{"id":10647,"date":"2011-03-15T19:33:18","date_gmt":"2011-03-15T22:33:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=10647"},"modified":"2011-03-15T22:22:21","modified_gmt":"2011-03-16T01:22:21","slug":"o-homem-que-odiava-ladroes-que-eu-conheci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/03\/15\/o-homem-que-odiava-ladroes-que-eu-conheci\/","title":{"rendered":"O Homem que odiava ladr\u00f5es que eu conheci."},"content":{"rendered":"<p>Eu sou um estruturalista convicto, reconhe\u00e7o. Invariavelmente tudo que escrevo est\u00e1 impregnado pela busca incessante dos elementos sensoriais e abstratos, da alma, das emo\u00e7\u00f5es. Isso para muitos, s\u00e3o artif\u00edcios corriqueiros; posto que, n\u00e3o obstante o j\u00e1 predominante p\u00f3s-modernismo e neof\u00f3bico anti-moralismo, ainda assim, insistem no infectar com permissivas concess\u00f5es e duvidosas premissas a moral, enquanto banalizam a \u00e9tica como sup\u00e9rflua.<\/p>\n<p>Ainda sou daqueles que acreditam que para impactar o indiv\u00edduo humano, rudimentarmente, \u00e9 necess\u00e1rio confrontar sua moral e sexualidade, pondo-as em d\u00favida e\/ou atrav\u00e9s cr\u00edticas ditas com fibula\u00e7\u00e3o. Isto porque n\u00e3o acredito na sobreviv\u00eancia do homem imoral, mesmo nos nossos dias. N\u00e3o acredito que exista algu\u00e9m inconstrang\u00edvel, quando confrontado pelos pr\u00f3prios deslizes e \u201cfraquezas\u201d. A ret\u00f3rica n\u00e3o consegue incutir togas vestais ao pr\u00f3prio cinismo do seu personagem. Ele desaba ante a catarse dos \u201cmalfeitos\u201d que o cinismo n\u00e3o consegue disfar\u00e7ar o mau cheiro que exalam. Um discurso post-mortem ante o t\u00famulo da moral.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Ainda acredito firmemente que os elementos estruturais da personalidade humana, onde se inserem a honradez da moral e seus constituintes \u00e9ticos, n\u00e3o cessam ou prescrevem sua import\u00e2ncia nem ap\u00f3s a morte de quem se investiu deles. A honradez moral \u00e9 transcendental a vida; embora isto soe tolo para alguns nos dias atuais. A expertise pressup\u00f5e o engodo sobre a \u00e9tica.<\/p>\n<p>Eu conheci de perto e vivi \u00e0 \u00e9poca do \u201cvelho senhor que odiava os ladr\u00f5es\u201d. S\u00e3o imagens indel\u00e9veis da minha pr\u00e9-adolesc\u00eancia. Desconfio que elas tenham influ\u00eddo muito na constru\u00e7\u00e3o do meu car\u00e1ter e personalidade, n\u00e3o sei. Em nossas vidas haver\u00e3o de interagir sempre, o empirismo da experi\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es familiares e a proped\u00eautica da educa\u00e7\u00e3o formal. Acredito, s\u00e3o mesclas inevit\u00e1veis nos conceitos sociol\u00f3gicos para a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter que se constituir\u00e1 no jovem homem.<\/p>\n<p>Aquele homem grande, veio do Sul com o seu cl\u00e3; veio de uma regi\u00e3o de onde eu, coincidentemente, tamb\u00e9m vivi a inf\u00e2ncia. Clima frio, terras caras, agricultura e pecu\u00e1ria dif\u00edceis \u00e0 \u00e9poca; disputas fundi\u00e1rias; brigas e mortes entre irm\u00e3os; conflitos \u00e9tnicos entre europeus e ar\u00e1bicos. Choque de culturas; intoler\u00e2ncia. Um contra censo num pa\u00eds como o Brasil. <\/p>\n<p>Emigramos para o Sul da Bahia, que recebeu-nos com muitas chuvas e dias