{"id":115359,"date":"2018-04-27T16:42:20","date_gmt":"2018-04-27T19:42:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=115359"},"modified":"2018-04-27T16:42:20","modified_gmt":"2018-04-27T19:42:20","slug":"edivaldo-pinheiro-negrao-em-decolores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2018\/04\/27\/edivaldo-pinheiro-negrao-em-decolores\/","title":{"rendered":"Edivaldo Pinheiro Negr\u00e3o em: DECOLORES"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">A FERIDA DO PAI AUSENTE<\/p>\n<p>Um dia desses eu peguei um Uber e comecei a conversar com o motorista. Conversa vai. Conversa vem. Eu falei da minha rela\u00e7\u00e3o como pai com as minhas filhas. Falei do quanto er\u00e1mos abertos uns com outros. Falei que sempre tive em mente o fato de que n\u00e3o queria torn\u00e1-las ansiosas, por isso o di\u00e1logo, entre n\u00f3s, era fundamental. Tamb\u00e9m falei que cresci sem pai (meu pai morrera ferrado de arraia quando eu tinha um ano de idade), longe de minha m\u00e3e, at\u00e9 os 18 anos. Portanto, teria tudo para n\u00e3o ter sido um bom pai, ou exercer a fun\u00e7\u00e3o de pai para quem precisa, quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a falar sobre o fato de ter pai, mas n\u00e3o sentir qualquer afeto ou carinho por ele, embora o respeito e o atendimento \u00e0s necessidades deste sempre estiveram presentes. Ele disse que, sempre que precisou de alguma coisa de seu pai, ele usava sua m\u00e3e como meio de chegar at\u00e9 ele. Embora seu pai sempre o tratasse muito bem na \u00e1rea material, nunca se sentiu amado por ele e, quando conseguia dar-lhe um abra\u00e7o era somente em datas especiais como anivers\u00e1rio e ano novo, mas apenas por pura formalidade, pois n\u00e3o sentia nada em fazer isso \u2013 era apenas por obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegando em casa ao ler as mensagens de meu ZAP, li o pedido de um amigo meu \u2013 o Paulo, de Minas Gerais , que pediu \u2013 me para escrever um texto com o titulo em ep\u00edgrafe. \u00c9 o que estou fazendo agora.<\/p>\n<p>\u00c9 comum alguns livros de psicologia e algumas correntes psicol\u00f3gicas mencionarem que toda crian\u00e7a, para a forma\u00e7\u00e3o de sua personalidade, precisa de pai e m\u00e3e para que possa se transformar em uma crian\u00e7a saud\u00e1vel emocionalmente. Penso diferente, ainda que a presen\u00e7a destes seja de extrema import\u00e2ncia, mais do que pai e m\u00e3e o ser humano precisa de quem o aceite, aprove e ame.<!--more--><\/p>\n<p>Aceitar, significa ter a consci\u00eancia da presen\u00e7a do outro tanto f\u00edsica como afetiva. A presen\u00e7a afetiva se d\u00e1 pela demonstra\u00e7\u00e3o do afeto, do carinho \u2013 um elo muito importante para criar na pessoa a seguran\u00e7a emocional e o sentido de perten\u00e7a, de que algu\u00e9m gosta de mim. O toque em forma de demonstra\u00e7\u00e3o de afeto \u00e9 considerado a vitamina A que todo ser humano precisa. Na aus\u00eancia desta a pessoa pode sofrer de inani\u00e7\u00e3o afetiva. \u00c9 do que muitos adultos sofrem hoje \u2013 da inani\u00e7\u00e3o afetiva.<\/p>\n<p>Aprova\u00e7\u00e3o, a aprova\u00e7\u00e3o ocorre pelo reconhecimento das habilidades e compet\u00eancias que uma crian\u00e7a demonstra quer seja atrav\u00e9s de trabalhos escolares, quer seja atrav\u00e9s de qualquer atividade que revele sua intelig\u00eancia, sua capacidade e sua criatividade. Nessa \u00e1rea o elogio \u00e9 a mola propulsora para que a crian\u00e7a aprenda o sentido de ser capaz, enquanto a critica s\u00f3 a torna uma ser humano incapaz de andar com suas pr\u00f3prias pernas, deixando que, na idade adulta, os outros decidam por elas.<\/p>\n<p>Amar, significa atender a crian\u00e7a em necessiades legitimas, mostrando o quando ela \u00e9 capaz de ser cuidada de forma especial e singular. Sentir-se cuidada cria na crian\u00e7a o sentimento de que \u201calgu\u00e9m se importa comigo de verdade\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, aceitar, aprovar e amar algu\u00e9m n\u00e3o depende s\u00f3 de pai e m\u00e3e, mas de quem se habilita a exercer essa fun\u00e7\u00e3o, independentemente do grau de parentesco. \u00c9 \u00f3bivio que num primeiro momento \u00e9 a responsabilidade dos pais fazer isso, porque s\u00e3o as primeiras pessoas com quem a crian\u00e7a se relaciona ao nascer mas, infelizmente, nem sempre isso \u00e9 poss\u00edvel, por fatores diversos.<\/p>\n<p>Se realmente pai e m\u00e3e s\u00e3o necess\u00e1rios para a que uma pessoa cres\u00e7a de forma saud\u00e1vel emocionalmente, o que podemos dizer de muitas crian\u00e7as que cresceram sem pai, sem m\u00e3e e, em especial, \u00e0quelas de viveram ou vivem em orfanatos ou em casas de apoio ao menor?