{"id":21395,"date":"2011-08-05T15:45:26","date_gmt":"2011-08-05T18:45:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=21395"},"modified":"2011-08-05T15:45:26","modified_gmt":"2011-08-05T18:45:26","slug":"%e2%80%9crapidinhas-de-coelho-e-prolongadas-de-tartaruga%e2%80%9d-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/08\/05\/%e2%80%9crapidinhas-de-coelho-e-prolongadas-de-tartaruga%e2%80%9d-2\/","title":{"rendered":"\u201cRAPIDINHAS (de Coelho) e PROLONGADAS (de Tartaruga)\u201d"},"content":{"rendered":"<p><center><strong>O ESTIVADOR<\/strong><\/center><\/p>\n<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/ANTONIO-OL%C3%8DMPIO-AO-para-o-site.jpg\"\/>O antigo porto de Ilh\u00e9us, situado na enseada do rio Cachoeira recebeu, durante um consider\u00e1vel per\u00edodo, navios de grande porte, tanto de passageiros como cargueiros, at\u00e9 que a barra do morro de Pernambuco sofreu consider\u00e1vel assoreamento, inviabilizando o acesso. Os cargueiros, em sua maioria, eram de bandeira sueca, embora outros americanos, russos, holandeses, etc., tamb\u00e9m aqui aportassem. Tais navios transportavam especialmente cacau para a Europa. De um modo geral todos esses navios eram chamados pela popula\u00e7\u00e3o de suecos, independentemente das suas nacionalidades.<\/p>\n<p>O personagem principal enfocado nesta hist\u00f3ria \u00e9 o ilheense Oseas, mais conhecido pelo apelido de SUECO. Ele era um dos mais de vinte filhos de prol\u00edfico cidad\u00e3o que se relacionou com v\u00e1rias mulheres. O pr\u00f3prio Sueco dizia desconhecer todos os seus irm\u00e3os e contava uma passagem superinteressante. Dizia que seu pai tinha tantas mulheres que uma delas era ao mesmo tempo sua m\u00e3e e sua irm\u00e3, e explicava: \u201cMeu pai relacionou-se com uma mulher que j\u00e1 tinha uma filha, quase da minha idade. Rompeu tal v\u00ednculo e passou a viver com a enteada. Desse modo a enteada que era minha \u201cirm\u00e3\u201d ao mudar de \u201cstatus\u201d passou a ser minha \u201cm\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O apelido Sueco deveu-se ao fato de Oseas na adolesc\u00eancia frequentar o cais do antigo porto e relacionar-se com os marinheiros dos diversos navios, prestando-lhes v\u00e1rios favores. Vendia ou trocava wisky por \u00e1lcool (os russos, especialmente, s\u00f3 gostavam de bebida forte e chegavam a beber a beb\u00ea-lo com 90\u00ba. Al\u00e9m disso, os levava para o brega (Rua do Dend\u00ea e do Sapo) onde servia de int\u00e9rprete). Foi desse modo que aprendeu a falar ingl\u00eas e que ganhou o famoso apelido. Tornou-se t\u00e3o conhecido entre os marinheiros estrangeiros e at\u00e9 mesmo da oficialidade que conseguiu embarcar como clandestino num navio de bandeira americana e chegar aos Estados Unidos. L\u00e1 conseguiu seu primeiro emprego num restaurante, onde come\u00e7ou descascando batatas e fazendo outros servi\u00e7os como auxiliar de cozinha, passando a cozinheiro e gar\u00e7om, Este restaurante tinha uma peculiaridade. Eram os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios respons\u00e1veis pela apresenta\u00e7\u00e3o dos shows. Desse modo Sueco aprendeu a sapatear, tocar piano, bateria e a imitar cantores famosos como Bing Crosby, Perry Como, Frank Sinatra, Tony Benett, Frank Lane, Billy Eckstine, Louis Armstrong e Gene Kelly. Contava que lutou na guerra da Cor\u00e9ia como volunt\u00e1rio. Ap\u00f3s a guerra veio para Santos, onde entrou para a estiva.<br \/>\nEu o conheci aqui em Ilh\u00e9us, na \u00e9poca do jogo, que funcionava nas boates do Ilh\u00e9us Hotel, O.K., e Vogue. Onde ele estava sempre havia uma grande concentra\u00e7\u00e3o de pessoas ouvindo atentamente suas hist\u00f3rias. Ele dramatizava as narrativas, fazendo gestos largos, express\u00f5es faciais correspondentes \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o ou de qualquer outro personagem da hist\u00f3ria, franzindo o cenho, escancarando o sorriso, fingindo chorar, dando rasteira, soco, pontap\u00e9, escorregando, fugindo, etc. Cada passagem era interpretada at\u00e9 com voz especial para cada participante da hist\u00f3ria. Outra peculiaridade digna de men\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele quando contava qualquer caso em que era personagem sempre levava desvantagem. Se era briga, apanhava, em neg\u00f3cio tinha preju\u00edzo, com mulheres sempre era passado para tr\u00e1s. Sem contar vantagem conseguia sempre atrair simpatia dos seus ouvintes. Na boate \u201cOK\u201d sempre o encontrava ou ap\u00f3s o t\u00e9rmino do show costumava jantar no seu restaurante \u201cBlue Moon\u201d, na Rua do Sapo.  