{"id":1098,"date":"2010-10-30T15:51:06","date_gmt":"2010-10-30T18:51:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=1098"},"modified":"2010-11-02T18:44:08","modified_gmt":"2010-11-02T21:44:08","slug":"o-estouro-da-boiada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2010\/10\/30\/o-estouro-da-boiada\/","title":{"rendered":"O estouro da boiada"},"content":{"rendered":"<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Jos\u00e9-Iram-Almeida2.jpg\"\/>Do alto, onde eu estava, podia ver o poeir\u00e3o. Uns dois quil\u00f4metros ao norte, cobrindo tudo: o mato; as \u00e1rvores; o c\u00e9u. Aos poucos o barulho foi aumentando, num crescente, um tropel agigantado de mamutes e ginetes que rompiam tudo que encontravam pela frente. Aprumei a \u00e9gua e me equilibrei no estribo para melhor observar aquela cena singular que \u00e0s vezes o campo oferece. Um tuf\u00e3o, um p\u00e9-de-vento, algo mais forte, natural, n\u00e3o assusta tanto. Mas, o estouro de uma boiada, campeando sem fronteira&#8230;<br \/>\n<!--more--><br \/>\nAssim o zuar dos cascos nas pedras, esfarelando a br\u00f3, lascas de madeira esturricada pelo sol de abril. Cinzento os campos, pelo abafadi\u00e7o do estio, um mosquito que zoa se ouve como o tanger do malho. E a zoeira toma conta da estrada, espantando ao longe o soc\u00f3 e a assustada seriema. E o barulho aumenta. E a poeira sobe. J\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea a manada, que agora forma um s\u00f3 corpo, o gigantismo da turba desembestada, rola e sulca as veredas e os caminhos, afastando em fra\u00e7\u00e3o de segundos, os mour\u00f5es mais resistentes que sustentam as cercas de arame liso, a tanto esfor\u00e7o, fincadas nas pedras<\/p>\n<p>        Formam uma barreira de carne e chifres, se locomovendo em forma\u00e7\u00e3o linear, irracional, buscando um extremo qualquer, que os interrompa.<\/p>\n<p>A \u00e9gua tenta recuar, um forte pux\u00e3o na brida e ela se acalma. A turba se aproxima, vem na quebran\u00e7a, rasgando o couro do lombo, nos espinhos da Jussara; nas laminas afiadas das brom\u00e9lias, nos espinhos do mandacaru-bravo. O suor mistura-se com sangue, formando uma pasta ocre, por onde pisam centenas de cascos. Reboam as andorinhas, gritam os carcar\u00e1s e a cruz abandonada do vaqueiro errante, passiva, a tudo assiste.<\/p>\n<p>Passo a m\u00e3o sobre a crina da \u00e9gua, ela arrepia, tuge e balan\u00e7a a cauda, pressentindo a boiada. Uma cascavel que finge dormir levanta a cabe\u00e7a, procura no ar, sacode o chocalho e se afasta para debaixo das pedras. No ponto mais baixo da estrada, onde abarranca o cascalho, outrora rasgado por m\u00e3os humanas, testemunha, mais um estouro sem motivo, de uma boiada no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>(ALMEIDA, J. Iram)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do alto, onde eu estava, podia ver o poeir\u00e3o. Uns dois quil\u00f4metros ao norte, cobrindo tudo: o mato; as \u00e1rvores; o c\u00e9u. Aos poucos o barulho foi aumentando, num crescente, um tropel agigantado de mamutes e ginetes que rompiam tudo que encontravam pela frente. Aprumei a \u00e9gua e me equilibrei no estribo para melhor observar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1098"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1098"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1098\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1283,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1098\/revisions\/1283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}