{"id":113790,"date":"2018-02-06T11:11:17","date_gmt":"2018-02-06T14:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=113790"},"modified":"2018-02-06T18:34:15","modified_gmt":"2018-02-06T21:34:15","slug":"carnavais-com-a-turma-la-de-cima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2018\/02\/06\/carnavais-com-a-turma-la-de-cima\/","title":{"rendered":"CARNAVAIS COM A TURMA L\u00c1 DE CIMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">An\u00edsio Cruz &#8211; fevereiro 2018<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-112724 alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO.jpg 312w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/AN\u00cdSIO-239x300.jpg 239w\" sizes=\"(max-width: 190px) 100vw, 190px\" \/><\/a>As Moringuetes do Pontal, o Furdun\u00e7o de Salvador, os Esquentas do Carnaval de Olinda, o Bola Preta, e demais blocos alternativos do Rio de Janeiro e S. Paulo, est\u00e3o fazendo retornar o h\u00e1bito do carnaval bagun\u00e7ado, t\u00e3o comuns nas d\u00e9cadas de 1960, e 1970, principalmente. E quem viveu essa \u00e9poca, sabe muito bem do que estou falando, e cada qual guarda as suas saudosas lembran\u00e7as. Eram carnavais participativos, sem estrelismos, sem cordas, mas com muita folia, que levava o foli\u00e3o comum a ter os seus momentos de gl\u00f3ria, fantasiado de sonhos. Aqui na Bahia, j\u00e1 haviam os trios el\u00e9tricos, e todos corriam atr\u00e1s deles, sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es, pois a viol\u00eancia se limitava a pequenas escaramu\u00e7as, logo contidas pela pol\u00edcia, ou mesmo, por outros foli\u00f5es mais moderados. Quem fosse preso, ficava fora de circula\u00e7\u00e3o, s\u00f3 retornando \u00e0s ruas na quarta-feira, com boas desculpas arranjadas para as fam\u00edlias, e as namoradas. As meninas, quase sempre fantasiadas, mostravam a sua compet\u00eancia cheias de babados, lantejoulas e purpurinas, que real\u00e7avam as suas belezas sob os reflexos das luzes. Sorrisos rasgados, olhares provocativos, piscadelas discretas, e namoricos que duravam apenas os dias de Momo, o rei da folia, que sa\u00eda pelas ruas das cidades, sob os acordes de clarins, despertando a cidade para a festan\u00e7a.<\/p>\n<p>Alguns desses carnavais foram memor\u00e1veis, e imortalizaram muitas marchinhas que eram cantadas nas ruas decoradas com tem\u00e1tica colorida, alusiva aos festejos. Nos sal\u00f5es dos clubes, em bailes alegres e descontra\u00eddos, havia espa\u00e7o para concurso de fantasias, com renhidas disputas,nas diversas categorias estabelecidas. Por ser &#8220;carnavalia&#8221;, a festa da carne do mundo antigo, as pega\u00e7\u00f5es at\u00e9 aconteciam, e nove meses depois, nas &#8220;safras&#8221; correspondentes, os &#8220;buguelos&#8221; denunciavam o ocorrido, e n\u00e3o foram poucos os casos de casamentos for\u00e7ados, quando o &#8220;ricard\u00e3o&#8221; queria &#8220;morder a corda, e sair pela tangente, evadir-se sem assumir as suas responsabilidades. Em situa\u00e7\u00f5es opostas, algumas donzelas choravam os seus desgostos, os seus desenganos, enquanto pais furioso armavam-se at\u00e9 os dentes, para lavar a sangue, a desonra acontecida.<!--more--><\/p>\n<p>Velhos carnavais da minha juventude, que me faziam passar horas sob uma cajazeira tempor\u00e3, catando seus frutos, sobre a grama da fazenda, para fazer dinheiro vendendo-os nas f\u00e1bricas de sorvetes, e picol\u00e9s. Os primeiros pileques por efeito de generosas doses de conhaque, para perder a timidez, e encarar as lindas mo\u00e7oilas de ent\u00e3o, sob o risco de algum pai, ou irm\u00e3o mais explosivos, me desmontarem com um bom tapa na &#8220;broca do ouvido&#8221;, para proteger a sua filhinha, ou irm\u00e3zinha. Pierr\u00f4s, desajeitados circulavam pelos sal\u00f5es abarrotados, acompanhados de marinheiros, \u00edndios, ou macac\u00f5es enormes, com pernas e bra\u00e7os enrolados, pois os donos eram maiores. Os clubes Social de Ilh\u00e9us, Banc\u00e1rios, Comerci\u00e1rios, e depois da ponte, o Social do Pontal, promoviam bailes, onde orquestras animadas que tocavam at\u00e9 o dia amanhecer, quando corr\u00edamos at\u00e9 a padaria do &#8220;seu&#8221; Pereira Ventin, para devorar os p\u00e3es com manteiga ainda quentinhos, da primeira fornada.