<\/p>\n<p>Muitas delas, inclusive eu, cresceram longe dos seus, num ambiente agressivo e delet\u00e9rio, muitas vezes. Mesmo assim, apesar de tudo que passaram, se transformaram em excelentes pais e m\u00e3es. Claro, que muitos tamb\u00e9m, por v\u00e1rios fatores, n\u00e3o seguiram o mesmo caminho. Mas, a\u00ed, \u00e9 outra quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Por falar em pais, \u00e9 importante ressaltar que a aus\u00eancia n\u00e3o se d\u00e1 somente no aspecto f\u00edsico da presen\u00e7a, uma vez que se pode ter um pai presente fisicamente, mas ausente afetivamente.<\/p>\n<p>Existem pais que, ainda presentes fisicamente, vivem a l\u00e9guas de dist\u00e2ncia afetivamente de seus filhos, \u00e9 como se fosse um estranho, porque n\u00e3o demonstra qualquer afeto a eles, fazendo com que seus filhos tamb\u00e9m o veja como estranho, por isso que, inv\u00e9s de se aproximarem dele, se afastam. Tornando-se d\u00edficil at\u00e9 dar-lhe um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a fisica de um pai, nem sempre \u00e9 sin\u00f4nimo de ter pai, porque nesse contexto, voc\u00ea sabe que tem pai, mas n\u00e3o o sente como pai, uma vez n\u00e3o existe v\u00ednculo afetivo que possa unir ele a voc\u00ea. Da\u00ed n\u00e3o muito raro encontrarmos filhos que v\u00eaem em tios, tias, av\u00f3s, o pai que nunca tiveram.<\/p>\n<p>A ferida do pai ausente, para mim, est\u00e1 de um lado relacionada a n\u00e3o se ter um pai (o meu caso), ou a um pai que est\u00e1 longe por fatores diversos, ou ainda a um pai que, ainda presente, como j\u00e1 escrevi, se encontra ausente afetivamente. Da\u00ed surge em algumas pessoas o trauma ( ferida) de n\u00e3o se ver amado ou querido por um pai, ou ainda n\u00e3o ter tido pai para poder se sentir filho. Mas uma coisa temos que entender, que muitas pessoas de diversas formas e maneiras, passaram por nossas vidas exercendo essa fun\u00e7\u00e3o de pai nos aceitando, aprovando e amando. E com isso podemos nos sentir filhos, ainda que de pais adotivos e n\u00e3o orf\u00e3os de pais vivos.<\/p>\n<p>Lidar com essa ferida \u00e9 deixar de ser ref\u00e9m de uma expectativa que poderia ser realizada ou n\u00e3o, poderia ser proveitosa ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 aguisa de exemplo, convivo com um menino que conheci quando ele tinha 8 anos. Hoje est\u00e1 com 12 anos. O chamo de meu neto escolhido. Filho de pais solteiros, tem um pai ausente fisica e afetivamente falando. Mui raramente est\u00e1 com seu pai. Ele tem no seu tio, de 24 anos aquele que o aceita, aprova e ama \u2013 seu verdadeiro pai.<\/p>\n<p>Em mim, v\u00ea um outro pai, pois o aceito, aprovo e amo. Quando ele vem para a minha casa, preparo o quarto em que ele vai dormir. Sei que ele gosta de a\u00e7ai, portanto, vou comprar barras para fazer sempre que ele pede. Gosta de tapioca com queijo, tamb\u00e9m deixo tudo pronto para ele.<\/p>\n<p>Quando ele vem para minha casa, criamos o h\u00e1bito de ir \u00e0 feira fazer algumas compras, mas de quebra comer pastel com caldo de cana. Ele adora fazer isso comigo. Costumamos ir a p\u00e9 at\u00e9 a feira, que n\u00e3o fica longe de casa. Mesmo tendo doze anos ele segura na minha m\u00e3o e vamos caminhando. Me emociono quando ele faz isso, seja indo a feira ou quando vamos ao shopping.<\/p>\n<p>Vez outra quando estou na cozinha preparando o almo\u00e7o ele sobe em minhas costas para fazer cavalinho. Brincadeira tipica entre pai e filho.<\/p>\n<p>Quando o conheci era muito arredil. Hoje \u00e9 muito alegre, brincalh\u00e3o, est\u00e1 sempre perto de mim ou do tio. N\u00e3o desgruda, principalmente, porque gosta de estar perto da gente.<\/p>\n<p>Enquanto escrevo, ele est\u00e1 deitado no piso da sala, do meu lado, brincando com o celular.<\/p>\n<p>Quero que ele cres\u00e7a com sa\u00fade emocional, por isso procuro exercer a fun\u00e7\u00e3o de pai para ele, para que ele sinta o quanto \u00e9 amado por mim; o quanto o acho inteligente e o quanto me importo com ele de verdade e de fato.<\/p>\n<p>Finalmente, a ferida do pai ausente, s\u00f3 se mant\u00e9m viva em n\u00f3s quando ficamos ref\u00e9m de expectativas que podem ou n\u00e3o ser realizadas, ou enquanto persistimos em manter a crian\u00e7a que se queixa num corpo de adulto.<\/p>\n<p>Aracaju, 27 de abril de 2018<\/p>\n<p>Edivaldo Pinheiro Negr\u00e3o \u2013 Psic\u00f3logo<\/p>\n<p>Whatsap 79 9 99639578 Email: e-pn-2007@hotmail.com<\/p>\n<p>Site: www.epnpsicologo.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A FERIDA DO PAI AUSENTE Um dia desses eu peguei um Uber e comecei a conversar com o motorista. 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