{"id":17354,"date":"2011-06-10T07:39:31","date_gmt":"2011-06-10T10:39:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=17354"},"modified":"2011-06-10T07:39:31","modified_gmt":"2011-06-10T10:39:31","slug":"os-coroneis-do-cacau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/06\/10\/os-coroneis-do-cacau\/","title":{"rendered":"Os Coron\u00e9is do Cacau"},"content":{"rendered":"<p><div id=\"attachment_17355\" style=\"width: 176px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/ciro-de-mattos.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-17355\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/ciro-de-mattos.jpg\" alt=\"\" title=\"ciro de mattos\" width=\"166\" height=\"250\" class=\"size-full wp-image-17355\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17355\" class=\"wp-caption-text\">Cyro de Mattos<\/p><\/div>A regi\u00e3o cacaueira baiana vem se prestando de uns anos para c\u00e1 a estudos de historiadores e soci\u00f3logos. Nota-se a essa altura  uma bibliografia que preenche lacunas e torna mais amplo o conhecimento sobre a Bahia. A historiografia  da Bahia sempre privilegiou Salvador e o Rec\u00f4ncavo, deixando de lado um de seus cap\u00edtulos importantes localizado no sul da Bahia, regi\u00e3o outrora de ricas planta\u00e7\u00f5es de cacau. <\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Gustavo Falc\u00f3n entende que o coronelismo como manifesta\u00e7\u00e3o singular do poder privado no Brasil lastreia-se  nas origens patrimonialistas do Estado nacional. Foi gestado em tempos coloniais e alcan\u00e7ou o ponto m\u00e1ximo na Rep\u00fablica Velha. Tomou curso em nosso regime federativo, que requeria pretensa base representativa para consolida\u00e7\u00e3o de um fato social revestido de conte\u00fado econ\u00f4mico e pol\u00edtico.  <\/p>\n<p>O coronelismo sobreviveria depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 30, conservando em seu raio de a\u00e7\u00e3o social, entre outros elementos configuradores, o clientelismo, a falsifica\u00e7\u00e3o de votos e o filhotismo. Fixava suas bases no territ\u00f3rio de Ilh\u00e9us quando o munic\u00edpio era o maior produtor de cacau no sul da Bahia. Reunia  durante a Rep\u00fablica Velha,   para se  consolidar no mandonismo local, tr\u00eas elementos essenciais ao controle do poder: a for\u00e7a econ\u00f4mica, o prest\u00edgio pol\u00edtico e a viol\u00eancia. <\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p> Gustavo Falc\u00f3n analisa, de maneira sistem\u00e1tica, o tema do coronelismo em \u201cOs Coron\u00e9is do Cacau\u201d. Emite reflex\u00f5es  argutas de soci\u00f3logo moderno que faltava  para apreender com efici\u00eancia as rela\u00e7\u00f5es de concilia\u00e7\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o entre o poder p\u00fablico e o poder privado com base no familismo. As rela\u00e7\u00f5es desse familismo v\u00e3o ser delineadas pelo eixo irredut\u00edvel da unidade produtiva da propriedade rural, fator importante  que lhe d\u00e1 fisionomia no  plano social. Classe poderosa, detentora dos meios de produ\u00e7\u00e3o de uma lavoura que sustentava  despesas do Estado, sempre ensejou a pergunta por que  como fra\u00e7\u00e3o mais forte da classe rica da Bahia at\u00e9 1930 nunca se imp\u00f4s no sistema estadual de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com uma postura homog\u00eanea. Com base em pesquisa criteriosa, munido do m\u00e9todo dial\u00e9tico para ligar o pensamento aos fatos,   Gustavo Falc\u00f3n indaga se a acomoda\u00e7\u00e3o com a estrutura conservadora do poder olig\u00e1rquico estadual teria resultado em refor\u00e7o e garantia para a burguesia cacaueira fazer prevalecer os interesses fundamentais numa zona de riqueza, cobi\u00e7a e morte. <\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do soci\u00f3logo \u00e9 clara ao analisar a a\u00e7\u00e3o social imbricada na economia regional, o modo de produ\u00e7\u00e3o e o est\u00e1gio do desenvolvimento capitalista. Recorre \u00e0 periodiza\u00e7\u00e3o do coronelismo em Ilh\u00e9us para observar que conflitos intra-regionais no munic\u00edpio n\u00e3o permitiam a perman\u00eancia duradoura no poder, favorecendo  um sucess\u00e3o de chefes regionais. Ilh\u00e9us com o seu dinamismo centrado em uma  economia rural  facilitava a aquisi\u00e7\u00e3o  de riqueza, quase sempre r\u00e1pida, levando esse fator a grandes tens\u00f5es e conflitos abertos, gerados pela posse da terra. Quando se detecta a burguesia agr\u00e1ria do cacau nas origens com outras fra\u00e7\u00f5es de classes dominadoras da Bahia, o que pode ser visto na luta em torno do mandonismo local \u00e9 a muta\u00e7\u00e3o  das disputas de conte\u00fado  econ\u00f4mico para as partid\u00e1rias e eleitoreiras.<\/p>\n<p>Na \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica \u00e0 Sociologia Brasileira\u201d, Guerreiro Ramos assinala que \u201ca a\u00e7\u00e3o social sobre as condi\u00e7\u00f5es objetivas das estruturas nacionais e regionais n\u00e3o deve obedecer a arqu\u00e9tipos ou a modelos considerados excelentes em si mesmos, mas deve emergir, de modo din\u00e2mico, das rela\u00e7\u00f5es entre o pensamento e os fatos\u201d. Em sua an\u00e1lise de cientista social sobre a burguesia cacaueira em Ilh\u00e9us, Gustavo Falc\u00f3n demonstra capacidade de reflex\u00e3o aliada \u00e0 pesquisa emp\u00edrica, lucidez \u00e0 compreens\u00e3o das pessoas e os fatos, mergulho preciso  na hist\u00f3ria com suas particularidades regionais. \u00c0 luz da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sem ser pedante e pesado em seu instrumental te\u00f3rico aplicado ao social, desvenda  aspectos importantes de um ambiente  t\u00edpico t\u00e3o bem  retratado nos romances de Jorge Amado.   <\/p>\n<p>O autor se mant\u00e9m com neutralidade  axiol\u00f3gica e se serve do m\u00e9todo dial\u00e9tico  para desenvolver o tema objeto de seu estudo. Distante de ser  ufanista e tendencioso,   provinciano e detalhista curioso, analisa pessoas ligadas aos fatos n\u00e3o para o elogio dos que se tornaram donos do poder no contexto econ\u00f4mico, v\u00e1rios  deles Deus sabe como, mas para ser aut\u00eantico, coerente e verdadeiro com a  regi\u00e3o cacaueira baiana, que forjou ao longo dos anos uma civiliza\u00e7\u00e3o singular no plano social e hist\u00f3rico.   <\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n*Cyro de Mattos \u00e9 autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Itabunense de Cultura e Cidadania. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A regi\u00e3o cacaueira baiana vem se prestando de uns anos para c\u00e1 a estudos de historiadores e soci\u00f3logos. Nota-se a essa altura uma bibliografia que preenche lacunas e torna mais amplo o conhecimento sobre a Bahia. 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