{"id":11100,"date":"2011-03-21T08:47:57","date_gmt":"2011-03-21T11:47:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=11100"},"modified":"2011-03-21T08:47:57","modified_gmt":"2011-03-21T11:47:57","slug":"um-painel-alem-do-tempo-o-escondido-por-tras-do-cacau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/03\/21\/um-painel-alem-do-tempo-o-escondido-por-tras-do-cacau\/","title":{"rendered":"UM PAINEL AL\u00c9M DO TEMPO: O ESCONDIDO POR TR\u00c1S DO CACAU"},"content":{"rendered":"<p><b>Ruy P\u00f3voas<\/b><\/p>\n<p>Quando \u00c2ngelo Calmon de S\u00e1 foi presidente do Banco Econ\u00f4mico, encomendou ao artista pl\u00e1stico Genaro de Carvalho um painel para ornamentar a fachada externa do pr\u00e9dio Comendador Firmino Alves, onde o banco funcionava. E no ano de 1953, a Osirarte, firma de S\u00e3o Paulo, entregava a encomenda. O painel composto de azulejos foi fixado no pr\u00e9dio, justamente na esquina da Pra\u00e7a Adami com a Av. J. J. Seabra, atual Cinquenten\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ignorado pelos itabunenses, escondido por 30 anos por uma banca de revista, o painel \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o do cacau\u201d sofreu toda a sorte de vilip\u00eandios. Sobre ele eram pregados folhetos de propaganda comercial, retratos de candidatos a cargos eletivos, avisos de cartomantes. Os maus tratos quebraram v\u00e1rios azulejos, o descaso do poder p\u00fablico inutilizou outros tantos, a indiferen\u00e7a grapiuna fez in\u00fameros deles rachar.<\/p>\n<p>Os transeuntes passavam e n\u00e3o viam. As escolas ignoravam. Os camel\u00f4s faziam dele o pano de fundo sobre o qual suas quinquilharias eram expostas. O Banco Econ\u00f4mico n\u00e3o mais existe, \u00c2ngelo Calmon de S\u00e1 e Genaro de Carvalho se foram, mas \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o do cacau\u201d desafiou o tempo durante 58 anos. Sua perman\u00eancia deve-se muito mais \u00e0 alta qualidade do material com que foi confeccionado do que ao zelo municipal.<\/p>\n<p>Cerca de uma d\u00fazia de prefeitos passou por Itabuna desde que o painel foi inaugurado. Secret\u00e1rios de Educa\u00e7\u00e3o, Diretores de Escolas, professores, pessoas ricas, gente formada, tudo isso desfilou com fartura durante esses 58 anos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe: todos sabem disso. E na ordem natural das coisas e na vida dos homens, tudo tem seu dia. Prova disso \u00e9 a atitude do Dr. Cyro de Mattos, contista laureado, poeta de primeira linha, que dirige a Funda\u00e7\u00e3o Itabunense de Cultura  \u0336  FICC. Entre outras conquistas e realiza\u00e7\u00f5es deste escritor e poeta refinado est\u00e1 a gl\u00f3ria de ter recuperado o painel de Genaro de Carvalho.<\/p>\n<p>\tPor que tal recupera\u00e7\u00e3o se constitui uma gl\u00f3ria? In\u00fameras s\u00e3o as raz\u00f5es. Algumas delas, no entanto, n\u00e3o podem deixar de ser apontadas. \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o do cacau\u201d \u00e9 obra \u00fanica da lavra de seu criador. Poucas pessoas, fora de nossa regi\u00e3o sabem da exist\u00eancia dele.<\/p>\n<p>\u00c9, por\u00e9m, pelo imagin\u00e1rio da cultura do cacau retratado no painel, que justifica sua restaura\u00e7\u00e3o. Numa \u00e1rea com cerca de 30 metros quadrados, Genaro abarca o esp\u00edrito que forjou a riqueza cacaueira. Percebe-se um fundo branco sobre o qual in\u00fameras grada\u00e7\u00f5es de ocre debuxam a saga do cacau. Numa diagonal imagin\u00e1ria, que une o mais baixo ponto \u00e0 direita e o mais alto \u00e0 esquerda, vemos, respectivamente, sacas de cacau para \u201cpronta entrega\u201d, como se costumava dizer, e navios e embarca\u00e7\u00f5es para o escoamento da safra. Permeando esses dois pontos, uma s\u00e9rie de motivos t\u00edpicos e exclusivos da flora e da fauna regionais: algumas ca\u00e7as, um cachorro, ramagens, cacaueiros e figuras humanas. Catorze pessoas s\u00e3o retratadas, sendo a maioria homens musculosos, de corpos viris. Apenas duas mulheres: uma, embora trajando roupas femininas, tem o corpo masculinizado; a outra&#8230; Bem, a outra aparece em trajes que exp\u00f5em seus dotes femininos e a caracterizam como objeto de desejo dos homens. A primeira \u00e9 a mulher que, para sobreviver naquela \u00e9poca, enfrentava o batente igual aos homens. Ela \u00e9 rude, musculosa e n\u00e3o se v\u00ea sua fisionomia. Ela est\u00e1 em postura masculina, sustentada por suas pernas carnudas, bem abertas. A segunda est\u00e1 desconectada dos afazeres em que as demais figuras est\u00e3o ocupadas. Suas pernas bem torneadas, seu traje de quem se disp\u00f5e a se divertir em vez de trabalhar, na verdade, configuram aquela