{"id":16869,"date":"2011-06-03T20:47:48","date_gmt":"2011-06-03T23:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=16869"},"modified":"2011-06-03T20:47:48","modified_gmt":"2011-06-03T23:47:48","slug":"marli-goncalves-em-voltas-de-saturno-rugas-e-pregas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/06\/03\/marli-goncalves-em-voltas-de-saturno-rugas-e-pregas\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Voltas de Saturno, rugas e pregas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Como agora est\u00e1 bem na moda, l\u00e1 vou eu  marchando em dire\u00e7\u00e3o a mais uma volta da roda-gigante, mais um upa-upa  do bicho da seda, para mais uns trancos do carrinho el\u00e9trico. No parque  de divers\u00f5es de nossas vidas, o chicote maluco nos a\u00e7oita. Mas a gente  marcha, decidido. Assim marcha, nada, voa, aterrissa e caminha a  humanidade e a nossa exist\u00eancia.<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Peguei a crista da onda alta e fui. Embora no meio de  uma selva urbana, onde deveria mais \u00e9 pensar em saf\u00e1ri, essa imagem de  surfista tem frequentado muito minha cabe\u00e7a ultimamente. Ficar por ali,  por perto, na areia ou dentro da \u00e1gua, s\u00f3 na espreita, de butuca. Olhar o  c\u00e9u, o vento, as condi\u00e7\u00f5es, forma\u00e7\u00f5es e informa\u00e7\u00f5es. Sempre pronta a  correr e pegar a chance, deslizar, ver no que vai dar. At\u00e9 sempre chegar  \u00e0 areia de novo e tentar voltar para mais uma, muitas vezes esfolada e  sem qualquer prancha para segurar.<\/p>\n<p>Mas agora \u00e9 um novo barato o que est\u00e1 na onda: marchas. Tudo \u00e9 marcha,  marchar, percebeu? Pelas liberdades, pela pamonha, das vagabundas, das  boazinhas e boazudas, para Jesus, por Jesus. Da fam\u00edlia, dos  desconsiderados, a favor disso, contra aquilo. Das mulheres, de homens,  de gays, ou do contra. Sempre achei doido o ciclo das modas, que catam  palavras e as usam at\u00e9 exauri-las, esvazi\u00e1-las, e depois as abandonar,  gastas e inertes, sem sentido.<\/p>\n<p>J\u00e1 foram passeatas. Paradas. Mobiliza\u00e7\u00f5es. Agrupamentos. Agora s\u00e3o  marchas. N\u00e3o sei como come\u00e7ou, nem quando vai parar. E temo um pouco  essa coisa militar de passos fortes e unidos em bloco, avan\u00e7ando em  alguma dire\u00e7\u00e3o, marchando, fazendo tremer o ch\u00e3o. Sempre me parece  agressivo, uma coisa de campo de batalha, de confronto. A primeira vez  que ouvi falar de uma marcha foi a tal dos 100 mil dos anos 60; deu no  que deu.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mas eu era pequenina e n\u00e3o sabia nada. S\u00f3 sentia a tens\u00e3o, a censura  quando me mandavam n\u00e3o falar de certas coisas fora de casa. Sempre tive  olhos grandes, quase maiores que a cara, que piscavam, sempre captando,  lado a lado dos ouvidos. Assim fui indo, ouvindo os tiros da guerra  contra as guerrilhas urbanas. \u00c0s vezes via &#8211; como vi o corpo de  Marighela, morto a poucos metros de onde morava. Ou s\u00f3 sabia, com amigos  que jamais veria novamente. Ouvia o rock e, em paralelo, as palavras de  ordem que ainda hoje se mant\u00eam permeando o tempo &#8211; o povo unido, jamais  ser\u00e1 vencido.  \u00c9 um. \u00c9 dois. Quatro, cinco, mil. Vamos lutar pelo  futuro do Brasil. Foi dessa massa que saiu o bolinho que sou &#8211; soprando  velas ano ap\u00f3s ano no pa\u00eds que ainda est\u00e1 l\u00e1 no Futuro. Um misto quente  de marxismo, ideais, rebeldias, feminismo, jornalismo, ao som de uma  trilha sonora digna de uma R\u00e1dio Rock, de Kiss FM.<\/p>\n<p>Trancos e barrancos depois,  venci desafios, superei medos, pus o p\u00e9 no  ch\u00e3o e fui. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m perdi disputas, ganhei muitos novos  medos, e em v\u00e1rios momentos fiquei parada, estancada, aguentando. Lutei  contra a morte diretamente, a minha, que venci pelo menos at\u00e9 agora;  perdi a de minha m\u00e3e, a de muitos amigos. Assim, envelhe\u00e7o na cidade  como diz a m\u00fasica de Scandurra. <em>Mais um ano que se passa\/ Mais um ano  sem voc\u00ea\/J\u00e1 n\u00e3o tenho a mesma idade\/ Envelhe\u00e7o na cidade\/Essa vida \u00e9  jogo r\u00e1pido\/Para mim ou pra voc\u00ea\/Mais um ano que se passa\/Eu n\u00e3o sei o  que fazer&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Sou do s\u00e9culo passado. Do ano bom e marcante de 1958. 53 outros se  passaram e,  no meio deles, quando momentos e fatos me obrigaram a  amadurecer, hoje lembro perfeitamente de um dia l\u00e1 atr\u00e1s no qual pensei  onde estaria hoje, o dobro, depois. Estou no mesmo lugar enquanto, como  diriam os astr\u00f3logos, por duas vezes Saturno desfilou seus an\u00e9is,  dois  ciclos quase que completos, em seu vagaroso andar de planeta lento.  Esse, Saturno, que n\u00e3o marcha; se arrasta.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa ser m\u00edstico para entender. Nos <em>vinte e pouco<\/em> tomamos um &#8220;boeing&#8221; na cabe\u00e7a; nos <em>cinquentinha<\/em> come\u00e7amos a procurar os motivos para tudo que aconteceu, onde nossos  pneuzinhos passaram, o que nos marcou a face, os dentes perdidos, as  dores que lamentamos. E depois, creio, os <em>setentinha<\/em>, liberadores, como ouvi de Ney Matogrosso. <em>&#8220;Eu posso tudo agora&#8221;<\/em>,  ele disse, em uma s\u00edntese de liberdade invej\u00e1vel de falar, fazer e  acontecer. De &#8220;estar podendo&#8221;. Quem dera. Quero assim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Chego l\u00e1.  Sem marchas nupciais. Em marcha atl\u00e9tica, que atr\u00e1s vem gente. E que Deus me ajude!<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong> S\u00e3o Paulo, olho no contador de quil\u00f4metros rodados, 2011<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">(*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>. <em> Como o vinho. Como o whisky. Como a pr\u00e1tica, a sabedoria, os calos, as  rugas e, sim, como algumas pregas. As de minha l\u00edngua e do meu  pensamento est\u00e3o se soltando cada dia mais. Pensou o qu\u00ea? <\/em><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como agora est\u00e1 bem na moda, l\u00e1 vou eu marchando em dire\u00e7\u00e3o a mais uma volta da roda-gigante, mais um upa-upa do bicho da seda, para mais uns trancos do carrinho el\u00e9trico. No parque de divers\u00f5es de nossas vidas, o chicote maluco nos a\u00e7oita. Mas a gente marcha, decidido. 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