O aludido restaurante s\u00f3 preparava fil\u00e9 mignon com acompanhamentos diversos. Os principais pratos eram o \u201cTornedos \u00e0 Rossini\u201d, \u201cChateaubrind\u201d, \u201cScalopini\u201d, \u201cPoivre Vert\u201d,ao Madeira\u201d, \u201c\u00c0 Oswaldo Aranha\u201d e \u201cRoncolho\u201d (este era uma fil\u00e9 com fritas, arroz e apenas um ovo). Os pratos eram preparados por ele mesmo, que tinha uma habilidade enorme para apresentar inova\u00e7\u00f5es, especialmente na feitura de batatas. Foi a primeira vez que vi batatas \u201cRostie\u201d al\u00e9m de outras variedades que n\u00e3o conhec\u00edamos por aqui.<br \/>\nQuanto a maneira de trajar era tamb\u00e9m bastante original e ex\u00f3tico. Seus ternos eram normalmente de cores claras (branco, creme, cinza, lil\u00e1s, etc.), os tecidos eram o linho, rayon, \u201cPalm Beach\u201d e \u201cPanam\u00e1\u201d. As gravatas eram bem espalhafatosas, com motivos havaianos: mulheres nuas, coqueiros, sufistas e coisas do g\u00eanero. Quando trajava esporte usava \u201cjeans\u201d e camisas do g\u00eanero das gravatas. No bolso do palet\u00f3 pendia sempre um len\u00e7o que mais parecia uma gaivota em pleno voo \u2013 lembrando o saudoso Nagib Daneu.<\/p>\n<p>Foi mais ou menos nessa \u00e9poca que apareceram por aqui George Green (famoso cantor panamenho, de calipso, salsa, merengue e outros ritmos caribenhos) e sua companheira, a portenha Anita, que era dan\u00e7arina solo. Ambos se apresentavam na \u201cOK\u201d em shows separados e tinham uma legi\u00e3o de f\u00e3s. Ap\u00f3s concluir o tiro de guerra fui estudar no Rio de Janeiro e morei na Rua Paula Freitas, no ap. n\u00ba 509, do Edif\u00edcio Newton, passando a vir a Ilh\u00e9us apenas nas f\u00e9rias, onde encontrava ocasionalmente Sueco. No mesmo pr\u00e9dio em que eu estava morando no Rio, moravam George Green e Anita, no apt. 705. George se apresentava \u00e0s noites do \u201cScotch Bar\u201d e tamb\u00e9m integrava o show da Boate Night and Day, dirigido pelo  famoso Carlos Machado. Num determinado dia eu voltava para casa e saltei de um lota\u00e7\u00e3o na esquina da N.S. de Copacabana com Paula Freitas, quando encontrei Sueco no boteco \u201cCaruso\u201d. Ele fez uma festa enorme e me convidou para tomar um chope, dizendo ter muitas novidades para me contar. Come\u00e7ou a narrativa: \u201cOlha Ant\u00f4nio, outro dia encontrei aqui mesmo nesta esquina Anita, a mulher George Green. Convidei-a para um chope e batemos longo papo. Perguntei-lhe por George e ela me disse que estavam separados. Ele estava morando com uma mulata, passista da Portela, que tamb\u00e9m se apresentava no show de Carlos Machado.\u201d Depois de bebermos v\u00e1rios chopes ela me convidou para beber um \u201cCuba Libre\u201d em seu apartamento. \u201cL\u00e1 chegados serviu os drinques e ligou o som, colocando discos de m\u00fasica caribenha (mambos, rumbas, guarachas, salsas, calipsos, merengues). Bebemos bastante dan\u00e7amos. Em determinado momento, quando est\u00e1vamos sentados no sof\u00e1 da sala ela, absolutamente de inopino, pegou meu bilau e beijou no capricho. Eu tomei um grande susto, por\u00e9m logo me recompus. Por uma quest\u00e3o de princ\u00edpio n\u00e3o gosto de ficar devendo favor a ningu\u00e9m. Fiel aos meus princ\u00edpios, BEIJEI-LHE A XERECA.       <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ESTIVADOR O antigo porto de Ilh\u00e9us, situado na enseada do rio Cachoeira recebeu, durante um consider\u00e1vel per\u00edodo, navios de grande porte, tanto de passageiros como cargueiros, at\u00e9 que a barra do morro de Pernambuco sofreu consider\u00e1vel assoreamento, inviabilizando o acesso. 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