outra mulher que terminava por carregar o lucro que os homens auferiam no pesado trabalho da lavoura do cacau. Todos usam um mesmo tipo de chap\u00e9u: \u00fanica prote\u00e7\u00e3o para suas cabe\u00e7as expostas \u00e0s inclem\u00eancias do c\u00e9u. Os homens todos s\u00e3o muito carnudos, musculosos e suas fei\u00e7\u00f5es s\u00e3o de negros, mulatos ou caboclos. Todos est\u00e3o trabalhando no pesado: colhendo ou quebrando os frutos, pisoteando ou ensacando as sementes, carregando pesadas sacas de quatro arrobas na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c0 exce\u00e7\u00e3o da mulher desconectada, n\u00e3o se v\u00ea outra pessoa branca. Tamb\u00e9m n\u00e3o se v\u00ea pessoa alguma gozando a fortuna resultante do trabalho retratado. Os donos da riqueza est\u00e3o ausentes da luta, do trabalho duro, do derramamento de suor. H\u00e1 uma mensagem b\u00edblica \u00e0s avessas, oculta: comer\u00e1s o p\u00e3o com o suor do rosto do outro. Por isso mesmo eles n\u00e3o tomam parte na composi\u00e7\u00e3o do painel.<\/p>\n<p>Os animais retratados est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o aos humanos: os animais gozam a plenitude da liberdade; os humanos est\u00e3o presos por correntes invis\u00edveis ao trabalho pesado. E todos se sustentam numa base formada por frutos do cacaueiro, esparramados pelo ch\u00e3o. \u00c9 a riqueza e a fartura que marcaram uma \u00e9poca, uma sociedade, uma cultura. Isso, no entanto, se concentrava em outras m\u00e3os que n\u00e3o eram as dos trabalhadores. Por isso mesmo, quando a riqueza do cacau ruiu, o povo em geral n\u00e3o guardou o menor sentimento por isso.<\/p>\n<p>O painel n\u00e3o retrata constru\u00e7\u00e3o alguma. Por isso mesmo uma terra um tanto selvagem comp\u00f5e o pano de fundo que se funde com os demais planos: tudo est\u00e1 fundido na mesma atmosfera que hipnotiza: o mundo do cacau. As embarca\u00e7\u00f5es que aparecem no alto \u00e0 direita \u00e9 o limite do homem do cacau. De l\u00e1 em diante, outra classe s\u00f3cio-econ\u00f4mica entraria em cena. Essa outra classe, no entanto, n\u00e3o aparece. Est\u00e1 escondida no branco que faz o pano de fundo do painel. Do que se v\u00ea, tudo \u00e9 ocre, cor de barro. \u00c9 o ch\u00e3o do cacau que mergulhava a todos num atavismo sem par. Os ricos geravam os ricos; os pobres geravam os pobres, embora todos fossem feitos do mesmo barro que gerava o cacau. Ocre s\u00e3o as sementes do cacau ap\u00f3s seu preparo para exporta\u00e7\u00e3o. Ocre \u00e9 o painel de Genaro que t\u00e3o bem soube captar o imagin\u00e1rio de nossa sociedade, dos que governaram esta na\u00e7\u00e3o grapiuna desde a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que Cyro de Mattos n\u00e3o faria a recupera\u00e7\u00e3o do painel sozinho. Conforme ele mesmo declarou reconhecidamente, no ato de entrega do painel recuperado \u00e0 comunidade, o IPAC, atrav\u00e9s de Jos\u00e9 Frederico Morais, foi parceiro na recupera\u00e7\u00e3o, durante as tr\u00eas primeiras etapas. Carlos Leahy muito contribuiu, tomando atitudes corajosas para remover o amontoado de vendedores, cuja exposi\u00e7\u00e3o de mercadorias escondia o painel. Os vendedores se utilizavam dele, pregando cabides, amarrando cordas, colando bugigangas. O Prefeito Jos\u00e9 Nilton Azevedo tamb\u00e9m recebeu sua parcela de reconhecimento por parte de Cyro, pela pronta acolhida e total apoio \u00e0 id\u00e9ia de recupera\u00e7\u00e3o do painel.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, um reconhecimento maior dirigido a Richard Wagner. Foi ele quem penetrou no imagin\u00e1rio de Genaro e soube com mestria e perfei\u00e7\u00e3o conservar a originalidade da obra e a isso foi fiel, na t\u00e9cnica e no material usado na restaura\u00e7\u00e3o. Todos merecem ser louvados, mas sem a for\u00e7a criativa e criadora que emana de Wagner, o escondido por tr\u00e1s do cacau poderia se perder na recupera\u00e7\u00e3o daquela obra que se constitui, num verdadeiro laivo de criatividade de Genaro, um painel al\u00e9m do tempo.<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n<strong>\u2022\tRuy P\u00f3voas<\/strong> \u00e9 contista, poeta, ensa\u00edsta, babalorix\u00e1,, mestre em L\u00ednguas Vern\u00e1culas, professor da UESC. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruy P\u00f3voas Quando \u00c2ngelo Calmon de S\u00e1 foi presidente do Banco Econ\u00f4mico, encomendou ao artista pl\u00e1stico Genaro de Carvalho um painel para ornamentar a fachada externa do pr\u00e9dio Comendador Firmino Alves, onde o banco funcionava. E no ano de 1953, a Osirarte, firma de S\u00e3o Paulo, entregava a encomenda. 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