{"id":132593,"date":"2026-07-14T17:49:12","date_gmt":"2026-07-14T20:49:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=132593"},"modified":"2026-07-14T17:49:12","modified_gmt":"2026-07-14T20:49:12","slug":"a-retomada-dos-guaiamuns-assaltantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2026\/07\/14\/a-retomada-dos-guaiamuns-assaltantes\/","title":{"rendered":"\u00a0A Retomada dos Guaiamuns &#8220;Assaltantes&#8221;\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-109994\" src=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/leonardo-garcia.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"242\" \/><\/a>Era uma noite de lua cheia, mas que a natureza, com seu s\u00e1bio rel\u00f3gio, adora pregar pe\u00e7as em turistas desavisados e desinformados. Ilh\u00e9us, rainha do sul da Bahia, cercada por manguezais que parecem sa\u00eddos de um quadro de Tarsila do Amaral, entrava no famoso per\u00edodo da andada. Para quem n\u00e3o sabe, a andada \u00e9 o momento em que os guaiamuns, aqueles caranguejos azuis grandalh\u00f5es, com pin\u00e7as que parecem alicates de mec\u00e2nico, resolvem que est\u00e1 na hora de fazer amor. E, para isso, eles saem em massa dos mangues, atravessam ruas, invadem quintais, restaurantes e, claro, hot\u00e9is.<\/p>\n<p>O Hotel Pousada Terras do Sem Fim, charmoso, com apartamentos t\u00e9rreos bem pr\u00f3ximos da praia, se tornou o para\u00edso de turistas incautos.<\/p>\n<p>O nome \u201cTerras do Sem Fim\u201d j\u00e1 deveria ter sido um aviso: aqui o misterioso acontece com os h\u00f3spedes que despretensiosamente desconhecem as regras da natureza litor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O casal em quest\u00e3o, vamos cham\u00e1-los de Seu Jorge e Dona Maria ambos com aquela cara de quem \u201cmerece umas f\u00e9rias tranquilas, chegaram cheios de expectativas rom\u00e2nticas. Malas abertas, chinelos Havaianas premium jogados no ch\u00e3o, toalhas particulares, cheirosas, prontas para serem esticadas na areia e, o pior de todos os pecados capitais em \u00e9poca de andada: a porta da varanda t\u00e9rrea foi esquecida escancarada \u201cpara sentirem a brisa do mar\u201d.<\/p>\n<p>Deixa aberta, Jorge! T\u00e1 t\u00e3o abafado! disse Maria, abanando o decote com o card\u00e1pio do restaurante.<\/p>\n<p>Eles foram jantar. Moqueca apimentada, caipirinha, viol\u00e3o ao fundo, tudo perfeito. Enquanto isso, l\u00e1 fora, uma legi\u00e3o de guaiamuns de elite, os mais abusados do manguezal, farejava o ar. \u201cTem cheiro de chinelo novo, de pasta de dente mentolada e de mala aberta com roupa limpa. \u00c9 hoje!\u201d<\/p>\n<p>Quando o casal voltou do jantar, de m\u00e3os dadas e com aquele sorriso bobo de quem comeu bem demais, o cen\u00e1rio era outro.<\/p>\n<p>Primeiro veio o barulho. Um clac-clac-clac ritmado, como se algu\u00e9m estivesse batucando com talheres na pia.<\/p>\n<p>Que isso, Jorge? O ar-condicionado t\u00e1 com defeito?<\/p>\n<p>Eles acenderam as luzes.<\/p>\n<p>O que viram jamais ser\u00e1 esquecido enquanto viverem.<\/p>\n<p>Havia uns quinze guaiamuns de tamanho respeit\u00e1vel (alguns pareciam ter feito academia no mangue) passeando pelo apartamento como se tivessem comprado o im\u00f3vel. Um deles, o l\u00edder, claramente, estava empoleirado na pia do banheiro. Tinha subido pela toalha felpuda branca como um alpinista profissional e agora tentava, com pin\u00e7a cir\u00fargica, abrir o tubo de Colgate Total 12. Outro, mais rom\u00e2ntico, se instalara dentro do box do chuveiro, abrindo e fechando as pin\u00e7as como seguran\u00e7a de balada: \u201cPode entrar, mas n\u00e3o faz gracinha\u201d.<\/p>\n<p>O mais audacioso de todos tinha arrastado um chinelo Havaianas Top\u00e1zio (R$ 89,90 na promo\u00e7\u00e3o) para debaixo da cama, provavelmente para usar como ninho ou trof\u00e9u de guerra. Dois outros haviam entrado nas malas abertas e faziam um invent\u00e1rio minucioso das cuecas e suti\u00e3s, revirando tudo com a delicadeza de fiscais da Receita.<\/p>\n<p>Meu Deus do c\u00e9u, Jorge! Os caranguejos invadiram! gritou Maria, subindo na cama como se fosse um navio afundando.\u00a0 <!--more--><\/p>\n<p>Jorge, tentando manter a dignidade masculina, pegou a vassoura do arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>Calma, mulher! S\u00e3o s\u00f3 caranguejos! Eu resolvo isso!<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que come\u00e7ou a Batalha de Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>O primeiro guaiamum que ele tentou enxotar respondeu com uma pin\u00e7ada t\u00e3o precisa na vassoura que voava de um lado para o outro agarrado a pia\u00e7ava. O bicho ainda fez um barulhinho que soou perigosamente como \u201ct\u00e1 louco, paulista?