{"id":20443,"date":"2011-07-23T12:04:37","date_gmt":"2011-07-23T15:04:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=20443"},"modified":"2011-07-23T12:04:37","modified_gmt":"2011-07-23T15:04:37","slug":"meu-chao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/07\/23\/meu-chao\/","title":{"rendered":"Meu Ch\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-20444\" title=\"CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"269\" \/><\/a> \u00a0No anivers\u00e1rio da cidade, como \u00e9 costume, eventos\u00a0 oficiais e comemorativos\u00a0 acontecem. Alguns deles devem lembrar talvez o sergipano F\u00e9lix Severino do Amor Divino. O primeiro homem que pisou este solo de Itabuna e, no lugar denominado Marimbeta, hoje bairro da Concei\u00e7\u00e3o, ergueu uma casa de taipa, plantando ali uma ro\u00e7a de cereais e cacau. O primeiro homem que recuou a mata hostil e impenetr\u00e1vel. A mata que respirava no dia como se fosse \u00e0 noite, de t\u00e3o fechada. Severino do Amor Divino: o desbravador que primeiro conversou com os bichos e cultivou o solo \u00famido na solid\u00e3o verde da mata.<\/p>\n<p>Falar do in\u00edcio da cidade \u00e9 tocar em seu parto \u00e9pico, tempo de solid\u00e3o feita suor, talhos, atalhos e l\u00e1grima. Buscar os vest\u00edgios do que a cidade ainda estava longe de ser. Dizer daquele homem e os outros que vieram depois regados de paix\u00e3o pela terra, latejando sentimentos na brasa verdejante de ventos gemedores, que acenavam com grandeza e pot\u00eancia. \u00c9 lembrar a \u00a0morte na febre. Na picada. Na cangalha. No salto. Na rede. Na capanga. No galope. De v\u00e9u e grinalda nas l\u00e9guas tiranas. Tempo de uma flor que deu um fruto com a cor de ouro, brotando a esperan\u00e7a em qualquer parte das l\u00e9guas da promiss\u00e3o. \u00a0Falar do visgo desse fruto, que era forte, do homem que era ainda mais forte.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Desbravando a terra, penetrando, construindo arruados, implantando e consolidando a lavra do cacau, o sergipano tem amanhecer fundamental na forma\u00e7\u00e3o de uma saga feita de cobi\u00e7a e morte. Pouco mais de cem anos depois \u00a0parece um sonho, a cidade pulsar \u00a0num corpo incessante de quase duzentos e cinq\u00fcenta mil habitantes. Pulsando e se impulsionando com o trabalho de sua gente, escalando \u00a0o azul do c\u00e9u com edif\u00edcios e repercutindo \u00a0esse mist\u00e9rio que \u00e9 o homem engastado no pasto da mem\u00f3ria dentro dessa coisa a que se chama vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ventos pioneiros percorrem hoje o ch\u00e3o de minhas ra\u00edzes. Eles acendem em mim essa escrita enorme na terra lavrada com m\u00e3os grossas. O machado na m\u00e3o, o cintur\u00e3o de cip\u00f3, o fac\u00e3o na bainha. Era isso o homem? Tecer na selva de si mesmo e de fora o velho aprendizado da utopia? No rigor do dia, golpes e cortes, domar o tempo com voz frugal?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pelas m\u00e3os da aurora dispor a vontade coesa do caos em que pretendia se estender por serras e baixadas? Examino neste instante essas m\u00e3os, pernas e rostos, vermelhos, pretos, brancos, esses elementos r\u00fasticos trabalhados em m\u00fasculos e tend\u00f5es.<\/p>\n<p>Escuto esses passos de gume, bebo \u00e1gua na talha sustentada na base com o encaixe \u00a0de putumuju. Sento-me no banco de vinh\u00e1tico. \u00a0Fera ferida e sonora, vejo que esse homem grapi\u00fana \u00a0renascia no verde pelas m\u00e3os da aurora, \u00a0como um mato qualquer. Na neblina inclemente, na serra com on\u00e7a, no a\u00e7oite do vento. Comia insetos e bebia \u00e1gua de ribeir\u00e3o. Enxergava no escuro com luz de candeeiro. Contava os dias com a passagem da lua. A folhinha nascia dos talhos feitos na jaqueira. No entardecer, conversava com os sapos na lagoa, Dormia cedo, bem cedo, \u00a0embalado nos bra\u00e7os do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Homem e mulher no coito de on\u00e7a na cama de vara, mal a noite deitava o manto escuro \u00a0l\u00e1 fora. \u00a0A mulher tamb\u00e9m com as m\u00e3os no toco. No cabo. No burro. No ventre. Nos porcos. No fogo. No buraco. Nos olhos. Jogava m\u00e3os de milho para as galinhas assanhadas de fome no terreiro. Homem desbravador e mulher parideira. Como peixe e \u00e1gua, p\u00e1ssaro e c\u00e9u, raiz e ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a cidade completa 101 anos \u00a0de\u00a0 emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, eu vejo que\u00a0 n\u00e3o sou uma simples pessoa em separado. Tenho o mesmo sangue antigo, o mesmo sangue vermelho em seu curso hist\u00f3rico feito de paix\u00e3o. Sinto-me bem quando leio \u00a0os versos de Walt Whitman:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu me planto no ch\u00e3o<\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><em>para crescer com a relva<\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><em>que eu amo<\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212;<\/em><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Cyro de Mattos<\/strong> \u00e9 autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Itabunense de Cultura e Cidadania.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0No anivers\u00e1rio da cidade, como \u00e9 costume, eventos\u00a0 oficiais e comemorativos\u00a0 acontecem. Alguns deles devem lembrar talvez o sergipano F\u00e9lix Severino do Amor Divino. O primeiro homem que pisou este solo de Itabuna e, no lugar denominado Marimbeta, hoje bairro da Concei\u00e7\u00e3o, ergueu uma casa de taipa, plantando ali uma ro\u00e7a de cereais e cacau. 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