{"id":11570,"date":"2011-03-27T11:21:59","date_gmt":"2011-03-27T14:21:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=11570"},"modified":"2011-03-27T11:21:59","modified_gmt":"2011-03-27T14:21:59","slug":"marli-goncalves-em-carros-adesivos-e-o-muito-tempo-que-perdemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/03\/27\/marli-goncalves-em-carros-adesivos-e-o-muito-tempo-que-perdemos\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Carros, adesivos e o muito tempo que perdemos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Ficar parada no tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo me d\u00e1 \u00e0s vezes ideias  mirabolantes a respeito do mundo, das pessoas, dos temas que escrevo.  Olho as pessoas nas naves fechadas de vidros escuros e s\u00f3 consigo pensar  nos Jetsons. No tr\u00e2nsito, mas com foguetinhos, pelo ar. Agora, com essa  nova ondinha de fam\u00edlia feliz, d\u00e1 para fazer o perfil dos  propriet\u00e1rios. E eu viajo na imagina\u00e7\u00e3o para passar o tempo engarrafado.<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" class=\"alignleft\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Primeiro foram os adesivos de Nossa Senhora de  F\u00e1tima, aquele contorno de perfil dela, com o ter\u00e7o nas m\u00e3os. A primeira  vez que vi foi numa Mercedes da Hebe Camargo h\u00e1 muitos anos, devia ser  importado, o carro, com certeza; o adesivo, talvez. Agora h\u00e1 a  modalidade &#8220;fam\u00edlia feliz&#8221;, que as pessoas compram e colam na lataria  traseira. Como tudo ultimamente, moda de ambulante, modinha  sino-paraguaia que infesta onde passa, pela quantidade bo\u00e7al que chega.  Tem de tudo: homem, mulher, beb\u00ea, menininho, menininha, c\u00e3o, gato,  papagaio, e, todos, com varia\u00e7\u00f5es tipo homem executivo, mulher  dona-de-casa. N\u00e3o, ainda n\u00e3o vi homem com chifres, mulher gorda, sogra  amorda\u00e7ada, criancinhas em jaulas. A coisa foi pensada para ser  &#8220;fam\u00edlia&#8221;. E o que \u00e9 pior, fam\u00edlia feliz. E a pol\u00edcia, que n\u00e3o deve  mesmo ter o que fazer, corre para alertar sobre o perigo. Imagine! Eles  dizem que d\u00e1 informa\u00e7\u00f5es demais, que v\u00e3o tentar dopar o cachorro,  esgoelar o gato, cortar o saco do papagaio e os meliantes adentrar\u00e3o as  resid\u00eancias.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Claro que, como h\u00e1 para tudo, existe a\u00ed um amplo espa\u00e7o para a gaiatice,  humor e imagina\u00e7\u00e3o. E claro, para a milit\u00e2ncia. Casais gays est\u00e3o se  assumindo, ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea homem com homem, mulher com mulher mais  crian\u00e7a, e pensando bem, at\u00e9 agora ainda n\u00e3o vi nenhum mulher solteira,  sem filhos ou apenas um ponto de interroga\u00e7\u00e3o (acho at\u00e9 que teria  comprado se visse). N\u00e3o bastasse, essa semana assisti a uns v\u00eddeos de  uma turma de &#8220;guerrilheiros&#8221;: um grupo de jovens que sai por a\u00ed  subvertendo a ordem das fam\u00edlias felizes que deixam o carro parado nas  ruas. Eles param e grudam outro homem do lado da mulher, outras mulheres  do lado dos homens, misturam tudo. Colam personagens em <em>situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas<\/em>, vamos dizer assim.<\/p>\n<p>Quando era pequena me divertia muito com os bonequinhos de verdade que  as pessoas colocavam no painel traseiro: a on\u00e7a, com oncinhas que  piscavam os olhinhos vermelhos de luzinhas e balan\u00e7avam as cabe\u00e7as de  molas no pesco\u00e7o, macaquinhos que davam tchau, chinesinhos lado a lado  parecendo bonecas russas, as <em>matrioshkas<\/em>.<\/p>\n<p>Houve ainda a vez dos \u00edm\u00e3s de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, quando ainda havia metal  nos pain\u00e9is dos carros, onde eles ficassem grudados, mas que ainda rolam  nos restaurantes de estrada, para caminhoneiros. <em>&#8220;N\u00e3o corra, papai!&#8221;&#8221;Vai com Deus. Te espero na volta&#8221;, &#8220;N\u00e3o corra, n\u00e3o mate, n\u00e3o morra&#8221;<\/em>. Os mais sofisticados vinham com um pequeno porta-retratos onde se colocava a foto do rebento.<\/p>\n<p>E se a gente pensar em penduricalho de espelho retrovisor? Os dados  gigantes de pel\u00facia voltaram na onda do hip-hop. Mas sapatinhos de  beb\u00eas, cruzes, crucifixos, igrejas inteiras, sapos, corujas e patu\u00e1s de  prote\u00e7\u00e3o j\u00e1 assolaram o mercado. Na linha decorativa houve ainda a  invas\u00e3o dos bichos grudados com ventosas esborrachadas do lado de dentro  dos vidros, um zool\u00f3gico inteiro, com ampla prefer\u00eancia pelos macacos.  