{"id":18142,"date":"2011-06-21T08:13:37","date_gmt":"2011-06-21T11:13:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=18142"},"modified":"2011-06-21T08:14:21","modified_gmt":"2011-06-21T11:14:21","slug":"uma-geracao-de-estranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/06\/21\/uma-geracao-de-estranhos\/","title":{"rendered":"Uma gera\u00e7\u00e3o de estranhos."},"content":{"rendered":"<p><em><strong> Os seres humanos modernos n\u00e3o est\u00e3o mais acostumados a viver na natureza: s\u00f3 conhecem a cidade.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Umberto Eco<\/strong><\/p>\n<p>Creio que Michel Serres tem a melhor cabe\u00e7a filos\u00f3fica que h\u00e1 na Fran\u00e7a hoje em dia. E como todo  bom fil\u00f3sofo, Serres \u00e9 capaz de refletir sobre os temas atuais t\u00e3o bem quanto sobre os fatos  hist\u00f3ricos. Vou basear descaradamente esta coluna no espl\u00eandido ensaio que Serres escreveu  no m\u00eas passado para o &#8220;Le Monde&#8221;, no qual nos alerta sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0 juventude atual: os filhos de meus leitores jovens e os netos de n\u00f3s mesmos, os velhos.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, a maioria desses filhos ou netos nunca viu um porco, uma vaca ou uma galinha \u2013 observa\u00e7\u00e3o que me faz lembrar uma pesquisa feita h\u00e1 cerca de 30 anos nos Estados Unidos. Ela  mostrou que a maioria das crian\u00e7as de Nova York achava que o leite, que elas viam em recipientes  sendo vendido nos supermercados, era um produto fabricado pelo homem, tal como a Coca-Cola.<\/p>\n<p>Os seres  humanos modernos n\u00e3o est\u00e3o mais acostumados a viver na natureza: s\u00f3 conhecem a cidade. Eu tamb\u00e9m  gostaria de assinalar que ao sair de f\u00e9rias, a maioria deles se hospeda no que o antrop\u00f3logo  Marc Aug\u00e9 definiu como &#8220;n\u00e3o lugares&#8221;: espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o, consumo e comunica\u00e7\u00e3o  homogeneizados.<\/p>\n<p>As vilas dos resorts s\u00e3o impressionantemente parecidas, digamos, ao aeroporto  de Cingapura \u2013 cada um deles com uma natureza perfeitamente ordenada e limpa, \u00e1rcade, totalmente  artificial.<\/p>\n<p>Estamos no meio de uma das maiores revolu\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas desde a Era Neol\u00edtica.  As crian\u00e7as de hoje vivem em um mundo superpovoado, com uma expectativa de vida pr\u00f3xima dos 80  anos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>E, por causa da crescente longevidade das gera\u00e7\u00f5es de seus pais e av\u00f3s, t\u00eam menos  probabilidade de receber as suas heran\u00e7as antes que estejam \u00e0 beira da velhice. Uma pessoa nascida na Europa nos \u00faltimos 60 anos n\u00e3o conheceu a guerra. E, tendo se beneficiado  dos avan\u00e7os da medicina, n\u00e3o sofreu tanto quanto seus antepassados.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o de seus pais teve  filhos quando tinham mais idade do que a gera\u00e7\u00e3o de meus pais teve. E seus pais, muito  possivelmente est\u00e3o divorciados. Na escola, estudou ao lado de crian\u00e7as de outras cores,  religi\u00f5es e costumes.<br \/>\nIsso levou Serres a se perguntar quanto tempo mais os estudantes da Fran\u00e7a  cantar\u00e3o a Marselhesa, que cont\u00e9m uma refer\u00eancia ao &#8220;sangue impuro&#8221; dos estrangeiros.<\/p>\n<p>Que obras essa pessoa pode desfrutar? E com quais ela consegue estabelecer uma conex\u00e3o, j\u00e1 que  nunca conheceram a vida r\u00fastica, a vindima das uvas, as invas\u00f5es militares, os monumentos aos  mortos, os estandartes perfurados por  balas inimigas ou a urg\u00eancia vital da moralidade?