt":"2016-06-16T22:14:49","slug":"luiz-castro-em-decolores-235","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2016\/06\/16\/luiz-castro-em-decolores-235\/","title":{"rendered":"Luiz Castro em: DECOLORES"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>O\u00a0AMOLADOR DE FACAS DO MALHADO<\/strong><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-castro_novo-emaIL.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"118\" \/>Jos\u00e9 esteve longe de ser homem comum. Por\u00e9m, algumas caracter\u00edsticas que observei quando crian\u00e7a, as quais muito o diferenciavam das pessoas que tramitavam no bairro do Malhado da d\u00e9cada de 60, somente consegui analis\u00e1-las me. Lembro-me que andava sempre vestido de preto e com barba feita, o que conferia jovialidade \u00e0quele homem de aproximados cinq\u00fcenta e cinco anos. Embora trabalhasse sob o sol, sobre uma bicicleta, amolando facas, alicates, tesouras e afins, mostrava-se bem disposto e educado com todos. Ele aparecia quase todas as semanas. De antem\u00e3o, fazia saber sua presen\u00e7a em face dos gritos matutinos \u2013 que acordavam as casas, quebrando a comum monotonia \u2013, ou pelo som dos utens\u00edlios sendo afiados e, ainda que n\u00e3o fosse de muito sorriso, tornava as ruas uma festa.<\/p>\n<p>Pouco se conhecia sobre ele. Geralmente, encostava a bicicleta \u2013 espet\u00e1culo \u00e0 parte \u2013 \u00e0 sombra de alguma \u00e1rvore, enquanto trabalhava. N\u00f3s, crian\u00e7as, sent\u00e1vamos ao seu redor, extasiadas n\u00e3o apenas com as fa\u00edscas do esmeril, mas, principalmente, com a \u2018sinfonia\u2019, que Jos\u00e9 parecia reger tal um maestro, de m\u00e3os finas e gestos precisos. N\u00e3o foi por acaso que o batizaram de \u2018Paganini\u2019, numa alus\u00e3o ao imortal violinista italiano. Infelizmente, a alcunha parece ter criado vida e, tal acontecera com o m\u00fasico de G\u00eanova, esse amolador de facas tamb\u00e9m se tornaria v\u00edtima do mito, pagando caro por isso.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O Malhado na ocasi\u00e3o era bairro simples. Formado por trabalhadores humildes. Gente boa, dotada de f\u00e9 religiosa e costumes interioranos. Entre os moradores, havia uma mulher, de nome Eul\u00e1lia, com quase setenta anos, ranzinza, que n\u00e3o varria o lixo da casa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cal\u00e7ada, n\u00e3o pendurava a roupa no varal pelo lado avesso, odiava gatos pretos, n\u00e3o passava embaixo de escadas. N\u00e3o perdia missa. Sempre de ter\u00e7o na m\u00e3o, dizia ela que todas essas coisas eram \u2018atraso de vida\u2019. Supersticiosa, cismou com o amolador. Bastava ele entrar no bairro, ela dizia que estava para morrer algu\u00e9m, pois o som produzido pela pedra de amolar era de \u2018mau agouro\u2019.<\/p>\n<p>Por ser bairro antigo, havia ali muitos moradores de idade avan\u00e7ada. Com isso era compreens\u00edvel que, em freq\u00fc\u00eancia acima do normal, uns e outros \u2018batessem as botas\u2019, o que, por influ\u00eancia de Eul\u00e1lia, logo associavam \u00e0 presen\u00e7a do amolador. A princ\u00edpio isso soava como brincadeira. Principalmente entre a garotada, que s\u00f3 queria divers\u00e3o. Mas, com o passar do tempo, pela repeti\u00e7\u00e3o constante das palavras maldosas de Eul\u00e1lia, mais e mais pessoas foram associando as mortes \u00e0 presen\u00e7a do amolador.