{"id":122303,"date":"2020-06-12T15:24:21","date_gmt":"2020-06-12T18:24:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=122303"},"modified":"2020-06-12T15:24:21","modified_gmt":"2020-06-12T18:24:21","slug":"ufsb-ciencia-pesquisadores-discutem-cenario-da-formacao-de-psicologos-na-bahia-a-partir-das-notas-do-enade-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2020\/06\/12\/ufsb-ciencia-pesquisadores-discutem-cenario-da-formacao-de-psicologos-na-bahia-a-partir-das-notas-do-enade-2015\/","title":{"rendered":"UFSB Ci\u00eancia: Pesquisadores discutem cen\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos na Bahia a partir das notas do Enade 2015"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/reuniao-equipe-de-pesquisa_acervo-pessoal-prof-caio-ruda.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-122304 alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/reuniao-equipe-de-pesquisa_acervo-pessoal-prof-caio-ruda.jpg\" alt=\"\" width=\"255\" height=\"124\" \/><\/a><\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de novos profissionais da Psicologia na Bahia \u00e9 o tema de um artigo publicado na\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/periodicos.ufsm.br\/reveducacao\/index\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-auth=\"NotApplicable\">Revista Educa\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong>, do Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Realizado pela equipe do Observat\u00f3rio de Forma\u00e7\u00e3o em Psicologia (ObPsi), liderada pelos professores Caio Rud\u00e1 e Gabriela Andrade da Silva, o estudo aborda o panorama de interioriza\u00e7\u00e3o de cursos de Psicologia em institui\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n<p>Para chegar aos apontamentos no artigo\u00a0<em><strong><a href=\"https:\/\/periodicos.ufsm.br\/reveducacao\/article\/view\/34755\/pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-auth=\"NotApplicable\">Forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo na Bahia: uma an\u00e1lise a partir do\u00a0Enade 2015<\/a><\/strong><\/em>, os pesquisadores partiram dos resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), mecanismo do Sistema Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o do Ensino Superior (Sinaes) para aferir a qualidade da forma\u00e7\u00e3o. Mais especificamente, o resultado dos participantes desses cursos em institui\u00e7\u00f5es na Bahia no exame de 2015 comp\u00f5e o recorte em estudo. A an\u00e1lise quantitativa levou em conta as vari\u00e1veis \u201corganiza\u00e7\u00e3o acad\u00eamica\u201d, \u201ccategoria administrativa\u201d e \u201cindicadores do desempenho dos estudantes\u201d.<\/p>\n<p>Os pesquisadores conclu\u00edram que n\u00e3o chega a haver diferen\u00e7a significativa de desempenho dos alunos dos cursos no interior e os da capital, com os dados indicando similaridade de qualidade entre o mediano e o fraco, dentro da m\u00e9dia nacional, e significativo desempenho superior de cursos de universidades p\u00fablicas na compara\u00e7\u00e3o com faculdades e centros universit\u00e1rios privados. Apesar de n\u00e3o ser poss\u00edvel identificar se a diferen\u00e7a de desempenho se deve \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o acad\u00eamica ou \u00e0 categoria administrativa, os autores conclu\u00edram que o predom\u00ednio do setor privado no interior leva a um cen\u00e1rio de precariza\u00e7\u00e3o do ensino de Psicologia no estado, por n\u00e3o haver a garantia da qualidade da forma\u00e7\u00e3o e, consequentemente, pelo impacto negativo na performance profissional.<\/p>\n<p>A professora Gabriela e o professor Caio expandem a an\u00e1lise do cen\u00e1rio na entrevista a seguir:<!