brumosos de entardeceres precoces sob n\u00e9voas teimosas que prenunciam a noite e ignoram o dia. Terras f\u00e9rteis, com bons pre\u00e7os de compra e muitas matas a serem derribadas para dar lugar \u00e0 cultura do cacau e \u00e0quelas para a subsist\u00eancia familiar, como o feij\u00e3o, o arroz, a mandioca e um gadinho. Foi nesse ambiente rural duma cidade efervescente de novos-ricos, que o \u201cvelho senhor que odiava os ladr\u00f5es\u201d tornou-se um pr\u00f3spero agricultor. Armado de muita disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho, um 38 \u00e0 cintura, uma fam\u00edlia de cinco filhos, uma esposa dedicada e ele, um destacado cidad\u00e3o exemplar que detestava ladr\u00f5es. Uma \u201cexcentricidade\u201d que ningu\u00e9m arriscava questionar.  <\/p>\n<p>Foi assim que numa chuvosa manh\u00e3 de abril ele recebeu a visita de um Juiz em sua bela casa situada na principal Rua da sua cidade, e que tinha nome do jurista da nossa hist\u00f3ria o Rui. Nessa visita; cerimoniosa e cordialmente, ele foi solicitado encarecidamente pelo merit\u00edssimo juiz, a ocupar o cargo de delegado de pol\u00edcia da cidade, merc\u00ea da sua conduta honrada, princ\u00edpios morais r\u00edgidos e muita coragem e resolu\u00e7\u00e3o em todas as suas atitudes. Ele estava sendo instado ao preenchimento da vaga deixada pelo delegado rec\u00e9m assassinado numa emboscada l\u00e1 pras bandas da Barra da Fartura. A cidade necessitava um delegado resoluto e corajoso. Ele era o homem indicado para isso.<\/p>\n<p>Resumindo um pouco: O homem que odiava os ladr\u00f5es tomou posse no cargo de Delegado e, superou todas as expectativas a si atribu\u00eddas. N\u00e3o s\u00f3 limpou a cidade dos ladr\u00f5es, desordeiros e criminosos residentes; quanto \u00e0queles que faziam conex\u00e3o na cidade para chegar a outras onde atuariam criminosamente.<\/p>\n<p>Cuidava da sua fam\u00edlia; dos seus neg\u00f3cios na fazenda e na cidade, n\u00e3o poupava tempo nas fun\u00e7\u00f5es de delegado de pol\u00edcia, que exercia com imparcialidade e esmero.<\/p>\n<p>M\u00e1s numa certa noite de inverno, enquanto o homem que odiava os ladr\u00f5es dormia tranquilo em sua resid\u00eancia; um perigoso assassino de aluguel, um serial killer, escapou da pris\u00e3o durante a noite, sem maiores problemas. Ao tomar conhecimento do fato, o homem virou um le\u00e3o. Furioso pela fuga de perigoso marginal; possivelmente auxiliado na fuga pelo pr\u00f3prio carcereiro e policial de plant\u00e3o; o homem quebrou os dois policiais na porrada, e determinou que a partir daquele dia, a chave da carceragem ficaria com ele, mesmo \u00e0 noite quando estivesse ausente da delegacia. Que as ocorr\u00eancias com pris\u00f5es efetuadas \u00e0 noite, os elementos detidos ficariam algemados ao poste de ilumina\u00e7\u00e3o que fica em frente \u00e0 delegacia ate \u00e0 sua chegada de manh\u00e3 \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o policial, quando a\u00ed lavraria os B. Os. e faria as oitivas dos detidos, encarcerando-os em seguida, quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em pouqu\u00edssimo tempo, a cidade j\u00e1 sabia que assassinos; arrombadores de resid\u00eancias; descuidistas; ladr\u00f5es de galinhas; desordeiros e homens que gostavam de bater em mulheres, quando detidos \u00e0 noite, ficavam empencados pelas algemas ao poste da porta da delegacia ate manh\u00e3 do dia seguinte.