{"id":20091,"date":"2011-07-18T11:35:43","date_gmt":"2011-07-18T14:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=20091"},"modified":"2011-07-18T11:35:43","modified_gmt":"2011-07-18T14:35:43","slug":"marli-goncalves-em-levantar-e-sacudir-o-acampamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/07\/18\/marli-goncalves-em-levantar-e-sacudir-o-acampamento\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Levantar e sacudir o acampamento"},"content":{"rendered":"<p><center><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Existem v\u00e1rias express\u00f5es corriqueiras que vamos usando na vida, mas s\u00f3 de vez em quando elas fazem realmente algum sentido. Tem quem arme a barraca; tem quem levante acampamento. Como n\u00e3o pude decidir, vou levantar. E armar minha barraquinha em outro lugar, mudar o meu lar. <\/em><\/span><\/center><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Estavam quietinhas, tranquilas, acomodadas, algumas at\u00e9 curtindo o esquecimento. Cada coisa tinha l\u00e1 seu lugar. Ou dormitavam em em meio ao caos, com outro montinho de coisas socadas em cima, empilhadas em gavetas, prateleiras, debaixo de pias, extraviadinhas junto com extraviadinhos. H\u00e1 dois anos e meio elas tinham sido organizadas, revistas, espanadas, arquivadas, postas em caixas. Depois que chegaram, foram repostas em outras gavetas, de outros arm\u00e1rios. Toda uma nova organiza\u00e7\u00e3o. E agora l\u00e1 v\u00e3o serem movimentadas de novo. Imagine. Se a gente muda de <em>querer<\/em> de um dia para o outro, o que dizer de depois de dois anos e meio? Fico at\u00e9 ansiosa pelo resultado. Assim, nesse levantar e rearmar de mais uma mudan\u00e7a, saberei mais de mim mesma &#8211; do que continua importante ou ser\u00e1 desprez\u00edvel. Uma esp\u00e9cie de tecla <em>&#8220;Atualizar&#8221;<\/em>, <strong>F5<\/strong>. <strong><em>Refresh<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Uma nova hierarquia se sobrep\u00f5e. De novo o que era da sala poder\u00e1 ir parar l\u00e1 no quarto, e o quadro da parede far\u00e1 companhia a alguma outra imagem distante. H\u00e1 quem chame de releitura. Eu chamo de reciclagem e reaproveitamento total das possibilidades, dentro delas, sempre com o mesmo rol de coisas, hoje apenas ainda mais gastas. \u00c9 o que d\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\"><!--more--><\/p>\n<p>Por mais que ame a vida cigana h\u00e1 uma coisa que n\u00e3o assimilei nunca: o nomadismo. N\u00e3o gosto de mudar. Mas quem pode, pode. Quem n\u00e3o pode se sacode: eu vivo em im\u00f3veis alugados. Fico igual ao p\u00f3 debaixo das batidas do espanador: no ar, voando por a\u00ed. Queria poder voar em tapetes m\u00e1gicos, mas enfim n\u00e3o deixa de ser: os meus tapetes ser\u00e3o m\u00e1gicos porque ser\u00e3o esticados para tampar pequenos problemas e outras marcas. N\u00e3o jogo sujeira debaixo deles.<\/p>\n<p>Mudar \u00e9 bom, mas podia haver um teletransporte. Preciso me acostumar \u00e0 anarquista id\u00e9ia de que &#8220;minha p\u00e1tria s\u00e3o meus p\u00e9s&#8221;, mas como? Minhas tranqueirinhas, o pouco do muito que tenho, precisam me acompanhar. Se eu j\u00e1 tenho vontade de levar algumas delas se resolvo ir s\u00f3 at\u00e9 ali em um fim de semana, dentro da(s) mala(s)! Imagine a dificuldade de deix\u00e1-las para tr\u00e1s, na estrada, se cada uma traz uma hist\u00f3ria, o registro de um tempo, de uma pessoa, de uma alegria ou de uma tristeza; de um sacrif\u00edcio, de uma paix\u00e3o, ou de uma paix\u00e3o sacrificada que gerou este ou aquele objeto. Fora a roupinha. Pode ser uma linda, ou s\u00f3 aquela camiseta que hoje at\u00e9 j\u00e1 poderia ter virado um trapo digno de pano de ch\u00e3o, mas n\u00e3o &#8211; virou imortal, talvez por ter sido &#8220;testemunha&#8221; ocular de alguma boa. Todas n\u00f3s temos um &#8220;vestido azul&#8221; como o da Monica, aquela, a Lewinsky, a do Clinton.