--more--><\/p>\n<div><strong>O artigo apresenta uma cr\u00edtica ao modelo de c\u00e1lculo de notas do Enade, ao mesmo tempo em que reconhece a import\u00e2ncia do Sinaes como mecanismo de avalia\u00e7\u00e3o. Como se poderia aprimorar esse modelo para reduzir ou retirar distor\u00e7\u00f5es e manter as fun\u00e7\u00f5es de avalia\u00e7\u00e3o formativa e a supervis\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Caio:<\/strong>\u00a0Atualmente, no Brasil, a avalia\u00e7\u00e3o institucional (AI) est\u00e1 relacionada \u00e0 melhoria da qualidade da educa\u00e7\u00e3o superior; \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o de sua oferta; ao aumento permanente da sua efic\u00e1cia institucional e efetividade acad\u00eamica e social; e ao aprofundamento dos compromissos e responsabilidades sociais das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o superior, por meio da valoriza\u00e7\u00e3o de sua miss\u00e3o p\u00fablica, da promo\u00e7\u00e3o dos valores democr\u00e1ticos, do respeito diferen\u00e7a e \u00e0 diversidade, da afirma\u00e7\u00e3o da autonomia e da identidade institucional. Esta pergunta, portanto, exp\u00f5e o desafio central que o Inep, \u00f3rg\u00e3o que coordena as pol\u00edticas de AI no pa\u00eds, tem \u00e0 sua frente, que \u00e9 atuar para a garantia da qualidade tanto em n\u00edvel micro do processo de ensino, para que ele promova uma aprendizagem significativa nos estudantes, quanto em n\u00edvel macro, cuidando do sistema de ensino superior como um todo, evitando fraudes e fortalecendo o acompanhamento das institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse sentido, \u00e9 preciso\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT893_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT910_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00a0um olhar ampliado, manter o foco em pol\u00edticas p\u00fablicas, fortalecer a legisla\u00e7\u00e3o, dispor de ferramentas apuradas de mensura\u00e7\u00e3o de resultados educacionais em larga escala e investir em produ\u00e7\u00e3o de dados, de conhecimento, de modo a dar conta do aspecto macro, afinal, educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz apenas no\u00a0<em>feeling<\/em>, mas tamb\u00e9m com acompanhamento e rigor. E claro, tudo isso tem que estar atrelado \u00e0 considera\u00e7\u00e3o fundamental da educa\u00e7\u00e3o como forma\u00e7\u00e3o, como emancipa\u00e7\u00e3o, como desenvolvimento. As rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o parte fundamental do processo e jamais devem ser colocadas de lado. A capacita\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica docente tem que ir no sentido de n\u00e3o reduzir educa\u00e7\u00e3o a uma t\u00e9cnica, fortalecendo o aspecto humano, \u00e9tico e est\u00e9tico tamb\u00e9m do processo formativo.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<div><strong>Gabriela:<\/strong>\u00a0Entre os meses<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT894_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">\u00a0de setembro<\/span>\u00a0e dezembro de 2019, iniciei uma pesquisa em est\u00e1gio p\u00f3s-doutoral junto ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Interdisciplinares sobre a Universidade (PPGEISU), na Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob supervis\u00e3o do professor Jorge Luiz Lordelo de Salles Ribeiro, a respeito dos rankings acad\u00eamicos e como eles avaliam e discutem o conceito de qualidade no ensino superior. Para isso, fiz uma busca exaustiva das leis que regem a educa\u00e7\u00e3o superior e do que elas consideram como crit\u00e9rio de qualidade para uma universidade. Uma das descobertas que destaco \u00e9 que n\u00e3o temos crit\u00e9rios do que consideramos uma boa qualidade do ensino. Podemos medir qualidade da pesquisa pelo n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es, qualidade da extens\u00e3o pelo n\u00famero de a\u00e7\u00f5es e de pessoas atendidas por elas, mas como medimos qualidade da forma\u00e7\u00e3o que a universidade proporciona?