{"id":132466,"date":"2026-06-12T18:03:04","date_gmt":"2026-06-12T21:03:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=132466"},"modified":"2026-06-12T18:03:04","modified_gmt":"2026-06-12T21:03:04","slug":"a-mangueira-do-pecado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2026\/06\/12\/a-mangueira-do-pecado\/","title":{"rendered":"A Mangueira do Pecado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-109994\" src=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"242\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Seguia o ano de 2006, o Hotel Pousada Terras do Sem Fim crescia bem devagarinho, como uma tartaruga que resolveu fazer ioga. As obras andavam no ritmo do &#8220;vai que d\u00e1&#8221;, porque o dinheiro de hoje pagava o cimento de amanh\u00e3. Era aquele cl\u00e1ssico brasileiro: vendia o almo\u00e7o para comprar a janta, e ainda rezava para sobrar umas migalhas para o caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>O &#8220;carro oficial&#8221; do hotel era um Fusca valente, j\u00e1 com quase 20 anos de estrada nas costas, mais furado que queijo su\u00ed\u00e7o. O coitado tinha buracos no assoalho t\u00e3o generosos que o motorista podia contar as faixinhas tracejadas da pista passando rapidinho l\u00e1 embaixo. A velocidade dele era definida pelo tamanho dos buracos: quanto maior o buraco, mais devagar ele ia, para n\u00e3o virar peneira humana.<\/p>\n<p>E quando chovia? A\u00ed virava com\u00e9dia pastel\u00e3o!<\/p>\n<p>Os pneus carecas do Fusca jogavam mais \u00e1gua para dentro do carro do que o c\u00e9u conseguia derrubar no para-brisa. A solu\u00e7\u00e3o era digna de her\u00f3i: sacos pl\u00e1sticos nos p\u00e9s, \u00f3culos de serralheiro no rosto, e um sorriso amarelo no canto da boca. Parecia eu um astronauta pobre indo para uma miss\u00e3o espacial embaixo d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tinha vergonha de entrar no Fusca as filhas dispensavam caronas para o col\u00e9gio. Era de fato uma ferrugem barulhenta.<\/p>\n<p>Mas foi exatamente assim, com Fusca furado, obras de tartaruga e muito improviso, que a Pousada Terras do Sem Fim ia se construindo. Tijolo por tijolo, risada por risada, e com a certeza de que um dia aquele sonho ia parar de ser &#8220;quase pronto&#8221; e virar realidade.<\/p>\n<p>E olha&#8230; at\u00e9 que ficou bonito, hein?<\/p>\n<p>A vida era simples e apertada. Pedreiros, serventes, camareiras e cozinheiras moravam nos seus alojamentos, divididos em dois grupos: os homens de um lado, as mulheres do outro, separados por uma dist\u00e2ncia que o dono, Seu Leonardo, considerava \u201cde boa moral\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>Os banheiros dos alojamentos ainda n\u00e3o existiam. L\u00e1 atr\u00e1s, no terreno dos fundos do Hotel, foram constru\u00eddos dois banheiros prec\u00e1rios: um para os homens e outro, mais reservado, com uma boa ducha, para as mulheres. O problema foi que bem ao lado do banheiro feminino havia uma <strong>mangueira majestosa<\/strong>, alta, frondosa e generosa, que dava sombra e mangas \u201cHadem\u201d deliciosas.<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m imaginava era que, de um galho espec\u00edfico, bem no alto, conseguia-se ver <strong>tudo<\/strong> que acontecia l\u00e1 dentro atrav\u00e9s das frestas do caibro do telhado. Era como um camarote VIP do pecado.<\/p>\n<p><strong>E foi assim que surgiu a lenda da Mangueira do Pecado.