<\/p>\n<p>Nas ruas decoradas, blocos de empolga\u00e7\u00e3o, como o do Toroco, o Teng\u00e3o, a Zorra, Cooperfolia, dentre outros, desfilavam sob animados acordes de marchas e frevos inesquec\u00edveis, ou mesmo, m\u00fasicas pr\u00f3prias, como o S\u00f3 o Amor Constr\u00f3i, ou as Escolas de Samba, como a do<\/p>\n<p>Agostinho, ou do S\u00e3o Sebasti\u00e3o, prendiam os foli\u00f5es e espectadores, at\u00e9 a madrugada das Quarta -Feiras de Cinzas, quando a folia se encerrava. &#8220;Quanto riso, quanta alegria&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito disso, escrevi h\u00e1 alguns anos, essa trova que de bons carnavais nos lembr\u00e1vamos:<\/p>\n<p>O Z\u00e9 Carlinhos levantou\/e Mascarenhas de \u201cprima\u201d\/a velha bola tocou\/e que ningu\u00e9m lhes reprima! De velhos carnavais alembrou\/ de blocos e batucadas de cima.\/O Anis\u00e3o se tocou,\/fazendo surgir a rima&#8230; Rabat, ent\u00e3o publicou\/no site que nos anima\/a debater com furor\/e que todo o povo se frima, Pois Carnaval que bombou,\/de forma que nos dirima\/foi carnaval que passou\/com a turma l\u00e1 de cima&#8230; Foi Agostinho, que sambou\/e Toroco que n\u00e3o rima,\/mas lembrando aquele Pierrot, os meus \u201cz\u00f3io\u201d se lagrima&#8230; At\u00e9 Mundinho se mudou\/pros \u201ccarnav\u00e1\u201d l\u00e1 de cima\/onde a turma se entocou\/pr\u00e1 buscar uma nova rima&#8230; De Guerrinha quem lembrou?\/e do Herval, do \u201cv\u00e9io Grima\u201d!\/E da Zorra que zoou?\/ Corra atr\u00e1s, n\u00e3o se reprima, do Teng\u00e3o que j\u00e1 passou,\/pr\u00e1 tocar mais acima,\/no Carnaval do Dod\u00f4,\/e Osmar. Que obra-prima!<\/p>\n<p>Bons carnavais que ficaram no passado, atropelados pelos trios el\u00e9tricos gigantescos, onde os novos foli\u00f5es hoje seguem confinados por cordas, preservados por seguran\u00e7as, que impedem o acesso dos &#8220;pipocas&#8221;, que seguindo ao lado, usufruem dos potentes autofalantes capazes de se fazerem-se ouvir a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Dos velhos adere\u00e7os carnavalescos que abrilhantavam os desfiles, poucos sobraram trocados por latinhas de cerveja, mortalhas, e abad\u00e1s, mais recentemente, quase sempre mutilados por customiza\u00e7\u00f5es que mal lhes preservam o colorido. As meninas, que antes bebiam refrigerantes, e raramente cervejas, hoje tamb\u00e9m embriagam-se com bebidas mais pesadas, capazes de lhes deixarem mais ligadas, e descontra\u00eddas, para beijarem as muitas bocas que lhes s\u00e3o oferecidas. Para aguentarem o tranco, energ\u00e9ticos passam de m\u00e3os em m\u00e3os, e s\u00e3o misturados insensatamente com as bebidas alco\u00f3licas dispon\u00edveis, deixando todos mais espertos, e despudorados. Sem falar de outros ingredientes que s\u00e3o usados para ficarem &#8220;de boa&#8221;.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 praticamente o mesmo, em todas as cidades que promovem o carnaval, com algumas varia\u00e7\u00f5es regionais. Em algumas delas, a festa j\u00e1 come\u00e7ou, sem dar a menor import\u00e2ncia para o calend\u00e1rio. Vi nos notici\u00e1rios das emissoras baianas que em Salvador ser\u00e3o distribu\u00eddas as afamadas &#8220;p\u00edlulas do dia seguinte&#8221;, que podem at\u00e9 evitar uma indesej\u00e1vel gravidez, mas n\u00e3o evitam as DSTs que circulam livremente entre os jovens, cheios de tez\u00e3o, horm\u00f4nios \u00e0 flor da pele, sem nem lembrarem das famosas &#8220;camisinhas&#8221;, tamb\u00e9m disponibilizadas nos postos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>E as m\u00fasicas, ser\u00e1 que ainda podem ser chamadas assim? Sei n\u00e3o. Sei apenas que a &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; foi muito r\u00e1pida, e atropelou a minha gera\u00e7\u00e3o. E sem entender direito o que est\u00e1 acontecendo, muitas vezes nos perguntamos, meio aturdidos: onde foi que n\u00f3s erramos? Sinceramente? Eu n\u00e3o sei. Mas os bons carnavais ficaram no passado, com a turma l\u00e1 de cima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00edsio Cruz &#8211; fevereiro 2018 As Moringuetes do Pontal, o Furdun\u00e7o de Salvador, os Esquentas do Carnaval de Olinda, o Bola Preta, e demais blocos alternativos do Rio de Janeiro e S. Paulo, est\u00e3o fazendo retornar o h\u00e1bito do carnaval bagun\u00e7ado, t\u00e3o comuns nas d\u00e9cadas de 1960, e 1970, principalmente. 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