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A pesquisa permanece em andamento e uma das propostas \u00e9 criar e propor indicadores mais claros da qualidade da forma\u00e7\u00e3o, alinhados com o que se espera de uma boa universidade p\u00fablica. At\u00e9 o momento, o que conclu\u00edmos \u00e9 que a boa forma\u00e7\u00e3o passa pela qualidade das a\u00e7\u00f5es<\/div>\n<div>de ensino, pesquisa e extens\u00e3o de forma integrada, que devem estar alinhadas com o compromisso social da universidade. Desde a d\u00e9cada de 2000, vimos um movimento de ressaltar a import\u00e2ncia das pol\u00edticas afirmativas e da assist\u00eancia estudantil nas universidades p\u00fablicas, sobretudo nas federais. Tenho elementos para dizer que essas\u00a0a\u00e7\u00f5es deixaram de ser consideradas apenas como atividades-meio e se tornaram mais uma finalidade das universidades. Mais recentemente, temos visto uma distor\u00e7\u00e3o do processo de avalia\u00e7\u00e3o das universidades, com uma supervaloriza\u00e7\u00e3o de rankings acad\u00eamicos, inclusive pelo MEC. No entanto, dever\u00edamos investir em definir o que consideramos uma boa forma\u00e7\u00e3o, em termos de processo e de resultado, para podermos criar instrumentos que reflitam esse conceito de qualidade.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>A grande maioria dos cursos baianos de Psicologia ficou nas faixas 2 e 3, fraco e mediano, e nessas faixas todas s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es privadas, algumas delas bastante recentes na \u00e9poca do exame, e parte consider\u00e1vel est\u00e1 no interior baiano. E permanecem queixas de falta de qualidade do ensino privado nessa \u00e1rea. Quando se fala de problemas de forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo, de que tipo de efeitos se est\u00e1 falando?<\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Caio:<\/strong>\u00a0A forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo \u00e9 permeada de quest\u00f5es sens\u00edveis, que acabam configurando verdadeiros problemas quando n\u00e3o endere\u00e7adas da maneira adequada. Mas aqui iremos nos limitar aos problemas decorrentes do baixo desempenho no Enade, que, numa primeira an\u00e1lise, apontam para um processo de ensino-aprendizagem deficit\u00e1rio, o que equivale a dizer que se ensina mal e se aprende pouco, num contexto de precariedade institucional. Nos \u00faltimos 15 anos houve um incremento consider\u00e1vel do n\u00famero de cursos e matr\u00edculas em Psicologia. Formaram-se e continuam a ser formados psic\u00f3logos sem nenhum planejamento das necessidades sociais desse tipo de forma\u00e7\u00e3o ou da capacidade de o mercado de absorver todo o contingente de psic\u00f3logos. Tal crescimento obedeceu apenas aos fins econ\u00f4micos das empresas educacionais. E pior ainda, os resultados do Enade sempre indicaram um desempenho baixo a mediano, sem que nenhuma pol\u00edtica de gest\u00e3o da qualidade fosse implementada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com isso, temos\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT895_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT911_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">hoje<\/span><\/span>\u00a0um n\u00famero grande de psic\u00f3logos formados que n\u00e3o desenvolveram as compet\u00eancias necess\u00e1rias para uma atua\u00e7\u00e3o qualificada durante a gradua\u00e7\u00e3o e tentam compensar o d\u00e9ficit durante a pr\u00f3pria experi\u00eancia no processo de trabalho ou via cursos de especializa\u00e7\u00e3o de qualidade tamb\u00e9m duvidosa (vale lembrar que as exig\u00eancias para a oferta de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o\u00a0<em>lato sensu<\/em>, do tipo especializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito menores que para a oferta de cursos de gradua\u00e7\u00e3o). Al\u00e9m do mais, esses mesmos psic\u00f3logos ser\u00e3o submetidos a condi\u00e7\u00f5es de trabalho normalmente indignas, com baixa remunera\u00e7\u00e3o e carga hor\u00e1ria extenuante, o que s\u00f3 precariza ainda mais sua atua\u00e7\u00e3o j\u00e1 deficit\u00e1ria. Nesse caminho at\u00e9 a qualifica\u00e7\u00e3o, diversos usu\u00e1rios e pacientes\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT896_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT912_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00e3o sido alcan\u00e7ados pelas pr\u00e1ticas desses psic\u00f3logos. At\u00e9 onde sabemos n\u00e3o existe nenhum estudo a respeito do impacto de m\u00e1s pr\u00e1ticas psicol\u00f3gicas, de modo que s\u00f3 podemos especular desfechos nada agrad\u00e1veis como a