{"id":12609,"date":"2011-04-08T18:45:01","date_gmt":"2011-04-08T21:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=12609"},"modified":"2011-04-08T18:45:01","modified_gmt":"2011-04-08T21:45:01","slug":"juiz-e-senhor-doutor-ou-vossa-excelencia-uma-aula-de-decencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/04\/08\/juiz-e-senhor-doutor-ou-vossa-excelencia-uma-aula-de-decencia\/","title":{"rendered":"Juiz \u00e9 Senhor, Doutor ou Vossa Excel\u00eancia ? Uma aula de dec\u00eancia!"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;Voc\u00ea&#8221; ou &#8220;Doutor&#8221; ?  Ou seria Vossa Excel\u00eancia ?<\/strong><\/p>\n<p>LEMBRAM DO JUIZ QUE ENTROU NA JUSTI\u00c7A CONTRA O CONDOM\u00cdNIO EM QUE MORA, POR CAUSA DO TRATAMENTO DE &#8220;&#8216;VOC\u00ca&#8221; DADO PELO PORTEIRO?<br \/>\nPOIS \u00c9, SAIU A SENTEN\u00c7A. LEIAM ABAIXO.<br \/>\nOBSERVEM A BELA REDA\u00c7\u00c3O, SUCINTA, BEM ARGUMENTADA, AT\u00c9 SOLID\u00c1RIA DO JUIZ ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO PARA COM O JUIZ QUE SE QUEIXA, MAS&#8230;.<br \/>\nUMA VERDADEIRA AULA DE DIREITO E DE PORTUGU\u00caS!<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Processo distribuido em 17\/02\/2005, na  9\u00aa  vara c\u00edvel de Niter\u00f3i &#8211; RJ<\/p>\n<p>PODER JUDICI\u00c1RIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO &#8211; COMARCA DE NITER\u00d3I &#8211; NONA VARA C\u00cdVEL<\/p>\n<p>Processo n\u00b0 2005.002.003424- 4<\/p>\n<p>S E N T E N \u00c7 A<\/p>\n<p>Cuidam-se os autos de a\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00e3o de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOM\u00cdNIO DO EDIF\u00cdCIO LU\u00cdZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do pr\u00e9dio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de &#8220;senhor&#8221;.<br \/>\nDisse o requerente que sofreu danos, e que esperava a proced\u00eancia do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de &#8216; Doutor, senhor&#8221;  &#8220;Doutora, senhora&#8221;, sob pena de multa di\u00e1ria a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us em dano moral n\u00e3o inferior a 100 sal\u00e1rios m\u00ednimos. (&#8230;)<\/p>\n<p>DECIDO: &#8220;O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter.&#8221; (Noberto Bobbio, in &#8220;A Era dos Direitos&#8221;, Editora Campus, pg. 15).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, n\u00e3o se justificando tamanha publicidade que tomou este processo.<br \/>\nAgiu o requerente como jurisdicionado, na cren\u00e7a de seu direito. Plaus\u00edvel sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solu\u00e7\u00e3o do conflito.<\/p>\n<p>N\u00e3o deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta a\u00e7\u00e3o pode ter conota\u00e7\u00e3o de incompreens\u00edvel futilidade. O cerne do inconformismo \u00e9 de cunho eminentemente subjetivo, e ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser o pr\u00f3prio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que n\u00e3o quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudat\u00f3rio, posto que \u00e9 homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que n\u00e3o lhe assiste raz\u00e3o jur\u00eddica na pretens\u00e3o deduzida.<\/p>\n<p>&#8220;Doutor&#8221; n\u00e3o \u00e9 forma de tratamento, e sim t\u00edtulo acad\u00eamico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas \u00e0s pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universit\u00e1rio. Constitui-se mera tradi\u00e7\u00e3o referir-se a outras pessoas de &#8216;doutor&#8217;, sem o ser, e fora do meio acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Da\u00ed a express\u00e3o doutor honoris causa &#8211; para a honra -, que se trata de t\u00edtulo conferido por uma universidade \u00e0 guisa e homenagem a determinada pessoa, sem submet\u00ea-la a exame.