{"id":13646,"date":"2011-04-25T09:05:24","date_gmt":"2011-04-25T12:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=13646"},"modified":"2011-04-25T09:44:38","modified_gmt":"2011-04-25T12:44:38","slug":"quadro-entrelinhas-da-noticia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/04\/25\/quadro-entrelinhas-da-noticia\/","title":{"rendered":"Quadro &#8211; Entrelinhas da not\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista com Seu Jorge numa \u00f3tica impetuosa<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Anna-de-Oliveira_1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"137\" \/>A experi\u00eancia aventurosa de uma jornalista sem credencial, com sua narrativa l\u00fadica em forma de conto, sobre o Show do Seu Jorge e a inspirada entrevista com ele, no s\u00e1bado (23) em Ilh\u00e9us.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Por Anna de Oliveira<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>annakdeoliveira@gmail.com<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fotos: Julay Photodesigner<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O<\/strong> dia 23 de abril, s\u00e1bado de aleluia, n\u00e3o sa\u00edra de meus pensamentos, e tamb\u00e9m dia de S\u00e3o Jorge em Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mont-capa-site34.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_13648\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mont-capa-site34.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-13648\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-13648\" title=\"mont capa site\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mont-capa-site34-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mont-capa-site34-300x239.jpg 300w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mont-capa-site34.jpg 680w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13648\" class=\"wp-caption-text\">Clique para AMPLIAR.<\/p><\/div>\n<p>Embora eu j\u00e1 estivesse conformada com o travesseiro de minha cama, em n\u00edvel oficial aqui no planeta Terra eu n\u00e3o iria para o show de Seu Jorge. Mas algu\u00e9m l\u00e1 em cima mexeu seus pauzinhos para que o que se estava aparentemente consumado, se transformasse em uma das melhores coberturas jornal\u00edsticas que at\u00e9 ent\u00e3o j\u00e1 experimentei. Eis aqui o novo jornalismo, com seu car\u00e1ter narrativo liter\u00e1rio e ao direito minucioso dos detalhes \u2013 o jornalista vive a realidade e narra com seu discurso livre e de dentro da alma, o acontecimento. Aviso aos navegantes que \u00e9 para quem gosta de ler. \u00c9 que nem um bolo gostoso, a melhor parte \u00e9 o recheio.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma surpresa para voc\u00ea, disse minha m\u00e3e euf\u00f3rica assim que cheguei em casa pouco mais que as 23 horas.<\/p>\n<p>&#8211; Boa ou ruim? Preocupei-me.<\/p>\n<p>&#8211; Boooa! Entre risadas ela me aliviava um poss\u00edvel susto, os nervos a flor da pele. Nossa prima ligou, disse que est\u00e1 com enxaqueca e tem duas entradas para o show do Seu Jorge. Perguntou se n\u00f3s gostar\u00edamos de ir, disse minha m\u00e3e. Caridosamente, claro, ela aceitou os ingressos. Eu mal poderia imaginar que esse seria o in\u00edcio de uma carreira que por tantos anos ensaiei os passos na gradua\u00e7\u00e3o de jornalismo.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos logo ent\u00e3o nos arrumar, est\u00e1 marcado para que horas?, indaguei.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui no ingresso diz que \u00e9 \u00e0s 22 horas, mas voc\u00ea sabe, nunca come\u00e7a no hor\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 logo se arrumar e venha no meu quarto que vou fazer sua maquiagem, instrui minha m\u00e3e como se fosse minha filha, e eu como uma m\u00e3e que cuida de sua cria.<\/p>\n<p><!