agudiza\u00e7\u00e3o do sofrimento ps\u00edquico dos sujeitos em atendimento, a orienta\u00e7\u00e3o inadequada e invasiva quanto a quest\u00f5es sexuais, interpessoais e existenciais, a manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades e exclus\u00e3o sociais, a naturaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de anula\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o de direitos, entre outras coisas. Assim, s\u00e3o fundamentais tanto a execu\u00e7\u00e3o de estudos sistem\u00e1ticos a respeito dessas m\u00e1s pr\u00e1ticas psicol\u00f3gicas quanto a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para a qualifica\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo no pa\u00eds.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Gabriela:<\/strong>\u00a0Embora n\u00e3o tenhamos dados emp\u00edricos, percebemos uma precariza\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios sentidos. O trabalho docente \u00e9 uma delas: s\u00e3o cada vez mais comuns, sobretudo nas institui\u00e7\u00f5es particulares, contratos de trabalho como horista ou com v\u00ednculo parcial. Esse docente n\u00e3o\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT897_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT913_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00e1 tempo suficiente para preparar suas aulas, muitas vezes se tornando um &#8220;repetidor&#8221; de materiais prontos, em vez de trazer reflex\u00f5es mais aprofundadas. Mais dif\u00edcil ainda ser\u00e1 esse docente\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT898_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT914_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00a0tempo de fazer pesquisa e extens\u00e3o, que s\u00e3o fundamentais para uma boa forma\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Do ponto de vista do corpo discente, muitos estudantes n\u00e3o t\u00eam tempo para ler qualquer texto, por serem trabalhadores; ou n\u00e3o conseguem ler e interpretar os textos, porque n\u00e3o tiveram um bom ensino de base. De forma geral, n\u00f3s, docentes, ainda n\u00e3o sabemos lidar com esses p\u00fablicos (que h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada passou a adentrar o ensino superior) em termos de criar novas estrat\u00e9gias de ensino, que incluam esses estudantes de forma efetiva, permitindo que eles ingressem no mundo da ci\u00eancia. Em vez disso, tendemos a afrouxar o n\u00edvel de exig\u00eancia, procurando reconhecer as limita\u00e7\u00f5es. Isso acontece n\u00e3o apenas nas avalia\u00e7\u00f5es, mas no pr\u00f3prio formato das aulas e materiais did\u00e1ticos. Por exemplo, os textos originais de te\u00f3ricos conhecidos, ou mesmo de artigos cient\u00edficos mais recentes, t\u00eam sido substitu\u00eddos por textos did\u00e1ticos prontos e por manuais e protocolos de atua\u00e7\u00e3o. Esses materiais t\u00eam seu valor, mas se o discente nunca tiver contato com os textos originais, mais complexos, n\u00e3o\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT899_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT915_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00e1 a chance de se aprofundar nos conte\u00fados e na linguagem dos autores que criaram as bases da ci\u00eancia da Psicologia. \u00c9 uma falsa inclus\u00e3o, em minha opini\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei como seria o formato ideal das atividades de ensino-aprendizagem nesse novo contexto que vivenciamos.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>A pesquisa do OBPsi tamb\u00e9m mostrou que as notas na prova de Forma\u00e7\u00e3o Geral foram mais altas que na prova de Conhecimentos Espec\u00edficos, o que \u00e9 um ind\u00edcio de problemas justamente na forma\u00e7\u00e3o profissional espec\u00edfica do psic\u00f3logo. Que problemas decorrem dessa car\u00eancia?