<\/p>\n<p>O mito ganhou vulto. Pessoas ficaram arredias ao ouvir o esmeril. Logo a freguesia diminuiu consideravelmente. Teve quem tentasse proibir a entrada dele no bairro. O burburinho n\u00e3o demorou a chegar aos ouvidos do amolador, pois a frase se tornara refr\u00e3o das ruas: \u2018\u2013 L\u00e1 vem Paganini! Hoje morre um!\u2019. Em seu viver simpl\u00f3rio, ignoravam laudo m\u00e9dico, per\u00edcia, estado de sa\u00fade ou idade. Cultos e novenas foram organizadas. Casas foram benzidas. N\u00e3o tardou surgirem \u2018causos\u2019 sobre o tal homem. Todo e qualquer falecimento passou a ter um s\u00f3 diagn\u00f3stico popular.<\/p>\n<p>Encabulado, Jos\u00e9 n\u00e3o vinha com a mesma freq\u00fc\u00eancia de antes. Alternava hor\u00e1rios, tentando fugir \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o dos mais radicais. Numa tarde de agosto, ap\u00f3s um m\u00eas sem dar as caras, \u2018Paganini\u2019 apareceu. Como de costume, foi rodeado pela molecada que, n\u00e3o tardou, fora chamada pelos pais. Pensei ser hora de almo\u00e7o ou porque muitos \u2013 como eu \u2013 estavam vindo da escola. Fui das poucas crian\u00e7as a poder ficar ali\u2026 encantada com aquela \u2018musica\u2019, at\u00e9 ser bruscamente interrompida por gritos sa\u00eddos da rua, \u00e0s minhas costas.<\/p>\n<p>Virei em tempo de ver Ant\u00f4nio, marido de Eul\u00e1lia, faca na m\u00e3o, proferindo amea\u00e7as ao homem que, com medo, nem assimilava o absurdo. Junto a Ant\u00f4nio, outros furiosos refor\u00e7avam o coro. Exigiam que se retirasse do bairro prometendo n\u00e3o voltar. Por mais que explicasse que n\u00e3o havia rela\u00e7\u00e3o entre ele e as mortes, todos pareciam surdos e mal o deixavam falar. N\u00e3o havia quem o socorresse. Na confus\u00e3o, derrubaram a bicicleta, quebrando-a com chutes, bem como ao esmeril. As ferramentas foram espalhadas. Quando a PM chegou, dif\u00edcil foi conter o povo. Os policiais sequer entendiam o que se passava. Levaram-no dali, pois j\u00e1 se falava em linchamento.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 nunca mais apareceu. N\u00e3o sei o que foi feito dele. Dizem, alguns, que faleceu. Desde aquele dia muito tempo se passou. O bairro evoluiu. \u00c9 outra mentalidade que predomina. Muitos desconhecem o caso. Ainda morre muita gente. Mas essa nunca foi a refer\u00eancia a me fazer lembrar do amolador. Penso nele quando ou\u00e7o algu\u00e9m dizer: \u2018\u2013 N\u00e3o varra o lixo pra cal\u00e7ada!\u2019, ou se minha filha afina o viol\u00e3o. H\u00e1 poucos dias, passando em frente \u00e0 loja de discos, ouvi uns acordes suaves e agudos que elevaram meu esp\u00edrito. Entrei. Quis saber quem era. Muito gentil, a mo\u00e7a do balc\u00e3o disse: \u2018\u2013 Essa \u00e9 a sonata \u2018Amorosa de Scena\u2019, de Nicolo Paganini\u2019. Sa\u00ed \u00e0s pressas. N\u00e3o levei o disco. N\u00e3o falei nada, nem poderia. Sem entender a raz\u00e3o, eu estava com os olhos cheios d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0Colabora\u00e7\u00e3o de Luiz Castro<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Bacharel Administra\u00e7\u00e3o de Empresa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O\u00a0AMOLADOR DE FACAS DO MALHADO Jos\u00e9 esteve longe de ser homem comum. Por\u00e9m, algumas caracter\u00edsticas que observei quando crian\u00e7a, as quais muito o diferenciavam das pessoas que tramitavam no bairro do Malhado da d\u00e9cada de 60, somente consegui analis\u00e1-las me. 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