--more-->Eu quis um look irreverente, n\u00e3o estava a fim de cal\u00e7a jeans, e nem de composi\u00e7\u00f5es comuns. Investi numa meia cal\u00e7a preta, em seguida uma saia preta, uma sand\u00e1lia rasteira fechada e tamb\u00e9m preta, mas&#8230; Uma blusa azul de manga comprida com gola interceptou a paisagem, dando aquele ar invernil, como o c\u00e9u frio de um rec\u00e9m cair da tarde, que logo fica azulado com estrelas. Um colar de linha com bot\u00f5es prateados, minha bolsa de coco da feira de artesanato se encerraram com a maquiagem laranja e azul, boca p\u00e1lida rosa claro e um rimel exagerado nos c\u00edlios. Minha m\u00e3e discreta com sua cal\u00e7a jeans azul, uma blusa preta e um batid\u00e3o no pesco\u00e7o, brincadeira, era s\u00f3 um colar prateado com medalha. Dei azul aos seus olhos, mas o \u00f3culos, como mulher de meia idade e que n\u00e3o usa lente de contato, bloqueou um pouco o sutil das sombras coloridas. N\u00e3o tinha problema. Ela continuava linda com seus olhos verdes de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos \u00e0s pressas e como quem gostaria de ter parado em todos os sinais vermelhos, insisti,<\/p>\n<p>&#8211; Pisa minha m\u00e3e, vai parar em sinal uma hora dessa para qu\u00ea? A rua est\u00e1 vazia, se n\u00e3o vier carro, passa direto.<\/p>\n<p>Mas na sinaleira da Ceplac uma fila de carros lerdos no sem\u00e1foro, s\u00f3 pra contrariar minha inspira\u00e7\u00e3o. Ainda tive que a ouvir dizer que estava certa, mas eu n\u00e3o iria entrar no m\u00e9rito nessa altura do campeonato. Estacionamos, e fomos logo para a porta de entrada. Na fila, duas passagens, pista e \u00e1rea vip, quando olhamos no ingresso, constavam \u2018\u00e1rea vip\u2019! Uau! Quanta exclusividade! Pisamos os p\u00e9s na grama da Concha Ac\u00fastica e em alto e bom som o apresentador anunciava por volta de meia noite entusiasmado:<\/p>\n<p>&#8211; Seeeeeeeeu Joooorgeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!<\/p>\n<p>&#8211; Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, fazia a plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>Euf\u00f3ricas, sa\u00edmos apressadas para frente do palco, e logo de cara v\u00edamos aquele homem negro e alto, de blusa cinza com estampa de bra\u00e7os de guitarras e baixos, tinha tamb\u00e9m viol\u00e3o na blusa dele. Uma cal\u00e7a jeans seca e b\u00e1sica, all star, \u00f3culos escuros na face e uma energia de contagiar o cora\u00e7\u00e3o. En\u00e9rgico ele chegava com sua cad\u00eancia, seu rock e sua barba. Era samba rock, fazia, um ritmo dan\u00e7ante que empurrava os p\u00e9s do ch\u00e3o para cima, com alegria ia arrancando aquela marra de algumas caras fartas, ilheenses natos.<\/p>\n<p>Ao longo do show do Seu Jorge, conhecidas letras t\u00e3o decoradas na ponta da l\u00edngua no coro da plat\u00e9ia, contaram com arranjos musicais de muito bom grado aos ouvidos. Sua voz potente chegava com toda for\u00e7a, arrepiando o fio dos cabelos de nosso corpo. Foi um show de emo\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o transbordada dos instrumentos que se espalhava no ar, no ch\u00e3o, elevando a vibra\u00e7\u00e3o de todos e das caixas de som, na dire\u00e7\u00e3o de meus ouvidos. Estes ficaram felizes com as performances dos grandes m\u00fasicos que compunham a banda, dando um show instrumental, de violino, gaita, guitarra, teclado e instrumentos de sopro, entre outros. Durante seu repert\u00f3rio, can\u00e7\u00f5es de Jorge Ben como \u201cChove Chuva\u201d e de Tim Maia \u201cCasinha de Sap\u00ea\u201d. Elas intercalaram com as suas m\u00fasicas, e outras composi\u00e7\u00f5es de marchinha ao final do show, que trouxeram toda a irrever\u00eancia e bom gosto de um m\u00fasico e de toda uma equipe de produ\u00e7\u00e3o. Eles fizeram desse 23 de abril, o s\u00e1bado de aleluia e dia de S\u00e3o Jorge, um dia mais animado para os ilheenses que assistiram a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>La pras tantas acanhadas latinhas, as pernas j\u00e1 quentes caiam na cad\u00eancia de um samba, de um pandeiro. Pandeiro discreto, mas com mandinga, marca\u00e7\u00e3o e aperreio, batia com gosto o compasso do negro, e ele me via, ele sorria, e eu distra\u00edda peguei seu olhar, ele sorrindo o meu remelexo. Em sinal positivo, balancei a cabe\u00e7a, ensaiei um samba de roda no ritmo de meus p\u00e9s. Dessassosegado, Quininho da percuss\u00e3o virou o rosto, disfar\u00e7ou o olhar indiscreto e certo.