\u201d. Maria pegou o balde de gelo do frigobar e come\u00e7ou a jogar cubos como granadas. Um guaiamum escorregou, bateu com a carapa\u00e7a no rodap\u00e9 e saiu girando como pi\u00e3o, mas se recuperou e contra-atacou, agarrando na perna da cal\u00e7a de Jorge.<\/p>\n<p>T\u00e1 subindo! T\u00e1 subindo! Tira! Tiraaa!<\/p>\n<p>Os gritos acordaram metade do Hotel. H\u00f3spedes abriram portas, s\u00f3 para ver um homem batendo vassouradas no ar, uma mulher jogando gelo e caranguejos saindo de todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O seguran\u00e7a do hotel, um senhor perto dos sessenta anos que j\u00e1 tinha visto de tudo, apareceu de chinelo e lanterna.<\/p>\n<p>Ih, minha filha&#8230; voc\u00eas deixaram a porta aberta na andada? Pois \u00e9&#8230; isso aqui n\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o, \u00e9 reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Essa praia era deles antes de ser nossa.<\/p>\n<p>O propriet\u00e1rio do hotel, Leonardo, chegou assustado, tentando manter a compostura.<\/p>\n<p>Calma, pessoal! Vamos resolver isso civilizadamente!<\/p>\n<p>Civilizadamente? Os guaiamuns n\u00e3o estavam nem a\u00ed para diplomacia. Um deles havia encontrado o pacote de biscoitos de queijo e agora defendia o territ\u00f3rio com ferocidade. Outro estava dentro da mala de m\u00e3o, provavelmente escolhendo qual perfume levar de recorda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de resgate durou quase duas horas. Foi uma verdadeira Odisseia dos Guaiamuns. Vassoura, balde, toalhas molhadas, chinelo voador, grito agudo de Maria em mi bemol, xingamentos que o guaiamum jamais tinha ouvido no manguezal. Em determinado momento, Jorge tentou usar o secador de cabelo como arma de choque, mas s\u00f3 conseguiu assustar a si mesmo.<\/p>\n<p>Quando o \u00faltimo caranguejo foi devidamente devolvido ao manguezal (com direito a discurso do seguran\u00e7a: \u201cVai com Deus, cumpadi, e leva essa pin\u00e7a pra tua patroa\u201d), o quarto parecia um campo de batalha. Chinelo mordido, toalha rasgada, gelo derretido pelo ch\u00e3o, malas reviradas e um cheiro leve de mangue que jamais sairia da mem\u00f3ria olfativa do casal.<\/p>\n<p>Sentados na cama, exaustos, Jorge e Maria se olharam.<\/p>\n<p>Amor&#8230; ,disse ela, ainda tremendo, nunca mais deixo porta aberta.<\/p>\n<p>Nem janela, completou ele.<\/p>\n<p>No dia seguinte, no caf\u00e9 da manh\u00e3, o casal foi recebido como her\u00f3is de guerra. Os outros h\u00f3spedes queriam detalhes. Leonardo ofereceu uma rodada de p\u00e3o de queijo e, com um sorriso maroto, entregou um pequeno folheto que ele mesmo tinha mandado imprimir:<\/p>\n<p>AVISO IMPORTANTE AOS EXCURSIONISTAS.<\/p>\n<p>\u201cPrezado h\u00f3spede, que se dirige ao litoral baiano: Saiba que, entre os meses de janeiro e abril, aproximadamente, ocorre a andada dos guaiamuns. Durante este per\u00edodo, os simp\u00e1ticos crust\u00e1ceos consideram qualquer porta aberta como convite para festa. Deixe a brisa do mar entrar, sim. Mas fechem a porta, pelo amor de S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<p>Caso contr\u00e1rio, prepare a vassoura, o balde de gelo e os pulm\u00f5es. Porque os guaiamuns n\u00e3o v\u00eam em paz. Eles v\u00eam em andada.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles eram donos da praia antes de n\u00f3s. Estamos apenas alugando.\u201d<\/p>\n<p>Jorge e Maria riram. E, no fundo, sabiam que aquela hist\u00f3ria entraria para o repert\u00f3rio eterno das f\u00e9rias: \u201cLembra quando fomos invadidos pelos caranguejos assaltantes?\u201d.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: quem vai para o litoral baiano em \u00e9poca de andada precisa entender uma coisa fundamental, a natureza n\u00e3o tira f\u00e9rias. E, \u00e0s vezes, ela tem quinze pares de pin\u00e7as e zero respeito por chinelos Havaianas Top\u00e1zio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leonardo Garcia Diniz Hotel<\/p>\n<p>Pousada Terras do Sem Fim<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma noite de lua cheia, mas que a natureza, com seu s\u00e1bio rel\u00f3gio, adora pregar pe\u00e7as em turistas desavisados e desinformados. Ilh\u00e9us, rainha do sul da Bahia, cercada por manguezais que parecem sa\u00eddos de um quadro de Tarsila do Amaral, entrava no famoso per\u00edodo da andada. 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