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Caio:<\/strong>\u00a0Talvez o principal problema se expresse numa atua\u00e7\u00e3o profissional sem embasamento te\u00f3rico, orientada por valores pessoais, pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos e\/ou religiosos. Obviamente, essas s\u00e3o dimens\u00f5es da subjetividade humana. Tanto psic\u00f3logo quanto os sujeitos com quem ele trabalha s\u00e3o atravessados por essas quest\u00f5es. Quest\u00f5es ali\u00e1s que s\u00e3o sempre recorrentes no contexto terap\u00eautico, trazidas por usu\u00e1rios e clientes, e que a todo o momento convocam o psic\u00f3logo a repensar sua condi\u00e7\u00e3o humana e atentar para o modo como sua pr\u00f3pria subjetividade pode vir a interferir no trabalho que desenvolve.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Logo, \u00e9 evidente que o psic\u00f3logo n\u00e3o \u00e9 um sujeito constru\u00eddo num v\u00e1cuo social. \u00c9 um sujeito humano, pol\u00edtico, que tem seus valores e posicionamentos. No entanto, isso n\u00e3o deve ser entendido como carta branca para agir conforme tais valores e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, desconsiderando todo o conhecimento cient\u00edfico produzido para lidar com o adoecimento ps\u00edquico, com o processo de sa\u00fade, com a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica do trabalho, entre outras possibilidades de interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Infelizmente, o que os resultados da pesquisa nos permite pensar \u00e9 que os psic\u00f3logos podem estar deixando de lado a import\u00e2ncia do conhecimento especializado, satisfazendo-se com outras posi\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-t\u00e9cnicas comuns a outras profiss\u00f5es ou mesmo completamente alheias a qualquer atividade profissional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Curiosamente, esse fen\u00f4meno parece\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT900_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT916_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00a0uma dupla e antag\u00f4nica express\u00e3o. Por um lado vemos o surgimento de posicionamentos conservadores, \u00e0s vezes vinculados a movimentos religiosos e reacion\u00e1rios que, entre outros absurdos, prop\u00f5em a possibilidade de revers\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual: a famigerada &#8220;cura gay&#8221;, que nada mais \u00e9 que uma total express\u00e3o de obscurantismo e anticientificismo. Por outro lado, h\u00e1 uma deturpa\u00e7\u00e3o do pensamento cient\u00edfico progressista, antipositivista, que acaba caindo num certo relativismo que flerta com o desprezo \u00e0 ci\u00eancia, deixando os psic\u00f3logos confort\u00e1veis a atuar com base apenas no bom senso e no desejo de mudar o mundo. Ambas as atitudes s\u00e3o reprov\u00e1veis. A verdadeira atua\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica tem que partir da defesa dos direitos humanos para executar a interven\u00e7\u00e3o qualificada com base em conhecimento cient\u00edfico.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Gabriela:<\/strong>\u00a0As principais lacunas que observamos na forma\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo partindo dos resultados do Enade, s\u00e3o quanto aos eixos (previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para cursos de gradua\u00e7\u00e3o em psicologia) de Fundamentos Epistemol\u00f3gicos e Hist\u00f3ricos (FEH) e de Fundamentos Te\u00f3rico-Metodol\u00f3gicos (FTM). O primeiro eixo nos permite entender de onde surgiu a psicologia e desenvolver um racioc\u00ednio cr\u00edtico sobre os contextos pol\u00edticos e sociais nos quais as teorias foram criadas, o que nos torna mais aptos a compreender nossos pap\u00e9is e tamb\u00e9m nossos limites enquanto profissionais. O segundo eixo \u00e9 o que define as teorias e os m\u00e9todos nos quais a nossa pr\u00e1tica se baseia. Se a forma\u00e7\u00e3o est\u00e1 deficit\u00e1ria nesses dois eixos, estamos com lacunas justamente nas bases constituintes de nossa profiss\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acredito que tivemos um avan\u00e7o consider\u00e1vel, nos \u00faltimos anos, em incluir discuss\u00f5es sobre direitos humanos e pol\u00edticas p\u00fablicas na Psicologia, inclusive na forma\u00e7\u00e3o profissional. Mas eu me pergunto se estar\u00edamos deixando