<\/p>\n<p>Encontrei com um amigo de minha m\u00e3e, amigo das antigas de fam\u00edlia, ele tinha acesso ao camarim. Vou pedi-lo para colocar-me em acesso aos artistas e vou entrevistar o Seu Jorge, mas n\u00e3o trouxe gravador, lembrei. \u201cN\u00e3o precisa de gravador, est\u00e1 tudo na mente\u201d, lembrei da m\u00e1xima de um amigo, irm\u00e3o, jornalista, ele tem bom cora\u00e7\u00e3o. A tecnologia deixa os seres humanos mais pregui\u00e7osos. E se fosse ao s\u00e9culo XV, como eu poeta, iria cobrir os concertos da corte se dependesse de mp3 para gravar?, pensei.<\/p>\n<p>Meu amigo disse que ia dar um jeito de me colocar l\u00e1 dentro, que eu o aguardasse pr\u00f3ximo do bar. Mais duas latinhas guti guti para agradar aos \u00e2nimos, fui chamada para a porta de acesso da parte interna das vans e camarim. Foi um aperta aperta, f\u00e3s se indignavam com minha presen\u00e7a, \u2018cortando a fila\u2019 entre aspas. Sou jornalista, s\u00f3 n\u00e3o tenho uma credencial, vou convencer o seguran\u00e7a; meu amigo se esfor\u00e7ava, mas n\u00e3o conseguiu logo me colocar. Empurra daqui, empurra de l\u00e1. Depois de entra e sai de pessoas que na camaradagem entravam e conseguiam transitar, pensei, \u201ceu tamb\u00e9m vou entrar\u201d. Chegou um grupo da produ\u00e7\u00e3o que veio entrando, passando e eu agachei-me, como uma crian\u00e7a peralta, cortando pernas de adultos, e de cabe\u00e7a baixa. Rompi e me saltei pra frente, j\u00e1 foi! T\u00f4 dentro! Quando logo providenciava uma caneta e um papel para anotar minhas inquietas perguntas, o seguran\u00e7a me segurava no bra\u00e7o, dizendo com veem\u00eancia que eu violei a entrada, que eu estava errada, que era pra eu retornar. Mas eu j\u00e1 dentro, com olhar de coitada, hahaha, implorava o homem pra ficar, dizendo que ia entrevistar o cantor, que estou fazendo a cobertura pro R2CPRESS, de meu tio Rabat. Ele n\u00e3o me ouvia, mas meu amigo intercessor conseguiu falar com a mulher que d\u00e1 a voz de poder, pode ficar!, ela salvou.<\/p>\n<p>No meio das graminhas frescas e verdes, observava as pessoas, inquietas, afobadas pra falar com Seu Jorge. De repente, vejo Junior Gaiato, o da gaita e do violino, parabenizei-o, ele e toda equipe pela apresenta\u00e7\u00e3o e ele me disse que \u00e9 do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo depois, meu amigo influente me chama, me coloca pra dentro, \u201cpode deixar ela entrar\u201d, falou com os seguran\u00e7as. Subi umas escadas com v\u00e1rios contra regras e cheguei ao alto do palco, olhei pros lados, mas n\u00e3o vi nenhum Jorge. Desci as escadas, e encontrei em meio a um labirinto branco, entre salas e paredes apertadas, um rasta alto e parrudo, com cara de cachorro bravo. Mas no fundo parecia inofensivo. N\u00e3o vou subestimar.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o seu nome?<\/p>\n<p>&#8211; Celso. Nu e cru respondia com secura minha despretensiosa pergunta.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo pude ver atr\u00e1s dele, uma sala com cadeiras, conversas altas e risadas, avistei o Seu Jorge com os outros integrantes da banda. Mas antes aliviei minha apertada bexiga e em passos de ovos fui em outra sala, pessoas conhecidas e ansiosas, nada mais. De volta ao dread cara de bravo, ele era uma muralha ambulante na porta da sala. Em seguida um mais simp\u00e1tico rapaz se aproximava, perguntava o que eu queria. Me apresentei, e disse que iria entrevistar o Seu Jorge quando ele pudesse, apenas 6 perguntinhas. Pediu que eu aguardasse, no momento ele me comunicaria. Paciente esperei, e ele me conduziu para uma sala, nesse emaranhado todo encontrei com Quininho, o percussionista que me olhava e dava risada. Troquei poucas palavras. Mas logo depois uma movimenta\u00e7\u00e3o agitada, pessoas falando, flashs, sorrisos e fotos. Era o Seu Jorge, puxei o Quininho para sairmos na foto.