<br \/>\nEm pouco tempo, a popula\u00e7\u00e3o ficou sabendo da mudan\u00e7a. A\u00ed come\u00e7ou as festas oferecidas aos detidos, empencados, com farta distribui\u00e7\u00e3o de tabefes. As v\u00edtimas de roubos; de viol\u00eancias f\u00edsicas; dos v\u00e2ndalos e dos desordeiros, compareciam pontualmente na madrugada \u00e0 porta da delegacia, munidos de t\u00e1buas, chicotes, cabos de vassouras e porretes e faziam a festa. Desciam o cacete nos seus algozes de horas atr\u00e1s! Malhava-nos como aos Judas dos S\u00e1bados de Aleluia. Eram sovas hom\u00e9ricas assistidas por plat\u00e9ia que j\u00e1 sabia dessa ritual\u00edstica modelo tali\u00e3o.<br \/>\nQuando o Homem que Odiava Ladr\u00f5es chegava \u00e0 delegacia pontualmente \u00e0s sete horas da manh\u00e3, j\u00e1 encontrava os detidos visivelmente \u201cjusti\u00e7ados\u201d pelas hom\u00e9ricas surras aplicadas \u00e0 noite anterior pelos seus desafetos, as v\u00edtimas. A\u00ed, ante aqueles que praticaram delitos menores e que ali se encontravam diante da autoridade policial; todos devida e minuciosamente \u201cmalhados\u201d; dispensava-os de maiores procedimentos jur\u00eddicos ou criminais; indultando-os pelo \u201csimples\u201d atenuante da surra que lhe fora aplicada. Sem maiores expedientes, mandava-os ao hospital para breves curativos. Estavam livres para reincidirem, se achassem que ag\u00fcentariam uma nova surra das v\u00edtimas e eventuais convidados. Aquele cujos delitos eram mais graves, iam como estavam, para o xilindr\u00f3.<br \/>\nEnquanto o homem que Odiava os Ladr\u00f5es esteve delegado; a cidade foi pacata, ordeira e feliz.<br \/>\nNa minha curiosidade de crian\u00e7a, arrisquei um dia perguntar-lhe: \u201c_ Porque o senhor odeia tanto os ladr\u00f5es?\u201d. No que ele pacientemente me respondeu:<br \/>\n_ Para o assassino existem atenuantes diversos: Perda da raz\u00e3o; defesa da honra; leg\u00edtima defesa pr\u00f3pria ou de terceiros; vingan\u00e7a imediata ou tardia por uma ofensa grave, perda moment\u00e2nea da raz\u00e3o e equil\u00edbrio emocional etc. Quanto ao ladr\u00e3o; para este n\u00e3o existem atenuantes: S\u00e3o c\u00ednicos, imorais, pregui\u00e7osos, cobi\u00e7osos, latrocidas, especializam-se em roubar, s\u00e3o reincidentes mesmo ap\u00f3s longas penas. Esses s\u00e3o muito piores que aqueles matam, pois mesmo rudimentarmente, n\u00e3o possuem um resqu\u00edcio sequer de car\u00e1ter.<br \/>\nEle segurou cuidadosamente as minhas m\u00e3os e disse com voz muito profunda: \u201cEsses, se me fosse permitido; eu lhes cortaria a m\u00e3o direita e o p\u00e9 esquerdo.\u201d<\/p>\n<p>Eu nunca esqueci as palavras desse senhor que odiava os ladr\u00f5es. Hoje, j\u00e1 com meus 55 anos de idade, fico imaginando, se ainda estivesse entre n\u00f3s, como viveria na atualidade esse HOMEM que odiava ladr\u00f5es?<br \/>\nMelhor nem pensar. Eles venceram!<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nPor Mehmed. 15\/03\/2011 18:46:34<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou um estruturalista convicto, reconhe\u00e7o. Invariavelmente tudo que escrevo est\u00e1 impregnado pela busca incessante dos elementos sensoriais e abstratos, da alma, das emo\u00e7\u00f5es. 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