para tr\u00e1s as nossas ra\u00edzes, os fundamentos da psicologia enquanto ci\u00eancia e profiss\u00e3o. Imagino (e percebo no contato com novos profissionais) que temos atualmente uma gera\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos que sabem reproduzir protocolos e t\u00e9cnicas, mas que n\u00e3o refletem criticamente sobre seu trabalho e, por isso, podem reproduzir pr\u00e1ticas opressoras; ao mesmo tempo, n\u00e3o s\u00e3o capazes de criar, de inovar, de adequar-se \u00e0s novas necessidades que a sociedade continuamente nos imp\u00f5e. Concordando com Caio, acredito que o resultado tem sido interven\u00e7\u00f5es muitas vezes inefetivas, ou mesmo que agravam os sofrimentos ps\u00edquicos de pessoas e grupos onde atuamos.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Que formas de mitigar essa dificuldade podem ser pensadas, tendo em vista os estudantes formados nessas institui\u00e7\u00f5es e os futuros egressos?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Caio:<\/strong>\u00a0Acredito que \u00e9 necess\u00e1rio em primeiro lugar o fortalecimento da identidade da Psicologia. Por\u00e9m, essa n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. A pr\u00f3pria ideia de identidade de uma \u00e1rea marcada por diversidade \u00e9 um tanto quanto paradoxal. Existem psic\u00f3logos que atuam na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na assist\u00eancia social, no contexto organizacional, etc.. E mesmo dentro desses espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o, h\u00e1 diversas linhas te\u00f3ricas, v\u00e1rias maneiras de entender o fen\u00f4meno humano. Muitas vezes parecem existir mais dissensos que aproxima\u00e7\u00f5es na Psicologia. E talvez tenhamos nos acostumado mais a olhar para as diferen\u00e7as do que para as semelhan\u00e7as, em vez de encararmos a diversidade como saud\u00e1vel e potencializadora. Assim, nos acostumamos a sustentar uma postura que \u00e9 mais do que uma cr\u00edtica epistemol\u00f3gica, ou seja, que diz respeito \u00e0s bases do conhecimento cient\u00edfico, mas uma verdadeira avers\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a. Da\u00ed que surgem express\u00f5es como &#8220;odeio a psican\u00e1lise porque n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfica&#8221;, &#8220;detesto o behaviorismo porque trata as pessoas como rob\u00f4s&#8221;, &#8220;n\u00e3o gosto do humanismo porque \u00e9 muito ing\u00eanuo&#8221;, e outras mais de sentido similar&#8230; \u00c9 como se a cr\u00edtica tivesse como fundamento os valores e prefer\u00eancias individuais de quem a pronuncia, sem partir de uma verdadeira compreens\u00e3o epistemol\u00f3gica acerca das bases de cada uma dessas escolas de pensamento. \u00c9 como se adotar um referencial te\u00f3rico-metodol\u00f3gico em Psicologia implicasse uma defesa incondicional desse referencial, passando pela cr\u00edtica tamb\u00e9m incondicional a tudo que \u00e9 diferente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Claro que n\u00e3o defendemos uma toler\u00e2ncia plena ou ing\u00eanua, naturalizando pr\u00e1ticas sem qualquer fundamento l\u00f3gico ou mesmo pr\u00e1ticas nocivas que contribuem para a manuten\u00e7\u00e3o de desigualdades, ou que operem processos de exclus\u00e3o social. Defendemos, na realidade, a import\u00e2ncia do conhecimento hist\u00f3rico e epistemol\u00f3gico que permita ao psic\u00f3logo fazer um julgamento apropriado da extens\u00e3o e limita\u00e7\u00f5es de cada abordagem, teoria ou pr\u00e1tica na Psicologia, de modo que a cr\u00edtica a X, Y ou Z tenha validade e se d\u00ea pelo reconhecimento da falta de cientificidade ou faltas \u00e9ticas do alvo da cr\u00edtica. Essa tem sido, ali\u00e1s, uma hip\u00f3tese de trabalho de uma de nossas pesquisas atuais, que busca exatamente avaliar a qualidade do ensino dos fundamentos hist\u00f3rico-epistemol\u00f3gicos nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o: sem esse tipo de conhecimento hist\u00f3rico fica dif\u00edcil se tornar um bom psic\u00f3logo. Assim, com essa no\u00e7\u00e3o consolidada do que vem a ser uma pr\u00e1tica psicol\u00f3gica, do que a define, podemos estabelecer limites para o que \u00e9 eticamente aceit\u00e1vel ou n\u00e3o. E a\u00ed a nossa briga \u00e9 com o que de fato n\u00e3o comunga dos nossos princ\u00edpios de defesa dos direitos humanos, do combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, de valoriza\u00e7\u00e3o da subjetividade e da diversidade; e n\u00e3o com o colega que mant\u00e9m uma pr\u00e1tica que, embora v\u00e1lida, \u00e9tica e eficaz, tem bases epistemol\u00f3gicas distintas da minha.