<\/p>\n<p>&#8211; Como que a gente vai sair assim, na foto dos outros?, ele queria me censurar.<\/p>\n<p>&#8211; Ah que nada, besteira, deixa isso para l\u00e1, terminando a frase sorrindo e posando do seu lado, adrenalizada.<\/p>\n<p>Todos se retiraram da sala, e o rapaz da produ\u00e7\u00e3o, Pierre, no qual educadamente atendeu meu pedido, colocou Seu Jorge sentado numa cadeira pl\u00e1stica vermelha de bar, e ao lado outra para mim, eu jamais poderia imaginar. Me apresentei, e j\u00e1 comecei a conversar. Deixei os elogios para o final \u2013 n\u00e3o lembro de tudo detalhadamente, do que ele falou exatamente, mas como \u201ctudo est\u00e1 na mente\u201d, absorvi a mensagem. Eis aqui o que se passou:<\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; \u201cPor que voc\u00ea tirou o seu dread\u201d? <\/strong>Era uma pergunta incomoda e inquieta, coisa que eu sempre quis saber, aqueles dreads dele r\u00fasticos com sua voz retumbante, uma express\u00e3o raizera.\u00a0 Mal pude acreditar quando vi o \u00edcone da MPB sem os dreads, n\u00e3o entendi nada. Lembro que foi num momento em que as Lojas Riachuelo o contrataram para sair nos seus editoriais de moda.<\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong>\u00e0 Por uma quest\u00e3o cinematogr\u00e1fica, de fotografia<\/strong>, respondeu com tranq\u00fcilidade. Seus olhos grandes se mexiam e os meus acompanhavam a dan\u00e7a de suas p\u00e1lpebras, abrindo e fechando.<\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; Poderia dizer que o samba rock \u00e9 o carro de frente do seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> A gente faz muitos trabalhos, e tem muitos trabalhos por a\u00ed, com v\u00e1rios artistas. O samba rock \u00e9 um estilo que agrada a plat\u00e9ia, que ela pede, e por isso fazemos. <\/strong><\/p>\n<p>No meu inconsciente algo me sugeria e inclinava que o samba rock teria sido uma investida da ind\u00fastria cultural da m\u00fasica, apostando no estilo para o mercado dar seus frutos e lucros. At\u00e9 citei a Maria Rita, que teria come\u00e7ado sua carreira com uma roupagem mais ex\u00f3tica, musicalmente falando, conceitual, mas que depois migrou para o samba, se afirmando no estilo e prosseguindo a carreira nessa linha.<\/p>\n<p><strong>R2 &#8211; <\/strong><strong> O samba rock teria sido uma abertura do mercado em que voc\u00eas resolveram apostar, como fez a Maria Rita? <\/strong>Manifestei meu inconsciente.<\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de mercado, n\u00e3o somos muito ligados nisso, se o p\u00fablico gosta, n\u00f3s fazemos. Temos m\u00fasicos como Jorge Ben, Jackson do Pandeiro e Roberto Carlos. <\/strong>Ele citou esses artistas, como influ\u00eancias importantes na composi\u00e7\u00e3o de sua obra e arranjos.<\/p>\n<p><strong>R2 &#8211; <\/strong><strong> Vemos que voc\u00ea apresenta em seu trabalho muitas composi\u00e7\u00f5es que abordam a quest\u00e3o social do nosso pa\u00eds, do trabalhador brasileiro, como tamb\u00e9m a m\u00fasica Brasis, que aborda nosso quadro social. Como voc\u00ea v\u00ea o Brasil de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> De uns seis anos para c\u00e1 se pode dizer que o Brasil tem experimentado um momento de desenvolvimento e vive essa fase junto com o mundo. Conseguiu melhorar muitas coisas, isso pode ser notado do lado de fora.<\/strong><\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; Por causa da pol\u00edtica internacional<\/strong>?, eu perguntei.