<\/p>\n<p>Por outro lado, vale lembrar que &#8220;professor&#8221; e &#8220;mestre&#8221; s\u00e3o t\u00edtulos exclusivos dos que se dedicam ao magist\u00e9rio, ap\u00f3s conclu\u00eddo o curso de mestrado. Embora a express\u00e3o &#8220;senhor&#8221; confira a desejada formalidade \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00e3o \u00e9 pronome -, e possa at\u00e9 o autor aspirar distanciamento em rela\u00e7\u00e3o a qualquer pessoa, afastando intimidades, n\u00e3o existe regra legal que imponha  obriga\u00e7\u00e3o ao empregado do condom\u00ednio a ele assim se referir.<\/p>\n<p>O empregado que se refere ao autor por &#8220;voc\u00ea&#8221;, pode estar sendo cort\u00eas, posto que &#8220;voc\u00ea&#8221; n\u00e3o \u00e9 pronome depreciativo. Isso \u00e9 formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incid\u00eancia de insubordina\u00e7\u00e3o. Fala-se segundo sua classe social. O brasileiro tem tend\u00eancia na variedade coloquial relaxada, em especial a classe &#8220;semi-culta&#8221; , que sequer se importa com isso.<\/p>\n<p>Na verdade &#8220;voc\u00ea&#8221; \u00e9 variante &#8211; contra\u00e7\u00e3o da alocu\u00e7\u00e3o &#8211; do tratamento respeitoso &#8220;Vossa Merc\u00ea&#8221;. A professora de lingu\u00edstica Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos liter\u00e1rios que apresentam altas freq\u00fc\u00eancias do pronome &#8220;voc\u00ea&#8221;, devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse pa\u00eds, \u00e9 usual as pessoas serem chamadas de &#8220;seu&#8221; ou &#8220;dona&#8221;, e isso \u00e9 tratamento formal.<\/p>\n<p>Em recente pesquisa universit\u00e1ria, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor\/a senhora e voc\u00ea quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente. Na edi\u00e7\u00e3o promovida por Jorge Amado &#8220;Cr\u00f4nica de Viver Baiano Seiscentista&#8221;, nos poemas de Greg\u00f3rio de Matos, destacou o escritor que Mi\u00e9rcio T\u00e1ti anotara que &#8220;voc\u00ea&#8221; \u00e9 tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Record, 1999).<\/p>\n<p>Urge ressaltar que tratamento cerimonioso \u00e9 reservado a c\u00edrculos fechados da diplomacia, clero, governo, judici\u00e1rio e meio acad\u00eamico, como j\u00e1 se disse. A pr\u00f3pria Presid\u00eancia da Rep\u00fablica fez publicar Manual de Reda\u00e7\u00e3o instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na rela\u00e7\u00e3o social n\u00e3o h\u00e1 ritual lit\u00fargico a ser obedecido. Por isso que se diz que a altern\u00e2ncia de &#8220;voc\u00ea&#8221; e &#8220;senhor&#8221; traduz-se numa quest\u00e3o socioling\u00fc\u00edstica, de dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o num pa\u00eds como o Brasil de v\u00e1rias influ\u00eancias regionais.<\/p>\n<p>Ao Judici\u00e1rio n\u00e3o compete decidir sobre a rela\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, etiqueta, cortesia ou coisas do g\u00eanero, a ser estabelecida entre o empregado do condom\u00ednio e o cond\u00f4mino, posto que isso \u00e9 tema interna corpore daquela pr\u00f3pria comunidade.<\/p>\n<p>Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o inc\u00f4modo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honor\u00e1rios de 10% sobre o valor da causa. P.R.I. Niter\u00f3i, 2 de maio de 2005.<\/p>\n<p>ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO<br \/>\n\/Juiz de Direito\/<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nN\u00c3O \u00c9 QUE, NESTE PA\u00cdS AINDA EXISTEM JURISTAS HONRADOS E CULTOS!<\/p>\n<p>Nem tudo est\u00e1 perdido&#8230;<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nEnviada por Reynaldo Rabat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Voc\u00ea&#8221; ou &#8220;Doutor&#8221; ? Ou seria Vossa Excel\u00eancia ? LEMBRAM DO JUIZ QUE ENTROU NA JUSTI\u00c7A CONTRA O CONDOM\u00cdNIO EM QUE MORA, POR CAUSA DO TRATAMENTO DE &#8220;&#8216;VOC\u00ca&#8221; DADO PELO PORTEIRO? POIS \u00c9, SAIU A SENTEN\u00c7A. LEIAM ABAIXO. 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