{"id":132376,"date":"2026-05-29T17:22:54","date_gmt":"2026-05-29T20:22:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=132376"},"modified":"2026-05-29T17:22:54","modified_gmt":"2026-05-29T20:22:54","slug":"o-hoteleiro-que-quase-virou-bode-de-macumba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2026\/05\/29\/o-hoteleiro-que-quase-virou-bode-de-macumba\/","title":{"rendered":"O HOTELEIRO QUE QUASE VIROU BODE DE MACUMBA."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-109994\" src=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"242\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou numa tarde comum no hotel, corria o ano de 1999, quando um paulistano de uns 50 anos, bem arrumadinho, chegou com uma mala enorme, TINHA UMA cara de quem perdeu a final do campeonato. Chamava-se Amarildo. Depois de fazer o check-in, me puxou pro canto da recep\u00e7\u00e3o e baixinho ao p\u00e9 de ouvidos abriu o cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Vim fazer, aqui na Bahia, um trabalho forte pra trazer minha ex-mulher de volta. Ela saiu de casa com um garot\u00e3o. Eu trouxe algumas pe\u00e7as de roupas dela, fotos, peda\u00e7os de cabelo que eu tinha guardado antes dela ir embora. T\u00e1 tudo aqui na minha mala.<\/p>\n<p>Sempre fui um homem pr\u00e1tico, precisava ganhar dinheiro donde quer que ele viesse, o Hotel em constru\u00e7\u00e3o, uns trocados extras n\u00e3o fariam mal, pensei: \u201cTrabalho \u00e9 trabalho\u201d. Fiz uns contatos e arrumei um pai de santo renomado daqui de Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>O que eu n\u00e3o sabia \u00e9 que da\u00ed pra frente a minha vida viraria um inferno log\u00edstico.<\/p>\n<p>O pai de santo n\u00e3o mandava comprar qualquer coisa. Era como se fosse aviar uma lista de supermercado, voltada para o despacho: velas de sete dias, charutos, cacha\u00e7a, pipoca, farofa, mel, pano branco, pano vermelho, ervas espec\u00edficas, imagens de santo, e a pior exig\u00eancia: um bode vivo, novinho, sem nenhuma mancha preta.<\/p>\n<p>Para achar o tal bode branquinho sem mancha rodei quase meio Sul da Bahia atr\u00e1s do bendito bode e nada. Fui encontrar um no interior, na cidade de Uau\u00e1, paguei caro, e ainda tive de providenciar o frete e, por cima, ouvir os conselhos do vendedor: \u201cCuidado hein, esse aqui \u00e9 arisco e urina quando fica nervoso\u201d. Colocaram o animal num saco de sisal, refor\u00e7ado, e o enviaram para o Hotel via um representante comercial que se dirigia para Ilh\u00e9us. Fui buscar pr\u00f3ximo da rodovi\u00e1ria e o coloquei no porta-malas do carro do hotel, que imediatamente come\u00e7ou a feder a bode, o bicho estressado. Ficou preso no saco por dois dias esperando para ser despachado pelo Pai de Santo.<\/p>\n<p>No dia do despacho, o clima j\u00e1 era de novela das seis. Amarildo suando frio, eu no volante do meu carro que parecia um curral de fedido, fui dirigindo e tentando fazer piada pra aliviar a tens\u00e3o do tal de Amarildo. Estava eu, verdadeiramente, de olho no pre\u00e7o eu cobraria por todo aquele trabalho e desconforto.<!--more--><\/p>\n<p>\u2014 Seu Amarildo, se a mulher n\u00e3o voltar depois disso tudo, pelo menos o senhor ganhou uma hist\u00f3ria pra contar pra seus filhos e netos.<\/p>\n<p>Paramos na casa do pai de santo. Logo ali depois da ponte Lomanto Junior, numa daquelas casinhas ficam penduradas no morro, acima da via. O babalorix\u00e1, um homem imponente de uns 1,90m, voz rouca, muito conhecido, todo de branco, saiu com mais tr\u00eas sacolas cheias de \u201capetrechos\u201d. Na hora de guardar todo aquele material, tirou o saco do bode do porta-malas pra encaixar melhor as outras coisas e\u2026 acabou que sem perceber, esqueceu o bode na lateral da pista. Ningu\u00e9m percebeu. Eu, ansioso pra acabar logo com aquilo, ganhar minha grana (imaginada) s\u00f3 liguei o carro e segui viagem para o norte de Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>Chegamos na rodovia Ilh\u00e9us-Uru\u00e7uca. Entramos numa estradinha vicinal de terra at\u00e9 onde o carro conseguia ir.