{"id":21476,"date":"2011-08-08T09:13:46","date_gmt":"2011-08-08T12:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=21476"},"modified":"2011-08-08T09:13:46","modified_gmt":"2011-08-08T12:13:46","slug":"terras-do-sem-fim-jorge-amado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/08\/08\/terras-do-sem-fim-jorge-amado\/","title":{"rendered":"Terras do Sem Fim \/ Jorge Amado"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"269\" \/><\/strong>Em <em>Terras do Sem Fim<\/em>, Jorge Amado\u00a0 vai se abster de emitir julgamento de valor sobre a humanidade. A fatalidade\u00a0 sugerida no clima que\u00a0 a narrativa desenvolve emerge do desbravamento e conquista da terra, empresa tr\u00e1gica em seus rastros de desgra\u00e7a, quase\u00a0 imposs\u00edvel em si mesma de se realizar. Exigia homens r\u00fasticos\u00a0 de forte determina\u00e7\u00e3o, vontade indom\u00e1vel na luta pela posse da\u00a0 terra. Em ep\u00edgrafe\u00a0 extra\u00edda do romanceiro popular, o autor anuncia em <em>Terras do Sem Fim<\/em> que vai contar uma hist\u00f3ria\u00a0 de espantar. Para\u00a0 fugir\u00a0 do\u00a0 tom realista que essa hist\u00f3ria de espantar imp\u00f5e\u00a0 em seu argumento central, a luta entre o coronel Hor\u00e1cio e o cl\u00e3\u00a0 dos Badar\u00f3s pela posse das terras\u00a0 do Sequeiro\u00a0 Grande, no antigo Pirangi, o autor\u00a0 p\u00f5e\u00a0 na narrativa a\u00a0 perspectiva de tragicidade. A atmosfera que envolve a luta pela posse da terra, j\u00e1 antes de acontecer, conota-se de press\u00e1gios amea\u00e7adores, havendo alus\u00f5es no navio, logo no in\u00edcio da narrativa, quando ent\u00e3o aparece a cor ensang\u00fcentada da lua sobre o mar, acontecem conversas de lamento e saudade, can\u00e7\u00f5es tristes como aug\u00farios de desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Na segunda parte do romance, o autor refere-se \u00e0 mata como <em>uma virgem cuja carne nunca tivesse sentido a chama do desejo ( <\/em>Conf. p\u00e1g.44), mas que agora ia ser desejada pelos que chegavam\u00a0 para recu\u00e1-la. Um deus terr\u00edvel, a mata, com suas assombra\u00e7\u00f5es\u00a0 infundindo medo no cora\u00e7\u00e3o, nela somente morando o negro Jeremias, o que vivia com as cobras e fechava o corpo\u00a0 dos homens\u00a0 contra bala. O feiticeiro com suas pragas e vis\u00f5es, dizendo que <em>cada p\u00e9 de pau derrubado ia ser um homem derrubado, os urubus tantos que esconderiam o sol<\/em>. ( Conf.p\u00e1g.125)<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em <em>Terras de Sem Fim<\/em> h\u00e1\u00a0 lugar tamb\u00e9m para o amor, tema permanente em Jorge Amado, representado agora pela hist\u00f3ria da\u00a0 liga\u00e7\u00e3o entre o advogado Virg\u00edlio e Ester, a mulher\u00a0 do coronel Hor\u00e1cio. Mas a grande arte\u00a0 de Jorge Amado est\u00e1 aqui expressa atrav\u00e9s da supera\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzos ideol\u00f3gicos, constru\u00eddos na reciclagem inteligente que o romancista imprime \u00e0s constantes do velho Naturalismo, sempre estruturado com os\u00a0 elementos referenciais de meio, momento e ra\u00e7a. Na dic\u00e7\u00e3o\u00a0 po\u00e9tica apoiada nos cord\u00e9is a que recorre para projetar um vasto mural de cunho \u00e9pico da civiliza\u00e7\u00e3o cacaueira baiana, Jorge Amado alcan\u00e7a com o discurso indireto, \u00e0s vezes livre, uma das\u00a0 realiza\u00e7\u00f5es mais bem sucedidas a que\u00a0 atingiu a fic\u00e7\u00e3o regionalista brasileira.<\/p>\n<p>Romancista que narra o que viu,\u00a0 viveu e presenciou, Jorge Amado usa a experi\u00eancia pessoal para\u00a0 revelar em <em>Terras do Sem Fim<\/em> a\u00a0 situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que certos personagens vivem. Do conjunto de cenas e situa\u00e7\u00f5es, que formam o desenrolar\u00a0 objetivo de acontecimentos, o narrador dram\u00e1tico emerge da express\u00e3o latejando sentimentos, vibrante de interioridade. No caso\u00a0 do negro Dami\u00e3o, homem\u00a0 de confian\u00e7a\u00a0 de Sinh\u00f4 Badar\u00f3, certeiro de pontaria, incumbido de matar\u00a0 o posseiro Firmo na mata do Sequeiro Grande, a tomada de consci\u00eancia dessa situa\u00e7\u00e3o, <em>que sua profiss\u00e3o era matar<\/em>, sendo assim a de um jagun\u00e7o que, quando n\u00e3o havia\u00a0 homens para derrubar na estrada, \u201c<em>ele n\u00e3o tinha nada que fazer<\/em>\u201d ( Conf. p\u00e1g.80), esse mergulho terr\u00edvel em si mesmo acontece no interior do pensamento. Era tamb\u00e9m um assassino, palavra justa\u00a0 que o coronel Sinh\u00f4 Badar\u00f3 empregara a respeito do irm\u00e3o naquela tarde, quando perguntou a Juca Badar\u00f3: <em>Tu<\/em> <em>acha bom matar gente, negro? Tu n\u00e3o sente nada ? Nada por dentro?<\/em> ( Conf. p\u00e1g.66) Sentimentos tristes, imagens aflitivas, reflex\u00f5es agudas, pensamentos carregados de dor fluem na narrativa h\u00e1bil\u00a0 para fixar o estado de remorso do jagun\u00e7o. N\u00e3o se cumpre a empreitada sinistra, o negro Dami\u00e3o preso ao seu desespero erra o tiro pela primeira vez e, como uma crian\u00e7a castigada pelo destino, vai errar\u00a0 pelos caminhos do mato com a sua loucura.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>*Cyro de Mattos \u00e9 autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Itabunense de Cultura e Cidadania.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Em Terras do Sem Fim, Jorge Amado\u00a0 vai se abster de emitir julgamento de valor sobre a humanidade. 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