Pareciam aqueles insetos que estouram no vidro nas estradas, mas do lado  de dentro. A\u00ed algu\u00e9m resolveu que o mesmo sistema poderia segurar  placas balou\u00e7antes <em>&#8220;Beb\u00ea a Bordo&#8221;<\/em> ou m\u00e3ozinhas dando tchau. Ou ainda escritos em <em>English<\/em>:<em> &#8220;I`m drive crazy&#8221;<\/em>, <em>&#8220;Here is a boy&#8221;<\/em><em>, <\/em><em>&#8220;To be or not to be&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Anda dif\u00edcil mesmo \u00e9 encontrar os adesivos comuns, tipo <em>Contrate sempre um advogado, estudei no MACK, na USP, na FOP<\/em>, na <strong>%$#@*<\/strong>, <em>andei nas trilhas do Jacu-Pitanga, eu fui, eu vou<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>&#8220;J\u00e1 fui assaltado&#8221;<\/em><\/strong> fez muito sucesso tamb\u00e9m. N\u00e3o  resolveram o problema, mas ningu\u00e9m  avisa mais. Sei l\u00e1, vai ver chamava  mais a aten\u00e7\u00e3o dos bandidos para o ot\u00e1rio. Fora que com a viol\u00eancia nas  cidades como anda n\u00e3o dariam mais conta da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos anos duros os carros pareciam mais uns manifestos ambulantes. Juro: vou falar por mim. Eu tive <em>&#8220;No nukes&#8221;<\/em>, contra a energia nuclear, <em>&#8220;Pela demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas&#8221;<\/em>, <em>&#8220;Anistia J\u00e1&#8221;<\/em><em>, <\/em><em>&#8220;Ap\u00f3ie a Imprensa independente&#8221;<\/em>, <em>&#8220;Diretas J\u00e1&#8221;<\/em>,  s\u00f3 entre os que me recordo. Aquilo at\u00e9 rendia certa paquera na rua, ou  buzinadas solid\u00e1rias, o lado que valia a pena. Tamb\u00e9m rendia &#8211; claro &#8211;  muitos problemas com a pol\u00edcia. <em>&#8220;N\u00e3o sei se te prendo ou se te leio&#8221;<\/em> &#8211; hoje usado para o povo todo riscado com tatuagens, \u00e0 \u00e9poca valia para&#8230; adesivos! Precisava ter coragem para us\u00e1-los.<\/p>\n<p>Puxa, vejam s\u00f3, e desculpem os n\u00fameros, todos na <strong>casa do milh\u00e3o<\/strong>:  esta semana ficamos sabendo por dados divulgados pelo Departamento  Nacional de Tr\u00e2nsito (Denatran) que a frota brasileira teve aumento de  8,4 % s\u00f3 em 2010. J\u00e1 s\u00e3o 64.817.974 ve\u00edculos em todo o pa\u00eds. O Estado de  S\u00e3o Paulo lidera com 20.537.980, seguido de Minas Gerais, com  7.005.640), Paran\u00e1, com 5.160.354, Rio Grande do Sul, 4.808.503, e o Rio  de Janeiro, com outros quase quatro milh\u00f5es e meio. S\u00e3o mais de 37  milh\u00f5es de carros. Imagine! Se todos tentassem se comunicar grudando  pensamentos ou protestos? <strong><em>Baubau<\/em><\/strong>. Cair\u00edam governos,  levantes seriam organizados, a ecologia e o meio ambiente triunfariam,  solenes, sufocados no meio de tanta fuma\u00e7a. E todo mundo parado. Nem pra  frente. Nem pra tr\u00e1s. Nem pros lados. STOP total, que \u00e9 o que vai  acontecer daqui a pouco.<\/p>\n<p>Claro, h\u00e1 os adesivos religiosos, principalmente crist\u00e3os &#8211; os poucos que ainda sobrevivem. Nunca vi nenhum .<strong>&#8220;Mantenha dist\u00e2ncia: sou filha de Oxum com Ians\u00e3&#8221;<\/strong>, ou o <strong>&#8220;Caboclo Pena Branca protege este carro. Cuidado&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><em>\u00d4\u00f4\u00f4pa!<\/em><\/strong> O carro da frente andou. Preciso andar tamb\u00e9m  porque o pentelho de tr\u00e1s j\u00e1 est\u00e1 buzinando. O outro idiota que ficou  acelerando parado j\u00e1 passou. A louca do celular, que gesticulava  parecendo que ia ter um tro\u00e7o, e o outro que escrevia mensagem por  celular, mas continuou teclando, passaram.  O que tinha acontecido?  Nada, s\u00f3 os <em><strong>tanques<\/strong><\/em>, os tais blindados, que um monte de  gente faz s\u00f3 para falar que tem grana, estavam parados na fila dupla de  um restaurante, sendo manobrados por verdadeiras toupeiras. Ah! Se essas  pessoas soubessem o que esses caras fazem com o carro delas &#8230;<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 isso que roubou muito do meu tempo, precioso tempo, parada no tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\"><em> S\u00e3o Paulo, kms e kms de lentid\u00e3o todos os dias, 2011, mas aquela carinha feliz.<\/em><\/span><\/p>\n<p>\u2022\t<span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">(*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>.  T\u00e1 bom, eu conto. No espelho tenho pendurado um fluorescente homenzinho  verde, s\u00edmbolo do sinal de tr\u00e2nsito alem\u00e3o de pedestres. E o meu  protetor de pneus \u00e9 demais. Voc\u00eas precisam ver. \u00c9 a Bettie Page, a  vedete, em uma pose daquelas. Deve ser bem bom ficar parado atr\u00e1s de  mim.<br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficar parada no tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo me d\u00e1 \u00e0s vezes ideias mirabolantes a respeito do mundo, das pessoas, dos temas que escrevo. Olho as pessoas nas naves fechadas de vidros escuros e s\u00f3 consigo pensar nos Jetsons. No tr\u00e2nsito, mas com foguetinhos, pelo ar. 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