<\/p>\n<p>A cachoeira ficava a uns 50 metros mata adentro depois de uma trilha estreita. Todos desceram do carro carregando suas sacolas, bode (que eles achavam que ele estava ensacado l\u00e1 no porta-malas), imagens, garrafas e etc&#8230;.<\/p>\n<p>Eu, com cara de quem n\u00e3o queria nem saber, falei:<\/p>\n<p>\u2014 Vou ficar aqui aguardando e vigiando o carro. Nunca se sabe, n\u00e9? Lugar deserto, carro n\u00e3o pode ficar sozinho, j\u00e1 estava meio assustado com toda aquela movimenta\u00e7\u00e3o, pois chegaram mais tr\u00eas carros cheio de gente todos de branco e coisa e tal.<\/p>\n<p>Fiquei sozinho, ouvindo o barulho da cachoeira ao longe. Passaram-se uns 25 minutos. Eu j\u00e1 estava cansado de esperar quando vi um dos caras do terreiro voltando a meio trote pela trilha, parecendo que tinha visto assombra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 chegou perto gritando:<\/p>\n<p>\u2014 Cad\u00ea o bode?!<\/p>\n<p>Desci do carro e abri o porta-malas. Vazio. S\u00f3 o cheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Pera\u00ed disse o cara!\u2026 Putz!&#8230; o bode n\u00e3o t\u00e1 aqui n\u00e3o!<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que o figurante de despacho gritou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mata, com as m\u00e3os em concha:<\/p>\n<p>\u2014 CAD\u00ca O BODE?!&#8230; ONDE VOC\u00caS DEIXARAM O BODE?!<\/p>\n<p>Do meio da mata veio a voz grossa e autorit\u00e1ria do pai de santo, ecoando como se fosse um trov\u00e3o ou pr\u00f3prio Exu:<\/p>\n<p>\u2014 ESQUECE O BODE!&#8230; TRAZ O MOTORISTA!!<\/p>\n<p>Sil\u00eancio. At\u00e9 os passarinhos pararam de cantar.<\/p>\n<p>Senti o cora\u00e7\u00e3o dar um salto mortal triplo carpado. Na mesma hora veio um filme na minha cabe\u00e7a: eu todo amarrado no lugar do bode, o Amarildo fazendo \u201ctrabalho\u201d comigo e me despachando para o al\u00e9m, o pai de santo gritando \u201cesse BODE aqui \u00e9 mais forte que o outro!\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?! \u2014 murmurei (branco feito papel). \u2014 Esses doidos querem me despachar no lugar do bode!<\/p>\n<p>N\u00e3o pensei duas vezes. Parti para o volante do carro e com a m\u00e3o tremendo tanto que quase engatei a quinta marcha no lugar da r\u00e9. Dei r\u00e9 rasgando os pneus dianteiros na terra, virei o carro de qualquer jeito e sai voando pela estrada, deixando uma nuvem de poeira vermelha pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Cheguei no hotel em tempo recorde, tranquei o carro, subi pro meu quarto e fiquei mais de duas horas com a luz acesa olhando pro teto.<\/p>\n<p>Nunca mais apareceu o Amarildo de S\u00e3o Paulo. Perdi toda a estadia do cara e todo os servi\u00e7os eu tinha feito, tomei um preju\u00edzo danado. Nunca mais apareceu o pai de santo muito menos o bode.<\/p>\n<p>\u2014 O bode deve t\u00e1 vivendo como rei por a\u00ed. Bebeu a cacha\u00e7a, comeu a farofa e ainda ganhou liberdade. Melhor destino que o meu ia ter, com certeza.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, quando chega h\u00f3spede com guia no pesco\u00e7o, roupa branca na mala ou falando de \u201ctrabalho pra trazer algu\u00e9m de volta\u201d, o aviso para os recepcionistas do Hotel \u00e9 que n\u00e3o terceirizamos servi\u00e7os de quaisquer naturezas.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade \u00e9 que prefiro perder o cliente a virar substituto de bode.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o foi cara, fedida, mas&#8230; inesquec\u00edvel!<\/p>\n<p>Leonardo Garcia Diniz<\/p>\n<p>\u201cBode Preto\u201d \u2013 Hoteleiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou numa tarde comum no hotel, corria o ano de 1999, quando um paulistano de uns 50 anos, bem arrumadinho, chegou com uma mala enorme, TINHA UMA cara de quem perdeu a final do campeonato. Chamava-se Amarildo. 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