{"id":132616,"date":"2026-07-23T17:40:51","date_gmt":"2026-07-23T20:40:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=132616"},"modified":"2026-07-23T17:40:51","modified_gmt":"2026-07-23T20:40:51","slug":"decolores-figuras-da-nossa-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2026\/07\/23\/decolores-figuras-da-nossa-terra\/","title":{"rendered":"DECOLORES &#8211; FIGURAS DA NOSSA TERRA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000893630.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-132617\" src=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000893630-214x300.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000893630-214x300.jpg 214w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000893630.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><\/a>Cap\u00edtulo 1 \u2014 O Profeta<\/p>\n<p>Personagens reais que ajudaram a construir a mem\u00f3ria afetiva de Ilh\u00e9us<\/p>\n<p>Dizem que recusou uma vida de regalias para viver na simplicidade, encontrando na pr\u00f3pria solitude o conforto que muitos jamais encontrariam em pal\u00e1cios. Preferiu a reclus\u00e3o volunt\u00e1ria, como os antigos eremitas, fazendo do sil\u00eancio a sua companhia, da liberdade o seu patrim\u00f4nio e da contempla\u00e7\u00e3o uma filosofia de vida. Talvez por isso ningu\u00e9m jamais tenha conseguido explicar quem realmente foi Seu Lu\u00eds. Em uma cidade onde realidade e fic\u00e7\u00e3o caminham de m\u00e3os dadas desde Jorge Amado, ele deixou de ser apenas um homem para transformar-se em lenda.<\/p>\n<p>Toda cidade possui ruas, pra\u00e7as, monumentos e pr\u00e9dios hist\u00f3ricos. Mas apenas algumas s\u00e3o capazes de transformar pessoas comuns em personagens eternos. Ilh\u00e9us sempre foi assim. Antes mesmo de Jorge Amado imortalizar seus coron\u00e9is, prostitutas, pescadores e sonhadores, a cidade j\u00e1 colecionava figuras que pareciam ter escapado das p\u00e1ginas de um romance. Homens e mulheres que nunca ocuparam cargos p\u00fablicos, jamais receberam homenagens oficiais, mas conquistaram aquilo que poucos alcan\u00e7am: permanecer vivos na mem\u00f3ria de um povo.<\/p>\n<p>Entre todos eles, talvez nenhum tenha sido t\u00e3o misterioso quanto aquele homem que caminhava lentamente pelas ruas do centro com um cajado nas m\u00e3os, longas madeixas lembrando um rastaf\u00e1ri, barba branca dividida ao meio, \u00f3culos cuidadosamente remendados com fita adesiva e vestes que recordavam os antigos franciscanos. Seu semblante misturava serenidade e dist\u00e2ncia, como se enxergasse um mundo invis\u00edvel aos olhos da maioria. Chamava-se Lu\u00eds. Mas para Ilh\u00e9us ele nunca precisou de sobrenome. Bastava dizer: &#8220;L\u00e1 vai o Profeta.&#8221;<\/p>\n<p>Quem estudou nas imedia\u00e7\u00f5es do Gin\u00e1sio de Esportes Herval Soledade entre as d\u00e9cadas de 1980, 1990 e o in\u00edcio dos anos 2000 certamente cruzou com ele in\u00fameras vezes. Eu fui um desses estudantes. Passei pela Escola Municipal Heitor Dias, pela Escola Perp\u00e9tua Marques, pela Cruzada do Bem e pelo Instituto Municipal de Ensino. Em todas essas escolas havia uma certeza silenciosa: em algum momento do dia encontrar\u00edamos aquela figura caminhando calmamente pelas ruas ou recolhida em seu pequeno abrigo.<\/p>\n<p>Seu lar n\u00e3o era exatamente um barraco.