<\/strong><\/p>\n<p>Entre os pedreiros, havia o <strong>seu Careca<\/strong>, de 55 anos, velho de guerra, excelente profissional, mestre de obra dos bons, mas com um olho mais vivo que o de um gavi\u00e3o; foi quem criou o HOR\u00c1RIO M\u00c1GICO.<\/p>\n<p>Todo Santo dia, pontualmente \u00e0s 16h30, enquanto as cinco camareiras terminavam o expediente e iam tomar banho, Careca sumia do canteiro de obras. Subia na mangueira com a agilidade de um macaco experiente, acomodava-se no galho estrat\u00e9gico e ficava l\u00e1, quietinho, como quem aprecia a natureza.<\/p>\n<p>As meninas chegavam conversando, rindo, tiravam a roupa cheia de sujidades do dia e&#8230; bem&#8230; tomavam seu merecido banho. <strong>Careca<\/strong>, l\u00e1 de cima, assistia ao espet\u00e1culo como se fosse novelas das seis.<\/p>\n<p>Isso durou <strong>semanas<\/strong>. Talvez meses. O homem era discreto como um ninja de terceira idade.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia&#8230;<\/p>\n<p>Era uma tarde como outra qualquer quando um grito cortou o ar:<\/p>\n<p><strong>Tem um homem na mangueira!!! Cabra Safado!<\/strong><\/p>\n<p>Foi o caos. As cinco camareiras sa\u00edram do banheiro enroladas em toalhas, pegando pedras, chinelos, peda\u00e7os de madeira \u2014 o que encontrassem. Careca, que at\u00e9 ent\u00e3o se achava invis\u00edvel, tentou descer correndo, mas era tarde.<\/p>\n<p><strong>Pega esse desgra\u00e7ado!<\/strong><\/p>\n<p>Choveram pedradas. <strong>Careca<\/strong> pulava de galho em galho como um macaco b\u00eabado.<\/p>\n<p>Quando finalmente desceu, foi cercado, agarrado por um de seus ajudantes. As meninas, indignadas, fizeram um <strong>c\u00edrculo da vergonha<\/strong>. Arrancaram boa parte da camisa, rasgaram sua cal\u00e7a e, no auge da f\u00faria, uma delas conseguiu puxar um tufo generoso de cabelo e couro cabeludo do pobre coitado.<\/p>\n<p>O homem saiu dali parecendo que tinha brigado com gatos e perdido feio, sem mais delongas desapareceu. N\u00e3o ficou, achamos todos, para que o assunto n\u00e3o virasse \u201ccaso de pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o clima no hotel estava insuport\u00e1vel. Ningu\u00e9m trabalhou direito, todos os homens viraram suspeitos. As mulheres olhavam torto at\u00e9 para o Seu Leonardo. N\u00e3o tinha jeito, o caso delongou semanas de afli\u00e7\u00e3o e da\u00ed para frente as mulheres, em sistema rod\u00edzio, passaram a fazer plant\u00e3o no p\u00e9 de manga enquanto as demais tomavam banho<\/p>\n<p>Para restaurar a paz, Seu Leonardo tomou a decis\u00e3o mais dolorosa: mandou derrubar a mangueira. Aquela \u00e1rvore linda, que dava sombra e mangas t\u00e3o doces, que caiu com estrondo.<\/p>\n<p>Como diz o ditado: <strong>v\u00e3o-se os an\u00e9is, ficam os dedos<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Careca<\/strong> nunca mais apareceu no servi\u00e7o. Perdeu o emprego, a moral e, pelo que contaram, um bom peda\u00e7o do couro cabeludo. O hotel seguiu em frente, a obra continuou, mas at\u00e9 hoje, quando algu\u00e9m conta essa hist\u00f3ria, as camareiras mais antigas ainda riem:<\/p>\n<p>Aquele dia, sim, foi o banho mais caro da hist\u00f3ria do Terras do Sem Fim.<\/p>\n<p>Leonardo Garcia Diniz<br \/>\nHotel Pousada Terras do Sem Fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguia o ano de 2006, o Hotel Pousada Terras do Sem Fim crescia bem devagarinho, como uma tartaruga que resolveu fazer ioga. As obras andavam no ritmo do &#8220;vai que d\u00e1&#8221;, porque o dinheiro de hoje pagava o cimento de amanh\u00e3. 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