<\/p>\n<p>Seu pensamento foi formado por meios de comunica\u00e7\u00e3o que reduzem a perman\u00eancia de um fato a uma  pequena frase e a imagens fugazes \u2013 fi\u00e9is ao senso comum dos lapsos de aten\u00e7\u00e3o de sete segundos \u2013 lembrando que as respostas dos programas de perguntas devem ser dadas em 15 segundos.<br \/>\nE esses meios de comunica\u00e7\u00e3o lhe mostram coisas que n\u00e3o veria em sua vida cotidiana: corpos ensanguentados,  ru\u00ednas, devasta\u00e7\u00e3o. &#8220;Ao chegar aos 12 anos de idade, os adultos j\u00e1 for\u00e7aram as crian\u00e7as a serem  testemunhas de 20 mil assassinatos&#8221;, escreve Serres.  As crian\u00e7as atuais s\u00e3o criadas com publicidades repletas de abrevia\u00e7\u00f5es e palavras estrangeiras  que as fazem perder contato com sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>A escola j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um lugar de  aprendizado e, acostumadas aos computadores, elas vivem uma boa parte de sua exist\u00eancia no mundo  virtual. Ao escrever em seus aparelhos eletr\u00f4nicos usam seus dedos indicadores ou polegares em  vez da m\u00e3o toda. (E, al\u00e9m disso, est\u00e3o totalmente consumidas pelo af\u00e3 de desenvolver v\u00e1rias  tarefas ao mesmo tempo).<\/p>\n<p>Elas ficam sentadas, hipnotizadas pelo Facebook e pela Wikipedia, que, segundo Ferres, &#8220;n\u00e3o  estimulam os mesmos neur\u00f4nios nem as mesmas zonas do c\u00f3rtex (cerebral)&#8221; que se estivessem lendo  um livro.<\/p>\n<p>Antes, os seres humanos viviam em um mundo conhec\u00edvel, tang\u00edvel. Esta gera\u00e7\u00e3o existe em  um espa\u00e7o virtual, que n\u00e3o estabelece distin\u00e7\u00e3o entre proximidade e dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o comentarei as reflex\u00f5es de Serres sobre como manejar as  novas demandas de educa\u00e7\u00e3o. Mas sua  observa\u00e7\u00e3o geral do tema engloba um per\u00edodo de revolu\u00e7\u00e3o total n\u00e3o menos essencial que as eras  que levaram \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da escrita e, s\u00e9culos depois, da imprensa.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a  tecnologia moderna muda a uma velocidade louca, escreve Serres, e &#8220;ao mesmo tempo o corpo se  transfigurou, o nascimento e a morte mudaram, bem como o sofrimento e a cura, as voca\u00e7\u00f5es, o  espa\u00e7o, o meio ambiente e o estar no mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o est\u00e1vamos preparados para essa revolu\u00e7\u00e3o? Serres chega \u00e0 conclus\u00e3o que talvez parte  da culpa deva ser atribu\u00edda aos fil\u00f3sofos, que, por natureza de sua profiss\u00e3o, deveriam prever  mudan\u00e7as no conhecimento e na pr\u00e1tica. E n\u00e3o fizeram o suficiente nesse sentido porque, como  estavam &#8220;envolvidos na pol\u00edtica diariamente, n\u00e3o sentiram a chegada da contemporaneidade&#8221;.  N\u00e3o sei se Serres est\u00e1 completamente certo, mas com certeza n\u00e3o est\u00e1 totalmente errado.<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n(Transcrito do Di\u00e1rio do Com\u00e9rcio, com tradu\u00e7\u00e3o de Rodrigo Garcia)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os seres humanos modernos n\u00e3o est\u00e3o mais acostumados a viver na natureza: s\u00f3 conhecem a cidade. Umberto Eco Creio que Michel Serres tem a melhor cabe\u00e7a filos\u00f3fica que h\u00e1 na Fran\u00e7a hoje em dia. 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