<strong> <\/strong>Sua coloca\u00e7\u00e3o me soou cautelosa demais, logo para um cara que tem suas ra\u00edzes no morro, um discurso ponderado e pac\u00edfico, sem a mesma for\u00e7a daquela poesia \u201cNegro Drama\u201d que ele recitou no palco, que esta sim, eu sei, faz parte dele. Eu poderia estar enganada, e ele estivesse mesmo sendo o cara mais natural do mundo. Mas \u00e1spera tentei abreviar a conversa trazendo o termo \u2018pol\u00edtica\u2019 para a discuss\u00e3o, j\u00e1 que sua fala me aparentava notadamente parecida com a de homens da opini\u00e3o p\u00fablica, que zelam pela sua imagem, n\u00e3o colocam o p\u00e9 na jaca, n\u00e3o rodam a baiana, e de prefer\u00eancia agradam a todos e n\u00e3o desagradam a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> N\u00e3o s\u00f3 por causa da pol\u00edtica internacional em si, mas pelo pr\u00f3prio momento que o mundo todo vive hoje.<\/strong> <strong>Hoje muitas pessoas podem ter acesso \u00e0s novas tecnologias, o que antes sequer poderia ser imaginado o acesso desses recursos ao cidad\u00e3o comum. O Brasil tem de enfrentar ainda muitos desafios, como a educa\u00e7\u00e3o. Mas com um ritmo cont\u00ednuo de crescimento, de melhorias, do trabalho, das pessoas.<\/strong><\/p>\n<p>Sua boca grande interceptada por bigodes alheios mexia-se, seus olhos olhavam para fora, ora olhavam para mim, um pouco desconcertado numa cadeira.<\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; A m\u00fasica Hagua, um reggae, que por sinal muito agrad\u00e1vel, aborda uma quest\u00e3o que traz como ponto central a \u00e1gua no planeta e sua escassez. Voc\u00ea v\u00ea isso realmente como uma necessidade de conscientiza\u00e7\u00e3o em que as pessoas precisam acordar e se dar conta? O que mais o inspirou para colocar essa m\u00fasica no seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> A m\u00fasica fala por si. A letra \u00e9 de um grande compositor, Gabriel Moura, e carrega uma poesia que tem uma raz\u00e3o importante para a humanidade, a \u00e1gua. Musicalmente falando, ela foi muito bem trabalhada por todos que participaram do arranjo, que resultou numa composi\u00e7\u00e3o muito boa.<\/strong><\/p>\n<p>Eu tinha que prestar aten\u00e7\u00e3o em muitas coisas. Na suas palavras de respostas, na sua voz, na sua for\u00e7a. \u00c9 impetuosa, imponente, mas \u00e9 boa. Voz que consola, de cantos negros, de guetos, voz gostosa. E seus olhos, meio frios, ora arredios, desconfiados. S\u00e3o largos, espalhados, parecem que d\u00e3o um giro 360 graus e enxergam do outro lado, da cabe\u00e7a. \u00c0s vezes s\u00e3o rasos. Mas eu vi humanidade dentro deles, ainda que velados. Sei que \u201cl\u00e1 fora\u201d \u00e9 uma coisa, mas aqui dentro, de si, dele mesmo, tem muito mais, em profundidade de ess\u00eancia. A m\u00eddia, a fotografia, o filme, ou at\u00e9 a poesia, n\u00e3o vai poder expressar a verdade que tem dentro das pessoas, ainda mais quando essas pessoas s\u00e3o p\u00fablicas, l\u00fadicas e retalhadas. Mas eu senti alguma coisa dele.<\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; Tem uma m\u00fasica sua, \u201cMangueira\u201d, que traz uma abordagem desse contexto social no Rio de Janeiro, das favelas. O que voc\u00ea tem a dizer a respeito da participa\u00e7\u00e3o mais enf\u00e1tica do Estado com a pol\u00edcia se inserindo nas favelas do Rio, no combate ao tr\u00e1fico de drogas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> \u00c9 uma nova opera\u00e7\u00e3o experimentada pelo Estado-<\/strong> ele falava pausadamente-,<strong> em que a seguran\u00e7a \u00e9 o que se busca. O importante \u00e9 que o povo brasileiro seja respeitado nos seus direitos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; Em contexto semelhante, voc\u00ea participou do filme Tropa de Elite 2, que assumiu um personagem inserido num cen\u00e1rio de conflitos e caos. Isso mostra um pouco de nossa vis\u00e3o de mundo, o papel dos personagens que interpretamos e vestimos, nos apropriando de determinados discursos. <\/strong>&#8211;<strong> <\/strong>N\u00e3o teve jeito, nessa hora eu meti o bedelho expondo meu ponto de vista e tentando extrair mais sobre a alma de Seu Jorge, de sua ess\u00eancia, de sua raiz. N\u00e3o contei conversa e fui l\u00e1 e soltei o verbo mesmo, sem ressentimentos, tentando o instigar. <strong>Como foi para voc\u00ea participar dessa produ\u00e7\u00e3o?, a ultima pergunta j\u00e1 cantava em minha voz tons de despedida.