<\/p>\n<p>Era um pequeno ref\u00fagio improvisado, discretamente escondido sob a escadaria lateral do Gin\u00e1sio Herval Soledade. T\u00e3o discreto que muitos atravessavam diariamente aquele espa\u00e7o sem imaginar que ali vivia algu\u00e9m. Talvez justamente por isso tenha permanecido tantos anos naquele lugar. Nunca incomodava ningu\u00e9m. N\u00e3o pedia esmolas. N\u00e3o fazia algazarra. Parecia existir um acordo invis\u00edvel entre a cidade e aquele homem que havia decidido viver \u00e0s margens do mundo sem jamais abandonar Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as, naturalmente inquietas, nem sempre compreendiam aquele sil\u00eancio. Corriam atr\u00e1s dele, gritavam &#8220;Beato Salu!&#8221;, repetindo uma express\u00e3o popular da \u00e9poca, jogavam pequenas pedras e faziam travessuras pr\u00f3prias da inf\u00e2ncia. Ele raramente respondia com irrita\u00e7\u00e3o. Na maioria das vezes limitava-se a seguir seu caminho, protegido por uma serenidade que parecia imposs\u00edvel de ser abalada. Quando respondia, quase sempre era atrav\u00e9s de frases que mais pareciam prov\u00e9rbios.<\/p>\n<p>Eram justamente essas palavras que alimentavam o mito.<\/p>\n<p>Contavam que falava iorub\u00e1 com impressionante naturalidade. Outros garantiam que dominava filosofia e teologia como poucos professores universit\u00e1rios. Havia quem jurasse que conhecia profundamente as Escrituras Sagradas e discutia religi\u00e3o com sacerdotes, pastores e estudiosos. Ningu\u00e9m sabia exatamente onde aprendera tanto. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m sabia ao certo se tudo aquilo era verdade. Mas, em Ilh\u00e9us, algumas hist\u00f3rias jamais precisaram de provas para continuarem vivas.<\/p>\n<p>O ilheense Anacleto Barreto, que conviveu com Seu Lu\u00eds durante muitos anos, preserva algumas lembran\u00e7as preciosas daquele conv\u00edvio. Quando algu\u00e9m lhe desejava bom dia, respondia com humildade desconcertante:<!--more--><\/p>\n<p>&#8220;Deus lhe responde por mim, porque eu sou pequeno.&#8221;<\/p>\n<p>Ao ver Anacleto aproximando-se, brincava sorrindo:<\/p>\n<p>&#8220;Anacleto, Anacleto&#8230; n\u00e3o bula comigo que eu t\u00f4 quieto.&#8221;<\/p>\n<p>Quando desejava criticar algu\u00e9m que exercia mal determinada fun\u00e7\u00e3o, improvisava:<\/p>\n<p>&#8220;Se n\u00e3o d\u00e1 pro fub\u00e1, desocupa o lugar. Sai do carreiro e deixa pra quem pode passar.&#8221;<\/p>\n<p>Mas o Profeta tamb\u00e9m revelava um humor inesperado. Certa vez, durante uma competi\u00e7\u00e3o esportiva no gin\u00e1sio, vendo um grupo de mo\u00e7as atravessar a pra\u00e7a, deixou escapar uma rima que at\u00e9 hoje provoca sorrisos em quem a escutou:<\/p>\n<p>&#8220;Quanta ro\u00e7a de mandioca&#8230; quanta fome de farinha&#8230; tanta menina bonita e eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a minha.&#8221;<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel enquadr\u00e1-lo em qualquer defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era mendigo?<\/p>\n<p>Fil\u00f3sofo?<\/p>\n<p>Religioso?<\/p>\n<p>Poeta?<\/p>\n<p>Louco?<\/p>\n<p>S\u00e1bio?<\/p>\n<p>Talvez fosse um pouco de tudo.<\/p>\n<p>Talvez fosse apenas um homem que decidiu viver segundo regras que somente ele compreendia.<\/p>\n<p>O saudoso m\u00e9dico Dr. Jos\u00e9 Louren\u00e7o parecia enxergar justamente isso. Atendia Seu Lu\u00eds sempre que necess\u00e1rio e, discretamente, providenciava roupas confeccionadas especialmente no mesmo estilo das vestes que ele costumava usar. N\u00e3o tentava transform\u00e1-lo em outra pessoa. Apenas respeitava sua forma de existir.<\/p>\n<p>E foi justamente esse respeito que fez nascer ainda mais hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Diziam que parentes ricos o visitavam frequentemente tentando convenc\u00ea-lo a abandonar aquela vida. Outros afirmavam que ele era herdeiro de uma grande fortuna. Havia ainda quem garantisse que possu\u00eda um filho policial militar em Itabuna. Anos depois surgiria outra vers\u00e3o: teria finalmente recebido uma vultosa heran\u00e7a, casado e ido viver tranquilamente em uma fazenda na regi\u00e3o de Vit\u00f3ria da Conquista.