{"id":10671,"date":"2011-03-16T08:47:31","date_gmt":"2011-03-16T11:47:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=10671"},"modified":"2011-03-16T08:47:31","modified_gmt":"2011-03-16T11:47:31","slug":"musica-baiana-em-estado-de-imbecilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/03\/16\/musica-baiana-em-estado-de-imbecilidade\/","title":{"rendered":"M\u00fasica baiana, em estado de imbecilidade"},"content":{"rendered":"<p><div id=\"attachment_10672\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/vanderley.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10672\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/vanderley.jpg\" alt=\"\" title=\"vanderley\" width=\"150\" height=\"176\" class=\"size-full wp-image-10672\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10672\" class=\"wp-caption-text\">Vanderley Soares<\/p><\/div>Quando algu\u00e9m pronuncia a palavra analfabetismo na Bahia, e se essa declara\u00e7\u00e3o parte de um acad\u00eamico, branco ou da elite, parece tratar-se de racismo, discrimina\u00e7\u00e3o e \u00f3dio.<\/p>\n<p>Quando dizem que o som do berimbau \u00e9 simpl\u00f3rio e que qualquer um pode reproduzi-lo sem maiores conhecimentos instrumentais, por possuir apenas uma corda, logo diriam: \u00e9 mais um que odeia as ra\u00edzes baianas, suas influ\u00eancias e sua cultura. Isso j\u00e1 ocorreu na Bahia e deu muito pano pra manga.<\/p>\n<p>E quando dizem que a m\u00fasica baiana est\u00e1 cada dia pior e que o pagode n\u00e3o passa de mais um sonoro palavr\u00e3o multiplicado por milhares de incautos, ignaros e est\u00fapidos, certamente repetiriam: trata-se de mais um a ver-nos como sub-ra\u00e7a, desinformados e inconformados.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Pois \u00e9. E quando essa declara\u00e7\u00e3o parte de um pardo, de origem negra e ind\u00edgena, e que cursou apenas o segundo grau? A\u00ed, certamente dir\u00e3o, trata-se de um oportunista, um comunicador frustrado ou de algu\u00e9m que n\u00e3o conseguiu galgar os seus objetivos.<\/p>\n<p>Pois bem. Esse rodeio, meio despretensioso, mas importante, \u00e9 para falar do grau de imbecilidade a que chegou a m\u00fasica baiana, principalmente ao pagode aqui produzido e consumido. N\u00e3o falo do Ax\u00e9, que apesar da mesmice, n\u00e3o usa palavr\u00f5es nem ridiculariza a Bahia como Estado analfabeto.<\/p>\n<p>Como estudei numa das escolas mais influentes da Bahia, principalmente nos anos 50 e 60, o Col\u00e9gio Central, participei da colet\u00e2nea po\u00e9tica em homenagem ao sesquicenten\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o, fiz teatro e poesia nas ruas de Salvador, pronunciar algumas palavras (\u00f5es) e gestos obscenos da m\u00fasica baiana \u00e9 assinar embaixo aos que dizem da Bahia, no Brasil afora, a de que \u00e9 um povo mal educado e que s\u00f3 gosta de balan\u00e7ar o bundalel\u00ea.<\/p>\n<p>E, vendo de perto, em algumas coberturas jornal\u00edsticas Bahia adentro, chego a interrogar-me quanto \u00e0s minhas origens. Chego a duvidar que tivemos em nosso ber\u00e7o um Raul Seixas, um Castro Alves, um Wally Salom\u00e3o, um Jorge Amado \u2013 que, mesmo produzindo alguns palavr\u00f5es, nunca foi um turpil\u00f3quio, e tantos outros que enalteceram e alguns que ainda enaltecem e fazem lembrar que t\u00ednhamos uma cultura.<\/p>\n<p>Mas, quando vou ao Campo Grande e ou\u00e7o Caetano Veloso dizer que Xanddy \u00e9 lindo e que ele \u00e9 uma das novas express\u00f5es culturais da Bahia, chego a duvidar que sou baiano de verdade, daquele que comeu tripa seca e farinha de rosca pra n\u00e3o morrer de fome. E acho Caetano uma das maiores express\u00f5es da m\u00fasica mundial, apesar de requentar, vez ou outra, alguma m\u00fasica que no passado foi considerada brega.<\/p>\n<p>A\u00ed me conformo e vou ouvir um pouco de Xangai, onde, entre as suas p\u00e9rolas, fez o ABC do pregui\u00e7oso, que endossa a tese dos sulistas de que o baiano s\u00f3 \u00e9 gente at\u00e9 o meio-dia. E ent\u00e3o, o que ser\u00e1 o baiano durante a tarde? \u00c9 uma legi\u00e3o de trabalhadores, cujo estigma de pregui\u00e7oso foi amplamente difundido pelos meios tur\u00edsticos, uma forma de falar da tranquilidade, da \u201cmaresia\u201d e do sossego baiano.