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> Foi muito bom. Toda a equipe se envolveu, o diretor, todos juntos nos reunimos e planejamos a execu\u00e7\u00e3o do trabalho, em que pudemos participar mais contribuindo nos processos das cenas, um trabalho em que todos se envolveram e foi muito positivo. \u00c9 um filme que, assim como Cidade de Deus, participei e at\u00e9 hoje est\u00e1 a\u00ed presente e sendo assistido.<\/strong><\/p>\n<p>No final, ele ainda ressoou algumas id\u00e9ias, e observei que ele p\u00f4de perceber que at\u00e9 ent\u00e3o, ante eu jornalista, dentro de um sistema cruel, sou um ser humano e estava desarmada com o cora\u00e7\u00e3o nos olhos dele, querendo encontrar o que o cora\u00e7\u00e3o dele tinha para dizer. N\u00e3o queria que o receio das pretens\u00f5es maldosas de certos jornalistas, embarreirassem a espontaneidade e seu verdadeiro ponto de vista. Infelizmente muitos mass media hoje usam o discurso de pessoas p\u00fablicas e artistas com quest\u00f5es pol\u00eamicas para sensacionalizar um fato, e com as respostas obtidas exp\u00f5em a imagem dessas pessoas na opini\u00e3o p\u00fablica. O que n\u00e3o \u00e9 meu caso, claro. Mas nesse mundo redondinho, vou utilizar a express\u00e3o de uma de suas m\u00fasicas, \u201co que n\u00e3o falta \u00e9 tatu, pra me levar pro buraco\u201d.<\/p>\n<p><strong>R2 <\/strong><strong>&#8211; Quero agradecer a aten\u00e7\u00e3o que voc\u00ea disp\u00f4s a mim aqui nesse momento, te agradecer imensamente por ter me recebido e gostaria de parabenizar a voc\u00ea e toda a sua equipe, como comunidade ilheense, pelo trabalho e pelo show. E que apesar da linguagem sist\u00eamica que \u00e0s vezes se apropria dos nossos discursos, digo que independente disso, admiro seu trabalho como artista, como ser humano, que tem uma energia muito boa no palco, suas letras, m\u00fasicas, que conseguem envolver a todos com sua arte. Por favor, um abra\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p>Ele balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, consentido sereno as minhas palavras, com muita educa\u00e7\u00e3o e humildade. Nos abra\u00e7amos, eu pequenina, pairava seu peito, meus bra\u00e7os entrecruzaram suas costelas e trap\u00e9zio alto, e ele com seus bra\u00e7os compridos se apoiavam em meu pequenino maci\u00e7o corpo. Mas meu cora\u00e7\u00e3o falou pro dele, ai ele sentiu, ai disse:<\/p>\n<p><strong>Seu Jorge <\/strong><strong> O resultado de tudo isso est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 a constru\u00e7\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p>Era como quem queria dar palavras de consolo a mim, que em perguntas educadas, eu gritava esbravejando e implorava contidamente para que ele expressasse em suas respostas o seu real sentimento, de nossa realidade social brasileira. Sua resposta, no entanto, me consolou, e me comunicou que entendia o que eu queria saber, ouvir. Mas me transmitiu em mensagem subliminar tamb\u00e9m, que nem tudo precisa ser dito. Aquilo foi suficiente, sua cautela foi perdoada embora eu quisesse que ele rasgasse o cora\u00e7\u00e3o. Tudo est\u00e1 mesmo em constru\u00e7\u00e3o, o mundo n\u00f3s fazemos, n\u00f3s vivemos. O amanh\u00e3 realizamos hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Seu Jorge numa \u00f3tica impetuosa A experi\u00eancia aventurosa de uma jornalista sem credencial, com sua narrativa l\u00fadica em forma de conto, sobre o Show do Seu Jorge e a inspirada entrevista com ele, no s\u00e1bado (23) em Ilh\u00e9us. 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