<\/p>\n<p>Escrevi alguns textos sobre isso tudo, esse <em>mover<\/em> &#8211; entre os que mais gosto est\u00e1 o Mexe, remexe, espanta fantasmas, de janeiro de 2009, que at\u00e9 reli h\u00e1 pouco. Porque sei que tudo vai acontecer de novo. Vou mexer e remexer. Decidir o que vai continuar comigo nesta mochila. Tenho pouco tempo mais uma vez. Precisarei de muitas caixas, que come\u00e7o a catar por a\u00ed. Quando come\u00e7ar a levantar o acampamento de vez &#8211; e ainda n\u00e3o sei por onde &#8211; vai ser at\u00e9 o fim. Toda a energia voltada para este canal.<\/p>\n<p>Mas primeiro \u00e9 preciso aplainar o terreno onde ele ser\u00e1 armado mais adiante, com barraca e tudo, que precisarei fincar. Isso custa um tanto, e integra o que ando chamando de planejamento mental. Primeiro, organizar tudo na cabe\u00e7a. Depois, na ponta do l\u00e1pis, torcendo para a ponta n\u00e3o quebrar, nem a calculadora causar depress\u00e3o. \u00c9 uma atividade contemplativa, da imagina\u00e7\u00e3o, que usa a capacidade de desenhar o nada instalando tudo. Tenho acordado de noite, e sempre nos sonhos do sono estava carregando alguma coisa de um lado para outro. Na \u00faltima me toquei que talvez tenha de improvisar um lugar para por a lou\u00e7a, a lou\u00e7a que quebra. Qual \u00e9? Pensa que eu n\u00e3o tenho enxoval?<\/p>\n<p>Tem as cores. Que cores ter\u00e3o as paredes, o teto? J\u00e1 brincaram com os simuladores virtuais que existem na internet? Enlouquecedores. E h\u00e1 o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 as plantas. As plantas necessitam de aten\u00e7\u00e3o e bate-papo &#8211; elas t\u00eam sentimentos e n\u00e3o podem ser transportadas como se fosse qualquer coisa. J\u00e1 iniciei conversa\u00e7\u00f5es, e prometi que ficariam bem e que seremos felizes onde quer que estejamos juntas.<\/p>\n<p>H\u00e1 as roupas. De cama, mesa, banho e de gente. Minha casa faz lembrar o pantanal, tal o n\u00famero de araras. Fora os sapatos. E as desajeitadas botas, que ainda n\u00e3o vi ningu\u00e9m ter como resolver sua log\u00edstica. Fora bolsas, chap\u00e9us(!), o bibibi e o bobob\u00f3.<\/p>\n<p>E h\u00e1 os pap\u00e9is, muitos, as pastas, os livros, os discos (sim!), as fitas (K7, sim!), os CDs, DVDs. H\u00e1 as m\u00e1quinas &#8211; de tocar m\u00fasica, de lavar, de fazer comida, de limpar, de gelar, de sintonizar. Fora as vassouras, as p\u00e1s e todos os seus esquadr\u00f5es &#8211; os produtos limpadores de sujeiras leves e pesadas, de gorduras, de limo, de brilhar, lavar e perfumar. Nos banheiros, ainda precisam ser instalados os produtos de brilhar, lavar e perfumar a gente, nosso corpinho. De maquiar. E de cuidar de nossos dentes.<\/p>\n<p>Dizem que os \u00edndios vivem com no m\u00e1ximo cem itens. Sou descendente deles, mas n\u00e3o me passaram seus dotes e eu n\u00e3o posso (e n\u00e3o sei) viver de tanga.<\/p>\n<p><center><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong> S\u00e3o Paulo, em movimento, julho de 2011<\/strong><\/em><\/span><\/center><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">(*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>. <strong> Pelo menos j\u00e1 decidiu o tema e o nome do seu pr\u00f3ximo lar. Meu buraquinho ser\u00e1 a &#8220;Casa da \u00c1rvore&#8221;, um ninho, feito com trancos e troncos, algumas plumas. Onde eu possa plantar meus amigos; e me proteger dos inimigos. Camuflada.<\/strong><strong>.<\/p>\n<p><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem v\u00e1rias express\u00f5es corriqueiras que vamos usando na vida, mas s\u00f3 de vez em quando elas fazem realmente algum sentido. Tem quem arme a barraca; tem quem levante acampamento. Como n\u00e3o pude decidir, vou levantar. E armar minha barraquinha em outro lugar, mudar o meu lar. Estavam quietinhas, tranquilas, acomodadas, algumas at\u00e9 curtindo o esquecimento. 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