{"id":113641,"date":"2018-01-29T10:04:37","date_gmt":"2018-01-29T13:04:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=113641"},"modified":"2018-01-29T10:04:37","modified_gmt":"2018-01-29T13:04:37","slug":"o-dia-em-que-nasci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2018\/01\/29\/o-dia-em-que-nasci\/","title":{"rendered":"O DIA EM QUE NASCI"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">An\u00edsio Cruz &#8211; janeiro de 2018<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-112724 alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg\" alt=\"\" width=\"194\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg 312w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO-239x300.jpg 239w\" sizes=\"(max-width: 194px) 100vw, 194px\" \/><\/a>Outro dia era um beb\u00ea, nascido no arrebalde do Iguape, na faz. Sto. Ant\u00f4nio, ali onde hoje est\u00e1 a desativada f\u00e1brica da Barreto de Ara\u00fajo. Fui parido em casa, sob a a\u00e7\u00e3o de competente parteira, chamada \u00e0s pressas, para acompanhar os trabalhos do parto. Fui o terceiro filho, e \u00fanico var\u00e3o da fam\u00edlia, cujo nascimento foi festejado entre os amigos e parentes. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que tive a honra de ser registrado por meu av\u00f4 materno, Juiz de Paz de Aritagu\u00e1, que possu\u00eda jurisdi\u00e7\u00e3o sobre toda aquela regi\u00e3o, at\u00e9 a divisa com Castelo Novo, e \u00c1gua Preta (Uru\u00e7uca), distritos de Ilh\u00e9us. Ele me emprestou o seu nome, An\u00edsio, ao qual foi acrescentado o nome do outro av\u00f4, o paterno, Jos\u00e9 (morto em 1918. Ambos tinham Pereira, mas n\u00e3o havia parentesco. Da Silva, um e da Cruz o outro. Nomes que carrego com orgulho, certamente.<\/p>\n<p>Cresci menino de ro\u00e7a, dividido entre a Faz. Jacarecica, onde mor\u00e1vamos, e a Sto. Ant\u00f4nio, onde cheg\u00e1vamos sacolejando sobre o lombo de algum d\u00f3cil animal, dentro de um ca\u00e7u\u00e1 preparado para a viagem, amparado por travesseiros para amenizar os impactos das sacudidelas, que tamb\u00e9m embalavam o meu sono. Era uma longa viagem de quase tr\u00eas l\u00e9guas, seguindo por trilhas perigosas, por dentro de ro\u00e7as de cacau, e matas trai\u00e7oeiras, com subidas e descidas na serra do Bco. da Vit\u00f3ria, cruzando a atual Mata da Esperan\u00e7a, at\u00e9 a Fazenda Sagrada Fam\u00edlia (Itacanoeira), onde era feita a travessia do riacho, at\u00e9 chegarmos ao nosso destino. Assim era, at\u00e9 que come\u00e7amos a chegar a Ilh\u00e9us nas empoeiradas marinetes, para depois completarmos a viagem nos vag\u00f5es da Estrada de Ferro, at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do Iguape. De l\u00e1, por mais um kil\u00f4metro, a p\u00e9, at\u00e9 a casa da Dona Le\u00f3, a minha querida av\u00f3 materna. A chegada sempre foi festiva, e era disputado para acolhimento carinhoso dos tios, e tias, pois era o &#8220;dengo da casa&#8221;, segundo contavam. Na capelinha do Iguape fui batizado, e um vag\u00e3o do comboio foi fretado para levar de Ilh\u00e9us, os parentes e amigos. Os demais que residiam nas redondezas, tamb\u00e9m chegaram em bom n\u00famero. Dizem que a festan\u00e7a foi forte, e fartos os comes e bebes. E como era de tradi\u00e7\u00e3o, a &#8220;meladinha&#8221; preparada por meu pai, para celebrar o evento, foi servida generosamente. Foguetes espocaram no ar.<!--more--><\/p>\n<p>Evidente que n\u00e3o conservo lembran\u00e7as dessa \u00e9poca, e as que me restaram, s\u00e3o da minha viv\u00eancia na Jacarecica, at\u00e9 os cinco anos, quando viemos morar na cidade, logo ap\u00f3s a tr\u00e1gica morte do &#8220;velho Anysio&#8221;, no acidente ferrovi\u00e1rio de 1954. Desse dia 1\u00ba de agosto, lembro-me do motorista do taxi que foi nos buscar, e tamb\u00e9m deu a not\u00edcia. No acidente tamb\u00e9m foi v\u00edtima o meu tio Expedito, irm\u00e3o do meu pai, candidato a Deputado Estadual. Lembro-me do desespero da minha m\u00e3e, quando foi comunicada da morte do pai e teve que beber \u00e1gua a\u00e7ucarada quase quebrando o copo com os dentes. Depois, a chegada na Sto. Ant\u00f4nio, onde estava o corpo do meu av\u00f4 na sala principal, coberto de flores do campo. Muitos amigos foram vel\u00e1-lo. No dia seguinte, o caf\u00e9 da manh\u00e3 com os primos, e o cheiro do chocolate ao leite, que nos serviram junto com biscoitos.<\/p>\n<p>Quantas coisas aconteceram, desde aquele dia 29 de janeiro de 1949, em que nasci. Tive uma inf\u00e2ncia rica em folguedos, com os primos, e os amigos, os filhos dos agregados, que correram, e partilharam comigo, os campos da minha inf\u00e2ncia, as goiabeiras, e os cajueiros&#8230;<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as s\u00e3o muitas, e as cultivo com muita saudade durante esses 69 anos que completo. Tenho convic\u00e7\u00e3o de que tudo o que vivi, valeu \u00e0 pena, apesar das inevit\u00e1veis perdas.<\/p>\n<p>O tom melanc\u00f3lico que hoje compartilho com voc\u00eas, s\u00e3o de saudades daqueles tempos, dos que j\u00e1 se foram, e de gratid\u00e3o por tudo que fizeram por mim. Tenho certeza de um dia os encontrarei nos campos da eternidade, para celebrarmos juntos, a vida que compartilhamos aqui. Luz e paz a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00edsio Cruz &#8211; janeiro de 2018 Outro dia era um beb\u00ea, nascido no arrebalde do Iguape, na faz. Sto. Ant\u00f4nio, ali onde hoje est\u00e1 a desativada f\u00e1brica da Barreto de Ara\u00fajo. 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