<\/p>\n<p>Verdade?<\/p>\n<p>Lenda?<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria?<\/p>\n<p>Em Ilh\u00e9us essas fronteiras sempre foram delicadas.<\/p>\n<p>Talvez por isso o escritor, dramaturgo e imortal da Academia de Letras de Ilh\u00e9us, Pawlo Cidade, tenha encontrado justamente em Seu Lu\u00eds a inspira\u00e7\u00e3o para um dos personagens mais emblem\u00e1ticos de seu romance O Povoado das 11 Mil Virgens, onde um misterioso profeta surge trazendo not\u00edcias que alteram o destino de toda uma comunidade. A literatura apenas fez aquilo que a cidade j\u00e1 havia feito muito antes: transformou um homem real em personagem.<\/p>\n<p>E um personagem em patrim\u00f4nio afetivo.<\/p>\n<p>Depois de tantos anos convivendo silenciosamente com a cidade, Seu Lu\u00eds desapareceu da mesma forma como chegou.<\/p>\n<p>Sem despedidas.<\/p>\n<p>Sem explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem deixar rastros.<\/p>\n<p>Hoje, onde existia aquele pequeno abrigo escondido sob a escadaria do Gin\u00e1sio Herval Soledade, funciona a sede da Guarda Municipal de Ilh\u00e9us. O barraco desapareceu. A escadaria permanece. O gin\u00e1sio continua recebendo atletas, estudantes e moradores. Mas quem viveu aquela \u00e9poca ainda consegue enxergar, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, um homem caminhando lentamente com seu cajado, seus \u00f3culos remendados e um olhar perdido em horizontes que talvez apenas ele fosse capaz de contemplar.<\/p>\n<p>Talvez Seu Lu\u00eds nunca tenha desejado ser lembrado. Talvez buscasse apenas a paz que o mundo moderno insiste em negar. Mas cidades possuem um curioso h\u00e1bito: eternizam justamente aqueles que nunca procuraram fama. Restaram poucas fotografias, alguns relatos, incont\u00e1veis hist\u00f3rias e um mist\u00e9rio que talvez jamais seja solucionado. Afinal, o Profeta existiu. Disso ningu\u00e9m duvida. O que permanece envolto em n\u00e9voa \u00e9 tudo aquilo que a cidade acrescentou \u00e0 sua hist\u00f3ria ao longo dos anos.<\/p>\n<p>E talvez seja exatamente isso que o torne inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Porque algumas pessoas passam pela vida.<\/p>\n<p>Outras passam a fazer parte da alma de uma cidade.<\/p>\n<p>Seu Lu\u00eds, o Profeta, pertence definitivamente \u00e0 segunda categoria.<\/p>\n<p>Cr\u00e9dito especial: Esta publica\u00e7\u00e3o foi produzida com a colabora\u00e7\u00e3o do extraordin\u00e1rio acervo da p\u00e1gina Mem\u00f3ria Visual de Ilh\u00e9us, idealizada e mantida por Carlos Mascarenhas, cujo trabalho de preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria afetiva do povo ilheense merece reconhecimento e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>OLHAR P\u00daBLICO<\/p>\n<p>&#8220;Onde a informa\u00e7\u00e3o encontra a reflex\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Thiago Viana Borges<\/p>\n<p>Gestor P\u00fablico (Aposentado) \u2022 Professor de Letras Vern\u00e1culas e Ingl\u00eas \u2022 Editor \u2022 Redator e Consultor Pol\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 1 \u2014 O Profeta Personagens reais que ajudaram a construir a mem\u00f3ria afetiva de Ilh\u00e9us Dizem que recusou uma vida de regalias para viver na simplicidade, encontrando na pr\u00f3pria solitude o conforto que muitos jamais encontrariam em pal\u00e1cios. 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