<\/p>\n<p>O saudosismo aflora e me remete \u00e0 d\u00e9cada de 1980. L\u00e1, at\u00e9 1985, os shows em Salvador, no projeto ver\u00e3o, no Centro de Conven\u00e7\u00f5es da Bahia, eram bastante disputados. No palco, Gil, Caetano, Milton, Beto Guedes, Bar\u00e3o Vermelho e tantos outros que arrastavam multid\u00f5es. Na Barra, shows com Moraes Moreira, Luiz Caldas e Armandinho com A Cor do Som encantavam e lotavam a praia.<\/p>\n<p>Retorno ao meu trabalho de coberturas de eventos com m\u00fasica baiana e l\u00e1, estampada em minha frente, uma multid\u00e3o de 20, 30 mil pessoas numa avenida. As meninas, os meninos, dan\u00e7am como se tivessem sido libertados naquele instante. Mais parece um bal\u00e9 de zumbis, daquele extra\u00eddo dos filmes de terror das d\u00e9cadas de 70 e 80. Ou ent\u00e3o em um orgasmo coletivo, algo do tipo promovido C\u00e9sar ou qualquer outro Cal\u00edgula da nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em un\u00edssono, eles repetem as frases, os refr\u00f5es e fazem todo o gestual obsceno para completar o enredo empobrecedor. O vocalista da banda grita, berra e pede para que todos ecoem aos quatros cantos: \u201cAponte o corno a\u00ed, diga que \u00e9 corno\u201d. E todos riem, como num circo, mas deveriam chorar ao debru\u00e7ar a cabe\u00e7a no travesseiro.<\/p>\n<p>A grande maioria desempregada, deseducada e pobre. Desiludida pela face cruel do ensino que lhes oferecem nas escolas p\u00fablicas, entregam-se aos bailes horrendos como se fossem a \u00faltima \u00f3pera da vida deles. E se entregam de corpo e alma \u00e0 miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Os maiores patrocinadores da m\u00fasica baiana no interior s\u00e3o as prefeituras, que gastam somas vultosas em festas, micaretas, anivers\u00e1rios e inaugura\u00e7\u00f5es, contratando bandas que em nada enriquecem a cultura popular, em detrimento do folclore, das ra\u00edzes de cada cidade e de sua hist\u00f3ria. E l\u00e1 se v\u00e3o tubos e mais tubos de dinheiro p\u00fablico pelo ralo.<\/p>\n<p>E voltam para casa sem saber um verso de Vin\u00edcius de Morais, sem ter-se envaidecido em ser brasileiro ao ouvir Pixinguinha, em ter-se delirado com os versos n\u00e3o menos pregui\u00e7osos de Dorival Caymmi, em ter-se deleitado \u00e0 sonoridade de Beth\u00e2nia e Gal, ou ter-se maravilhado ao som po\u00e9tico de Gilberto Gil. \u201cEsses mo\u00e7os, pobres mo\u00e7os, a se soubessem o que eu sei\u201d, disse Lupic\u00ednio Rodrigues em uma de suas can\u00e7\u00f5es imortalizada na voz de Gilberto Gil.<\/p>\n<p>E a\u00ed v\u00e3o me perguntar o que tenho feito para mudar o que j\u00e1 est\u00e1 constru\u00eddo. Nada. Sinto-me impotente. Apesar de radialista de profiss\u00e3o, jornalista por paix\u00e3o, n\u00e3o consigo convencer ningu\u00e9m do contr\u00e1rio. A m\u00fasica baiana vai continuar tocando assim durante muito tempo. Mas um dia acaba. Lutar contra o mercado \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 uma m\u00e1quina de fazer dinheiro a qualquer custo. E ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado com a educa\u00e7\u00e3o, com a cultura, com o folclore. A m\u00eddia baiana enaltece, enobrece, escancara esses palavr\u00f3rios como deuses. At\u00e9 que duas meninas aparecem decapitadas numa esquina qualquer. De quem \u00e9 a culpa?<\/p>\n<p><strong>*Vanderley Soares \u00e9 radialista e jornalista, editor do Jornal Gazeta dos Munic\u00edpios\/Alagoinhas-Bahia<\/strong><\/p>\n<p>No <a HREF = \"http:\/\/www.teiadenoticias.com.br\/artigos\/artigos\/musica-baiana-em-estado-de-imbecilidade\" TARGET = \"_NEWS\"><b>Teia de Not\u00edcias<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando algu\u00e9m pronuncia a palavra analfabetismo na Bahia, e se essa declara\u00e7\u00e3o parte de um acad\u00eamico, branco ou da elite, parece tratar-se de racismo, discrimina\u00e7\u00e3o e \u00f3dio. 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