{"id":13445,"date":"2011-04-21T14:57:49","date_gmt":"2011-04-21T17:57:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=13445"},"modified":"2011-04-21T14:57:49","modified_gmt":"2011-04-21T17:57:49","slug":"a-doenca-chamada-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/04\/21\/a-doenca-chamada-homem\/","title":{"rendered":"A doen\u00e7a chamada homem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leonardo Boff<br \/>\nTe\u00f3logo, fil\u00f3sofo e escritor<\/strong><\/p>\n<p>Esta frase \u00e9 de F. Nietzsche e quer dizer: o ser humano \u00e9 um ser paradoxal, s\u00e3o e doente: nele vivem o santo e o assassino. Bioantrop\u00f3logos, cosm\u00f3logos e outros afirmam: o ser humano \u00e9, ao mesmo tempo, sapiente e demente, anjo e dem\u00f4nio, dia-b\u00f3lico e sim-b\u00f3lico. Freud dir\u00e1 que nele vigoram dois instintos b\u00e1sicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destrui\u00e7\u00e3o e deseja matar. Importa enfatizar: nele coexistem simultaneamente as duas for\u00e7as. Por isso, nossa exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 simples mas complexa e dram\u00e1tica. Ora predomina a vontade de viver e ent\u00e3o tudo irradia e cresce. Noutro momento, ganha a partida a vontade de matar e ent\u00e3o irrompem viol\u00eancias e crimes como aquele que ocorreu recentemente.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Podemos superar esta dilacera\u00e7\u00e3o no humano? Foi a pergunta que A. Einstein colocou numa carta de 30 de julho de 1932 a S. Freud: &#8220;Existe a possibilidade de dirigir a evolu\u00e7\u00e3o ps\u00edquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir \u00e0 psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d? Freud respondeu realisticamente: &#8220;N\u00e3o existe a esperan\u00e7a de suprimir de modo direto a agressividade humana. O que podemos \u00e9 percorrer vias indiretas, refor\u00e7ando o princ\u00edpio de vida (Eros) contra o princ\u00edpio de morte (Thanatos). E termina com uma frase resignada: &#8220;esfaimados pensamos no moinho que t\u00e3o lentamente m\u00f3i que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha\u201d. Ser\u00e1 este o nosso destino?<br \/>\nPor que escrevo isso tudo? \u00c9 em raz\u00e3o do tresloucado que no dia 5 abril numa escola de um bairro do Rio de Janeiro matou \u00e0 bala 12 inocentes estudantes entre 13-15 anos e deixou 12 feridos. J\u00e1 se fizeram um sem n\u00famero de an\u00e1lises, foram sugeridas in\u00fameras medidas como a da restri\u00e7\u00e3o da venda de armas, de montar esquemas de seguran\u00e7a policial em cada escola e outras. Tudo isso tem seu sentido. Mas n\u00e3o se vai ao fundo da quest\u00e3o. A dimens\u00e3o assassina, sejamos concretos e humildes, habita em cada um de n\u00f3s. Temos instintos de agredir e de matar. \u00c9 da condi\u00e7\u00e3o humana, pouco importam as interpreta\u00e7\u00f5es que lhe dermos. A sublima\u00e7\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o desta anti-realidade n\u00e3o nos ajuda. Importa assumi-la e buscar formas de mant\u00ea-la sob controle e impedir que inunde a consci\u00eancia, recalque o instinto de vida e assuma as r\u00e9deas da situa\u00e7\u00e3o. Freud bem sugeria: tudo o que faz criar la\u00e7os emotivos entre os seres humanos, tudo o que civiliza, toda a educa\u00e7\u00e3o, toda arte e toda competi\u00e7\u00e3o pelo melhor, trabalha contra a agress\u00e3o e a morte.<\/p>\n<p>O crime perpetrado na escola \u00e9 horripilante. N\u00f3s crist\u00e3os conhecemos a matan\u00e7a dos inocentes ordenada por Herodes. De medo que Jesus, rec\u00e9m-nascido, mais tarde iria lhe arrebatar o poder, mandou matar todas as crian\u00e7as nas redondezas de Bel\u00e9m. E os textos sagrados trazem express\u00f5es das mais comovedoras: &#8220;Em Ram\u00e1 se ouviu uma voz, muito choro e gemido: \u00e9 Raquel que chora os filhos e n\u00e3o quer ser consolada porque os perdeu\u201d (Mt 2,18). Algo parecido ocorreu com os familiares das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Esse fato criminoso n\u00e3o est\u00e1 isolado de nossa sociedade. Esta n\u00e3o tem viol\u00eancia. Pior. Est\u00e1 montada sobre estruturas permanentes de viol\u00eancia. Aqui mais valem os privil\u00e9gios que os direitos. Marcio Pochmann, em seu Atlas Social do Brasil, nos traz dados estarrecedores: 1% da popula\u00e7\u00e3o (cerca de 5 mil fam\u00edlias) controlam 48% do PIB e 1% dos grandes propriet\u00e1rios det\u00e9m 46% de todas as terras. Pode-se construir uma sociedade de paz sobre semelhante viol\u00eancia social? Estes s\u00e3o aqueles que abominam falar de reforma agr\u00e1ria e de modifica\u00e7\u00f5es no C\u00f3digo Florestal. Mais valem seus privil\u00e9gios que os direitos da vida.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que em pessoas perturbadas psicologicamente, a dimens\u00e3o de morte, por mil raz\u00f5es subjacentes, pode aflorar e dominar a personalidade. N\u00e3o perde a raz\u00e3o. Usa-a a servi\u00e7o de uma emo\u00e7\u00e3o distorcida. O fato mais tr\u00e1gico, estudado minuciosamente por Erich Fromm (Anatomia da destrutividade humana, 1975) foi o de Adolf Hittler. Desde jovem foi tomado pelo instinto de morte. No final da guerra, ao constatar a derrota, pede ao povo que destrua tudo, envenene as \u00e1guas, queime os solos, liquide os animais, derrube os monumentos, se mate como ra\u00e7a e destrua o mundo. Efetivamente ele se matou e todo os seus seguidores pr\u00f3ximos. Era o imp\u00e9rio do princ\u00edpio de morte.<\/p>\n<p>Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A n\u00f3s cabe condenar o que \u00e9 objetivo, o crime de grav\u00edssima perversidade e saber localiz\u00e1-lo no \u00e2mbito da condi\u00e7\u00e3o humana. E usar todas as estrat\u00e9gias positivas para enfrentar o Trabalho do Negativo e compreender os mecanismos que nos podem subjugar. N\u00e3o conhe\u00e7o outra estrat\u00e9gia melhor que buscar uma sociedade justa, na qual o direito, o respeito, a coopera\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade para todos sejam garantidos. E o m\u00e9todo nos foi apontado por Francisco de Assis em sua famosa ora\u00e7\u00e3o: levar amor onde reinar o \u00f3dio, o perd\u00e3o onde houver ofensa, a esperan\u00e7a onde grassar o desespero e a luz onde dominar as trevas. A vida cura a vida e o amor supera em n\u00f3s o \u00f3dio que mata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Boff Te\u00f3logo, fil\u00f3sofo e escritor Esta frase \u00e9 de F. 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