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Gabriela:<\/strong>\u00a0Acredito que \u00e9 o momento de mudar o foco das pol\u00edticas p\u00fablicas, deixando de\u00a0<span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT901_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\"><span id=\"x_OBJ_PREFIX_DWT917_com_zimbra_date\" class=\"x_Object\" role=\"link\">ter<\/span><\/span>\u00a0como meta a expans\u00e3o pura e simples das vagas de ensino superior e voltando as energias para a melhoria da qualidade dos cursos. Para isso, \u00e9 preciso que os cursos sejam constru\u00eddos com base em fundamentos te\u00f3ricos e em resultados de pesquisas emp\u00edricas que possam orientar o que \u00e9 mais efetivo para o aprendizado. N\u00e3o podemos construir matrizes curriculares, planos de curso e de aula baseados em achismos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Al\u00e9m disso, docentes deveriam passar por uma etapa de forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, j\u00e1 que usualmente sa\u00edmos da posi\u00e7\u00e3o de estudantes para a posi\u00e7\u00e3o de docentes sem qualquer forma\u00e7\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o para exercer essa fun\u00e7\u00e3o. Precisam de contratos de trabalho com maior estabilidade, que prevejam tempo para atua\u00e7\u00e3o no planejamento das atividades did\u00e1ticas, pesquisa, extens\u00e3o, atualiza\u00e7\u00e3o profissional. Precisam de forma\u00e7\u00e3o continuada, para a constante revis\u00e3o de suas metodologias. Para os profissionais que j\u00e1 est\u00e3o formados, \u00e9 preciso oferecer a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o permanente qualificadas, e para isso tamb\u00e9m precisamos de docentes com boa qualifica\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por fim, acredito que precisamos nos debru\u00e7ar sobre as formas de incluir efetivamente estudantes trabalhadores e que tiveram uma forma\u00e7\u00e3o mais prec\u00e1ria na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. N\u00e3o podemos mais fingir que esse problema n\u00e3o existe, &#8220;maquiando&#8221;, por meio do rebaixamento do n\u00edvel de exig\u00eancia dos cursos e de suas avalia\u00e7\u00f5es, os resultados quantitativos referentes a notas e n\u00famero de diplomados.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/reuniao-equipe-de-pesquisa_acervo-pessoal-prof-caio-ruda.jpg\">\u00a0<\/a><\/p>\n<div id=\"x_ff841b04-fa38-4916-a895-639954aa28b6\">\n<div>&#8212;<br \/>\n<b>Heleno Rocha Naz\u00e1rio<\/b><\/div>\n<div>Jornalista &#8211;\u00a0Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o Social (PPGCOM\/PUCRS)<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A forma\u00e7\u00e3o de novos profissionais da Psicologia na Bahia \u00e9 o tema de um artigo publicado na\u00a0Revista Educa\u00e7\u00e3o, do Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Realizado pela equipe do Observat\u00f3rio de Forma\u00e7\u00e3o em Psicologia (ObPsi), liderada pelos professores Caio Rud\u00e1 e Gabriela Andrade da Silva, o estudo aborda o panorama de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122303"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=122303"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122303\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":122305,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122303\/revisions\/122305"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=122303"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=122303"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=122303"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}